São Paulo, 09 de Dezembro de 2016

/ Opinião

A cúpula da impostura
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A Cúpula das Américas, no Panamá, servirá à diplomacia histriônica da Venezuela e às boas-vindas à ditadura cubana

Está em andamento a Cúpula das Américas, evento que reúne os chefes de Estado do continente. Este ano, ampliado com a presença de Cuba, que retorna ao convívio das demais nações americanas.

O que esperar do evento? O retorno de Cuba dará lugar a inúmeras manifestações de júbilo. Quase todas, senão todas, ignorando que a democracia e as liberdades dos cidadãos continuam tão ceceadas como sempre estiveram desde a mudança do regime em 1º de janeiro de 1959.

De qualquer forma, a restauração de relações entre os Estados Unidos e Cuba é fato relevante que pode contribuir para a tão desejada abertura política do país.

Mais não seja porque 56 anos de sanções econômicas dos Estados Unidos serviram apenas de pretexto para o regime cubano culpar os Estados Unidos todos os males que assolam por décadas.

Sanções serão também o pretexto que utilizará o governo totalitário de Nicolás Maduro para culpar os EUA pelas suas mazelas.
Mas que sanções são essas que poderiam estar criando tantos problemas para o regime bolivariano da Venezuela, como a crônica falta de gêneros de primeira necessidade, a maior inflação do planeta e um descontentamento descomunal que dividiu ao meio o país?

Parece incrível que passados 15 anos do início do atual século a mentira continue a proliferar impune em tantas partes do mundo. Para nós, tendo a pobre Venezuela como país vizinho, é motivo maior de tristeza e revolta.

As sanções a que faz menção o governo venezuelano cinge-se a grupo singelo e inócuo de medidas simbólicas tomadas pelo governo americano contra sete indivíduos, repito sete, contra os quais há fortes evidências de violações brutais de direitos humanos no país.

Essas medidas simbólicas restringem-se à negativa de conceder visto de entrada nos EUA a essas pessoas e à negativa de que os mesmos mantenham ativos financeiros no país. Nesse último caso, certamente porque não confiam seu patrimônio ao governo a quem servem.

Nada disso foi explicado ao povo venezuelano, ou à comunidade de nações que ora se reúne no Panamá. O que está sendo dito aos venezuelanos é que os Estados Unidos mais uma vez impõem sanções a um país porque esse vê seus interesses contrariados pelo governo de plantão na terra de Bolívar.

Não interessa a Maduro e seus subordinados lembrar que a Venezuela sobrevive graças à ausência de um embargo sobre o que realmente poderia desestabilizar mais ainda o país: suas exportações de petróleo.

Os Estados Unidos são o principal destino das exportações de petróleo venezuelano. E diferentemente de Cuba, que paga preços na bacia das almas, as empresas americanas que compram o petróleo venezuelano pagam preços de mercado.

Triste nação venezuelana. O país é dono das maiores reservas de petróleo do mundo, superiores às reservas da Arábia Saudita e da Federação Russa. Se não tivesse, ao tempo ainda de Chávez, afastado o investimento de empresas privadas estrangeiras interessadas em sua exploração, estaria hoje em muito melhor situação econômica.

O país e sua população, hoje parcamente tendo o que comer, sentada em cima de formidáveis reservas de petróleo.
Esse nacionalismo exacerbado e pueril não poupou sequer sua própria estatal petrolífera, no passado uma empresa com corpo técnico de alta qualidade, hoje em ruínas.

O próprio Chávez, imitando Stalin, os defenestrou sob o pretexto de que teriam participado de tentativa de golpe contra seu governo – cujas origens remontam à má sucedida tentativa de golpe de Estado contra o governo do presidente Carlos Andrés Pérez, em 1992.  

Que consequências importantes para os países do continente advirão da Cúpula do Panamá? Do nosso ponto de vista, permitirá o encontro entre os presidentes Barack Obama e Dilma Rousseff, quem sabe pondo um ponto final do desencontro entre os dois mandatários após o conhecimento das atividades da SNA contra ‘Dilma.

Talvez permita marcar uma nova visita de Estado de nossa presidente aos Estados Unidos, quando itens relevantes da pauta de nosso relacionamento possam ser adequadamente discutidos.

No mais, as eternas declarações de amizade que unem os países da região.

Abraços e afagos às autoridades cubanas, como o retorno do aluno suspenso à sala de aulas depois de longo afastamento. O silêncio constrangedor dos representantes dos países reunidos com relação ao crescente autoritarismo do governo venezuelano. Simples assim.
 
 



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