São Paulo, 04 de Dezembro de 2016

/ Opinião

A dívida grega voltará ao noticiário?
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Em meio às pressões para que o governo grego cumpra seus compromissos, há um leque de alternativas como a saída da zona do euro

Há tantas crises e conflitos nesse vasto mundo que às vezes nos esquecemos daquelas que estão latentes, prontas para voltar ao centro do palco. A Grécia é um bom exemplo disso.

Lá, a crise está se aproximando de seu clímax. As dificuldades de pagamento com seus credores, bancos europeus e o FMI, vêm de longa data e a cada ano tornam-se maiores.

Há uma grande chance de que a Grécia não consiga honrar os próximos pagamentos previstos e, desta vez, os credores afirmam que não concederão novas condições para que os pagamentos sejam efetuados.

Como das vezes anteriores, nada garante que os credores não estejam blefando e nada ocorra se a Grécia deixar de honrar seus compromissos. Foi o que aconteceu, por exemplo, com a Argentina, que ficou insolvente com os credores e nem por isso deixou de ter acesso ao mercado financeiro internacional.

Por outro lado, caso seja impossível pagar e os banqueiros concedam um novo empréstimo para saldar compromissos em atraso, o que ganha a Grécia com o simples postergar o problema?

A pergunta faz sentido precisamente porque a estrutura da dívida grega não é sustentável. Algum outro tipo de solução precisa ser encontrada para assegurar sustentabilidade ao financiamento da economia grega.

A Hungria, em menor escala, esteve às voltas com problema semelhante. Não fazendo parte da zona do euro, mas tendo empréstimos externos nessa moeda, o governo húngaro decidiu pagar sua dívida externa com os bancos europeus na moeda nacional, o forint.

Os credores espernearam, mas acabaram aceitando a decisão unilateral húngara. Seria essa uma opção para a Grécia?

Alternativa ou não, o problema do país não se restringe à forma de pagamento de sua dívida, mas às consequências de fazê-lo. A história ensina que maciças transferências de recursos para o exterior acabam por tornar inviável o funcionamento de qualquer economia.

Basta ter mente as consequências das condições impostas pelos vencedores à Alemanha derrotada na Primeira Guerra Mundial: desordem social e um governo de extrema direita que acabou por levar o país a uma Segunda Guerra, mais destruidora e sangrenta que a primeira.

Portanto, para permitir que a Grécia possa, de maneira ordenada, honrar seus compromissos financeiros, não é desejável manter o país continuamente sob a ameaça de um corte brusco nas fontes de financiamento externo.

Isso não assegura a governabilidade hoje nem permite a retomada do crescimento amanhã.

Como a questão da dívida grega tornou-se um problema de ordem moral para a Alemanha e o FMI, há que levar em conta também a posição do partido Syriza, vencedor das últimas eleições gregas.

Esse partido representa o outro lado da moeda, que considera também um problema de ordem moral exigir que todo o povo pague uma dívida que não concluiu.

Contudo, relações entre credores e devedores não são de natureza moral, quaisquer que sejam os sentimentos de uns e de outros. Essas relações têm a natureza de fato, não implicações éticas.

E outro fato é que, para pagar a seus credores, a Grécia precisa exportar, obter euros, e pagar aos bancos e ao FMI.

A Alemanha exporta hoje mais de 50% de seu PIB, para todos os países europeus bem como para o restante do mundo. Sobra pouco espaço para os gregos competirem com os alemães, dada a maior produtividade desses últimos.

A competitividade dos produtos e serviços gregos aumentaria se o país pudesse desvalorizar sua moeda. Com isso, os produtos importados encareceriam, e as exportações se tornariam mais competitivas.

O saldo comercial positivo permitiria estabelecer-se um cronograma realista de pagamento da dívida e o crescimento seria retomado.

É claro que o pressuposto é a saída da Grécia da zona do euro. A rigor, jamais deveria ter entrado, dadas as disparidades econômicas do país com os seus vizinhos ao norte e a oeste. Estando nela, parte da solução seria dela sair.

Sair apenas da zona do euro, não da União Europeia. O espaço de livre comércio tem se mostrado benéfico para todos os seus membros, embora mais para uns, como a Alemanha credora da Grécia, que para outros, menos competitivos que os alemães.

Abandonar a zona do euro, no entanto, é fácil falar do distante Brasil e difícil para o cidadão comum em Atenas. Para os credores alemães é até aceitável esse passo, já que abriria uma avenida de possibilidades de solução para o problema da dívida grega.

O que eles temem é a possibilidade de aumento das barreiras ao comércio que poderiam ser também impostas pela Grécia no futuro. Isso colocaria em risco a manutenção da União Europeia, mercado para o qual a Alemanha exporta 25% do PIB.

Por tudo isso, provavelmente o problema da dívida grega se arrastará, voltará ao noticiário por algum tempo e depois desaparecerá, para voltar mais adiante, cada vez maior.



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