São Paulo, 27 de Setembro de 2016

/ Opinião

A canoa furada
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Para Joaquim Barbosa, não basta ser popular para se eleger presidente. Em 1986 a campanha a governador de SP de Antonio Ermírio foi uma boa lição

Ganha corpo o zunzunzum para fazer de Joaquim Barbosa candidato à presidência da República em 2018, mas o ex-ministro ainda não está filiado a nenhum partido político.

O principal argumento dos defensores da candidatura de Barbosa é que, como presidente do STF, conduziu com mão de ferro o julgamento, condenação e prisão dos envolvidos no Mensalão do PT, um rumoroso processo que provocou reação de petistas porque o mesmo Supremo se recusou a julgar em seguida um outro Mensalão, o do PSDB, cujo réu nº 1 é um ex-governador de Minas, que acabou sendo um dos pilares da campanha de Aécio Neves ao Planalto.

O PT protestou porque o processo do Mensalão tucano retornou ao tribunal de Belo Horizonte para que juízes mineiros julguem um ex-governador de Minas. O partido confiava na condenação do ex-governador Eduardo Azeredo e na sua prisão na Papuda, mesmo presídio onde cumpriam penas os petistas José Dirceu e José Genoíno.

Joaquim Barbosa se aposentou no STF gozando de profunda admiração da população e com o Ibope em alta. Mas, a história política ensina que não basta a um candidato à chefia de um Poder Executivo – sobretudo a de presidente da República - ser admirado para conseguir se eleger.

Tradicionalmente, eleição para o Executivo se ganha amparado por uma sólida estrutura partidária, como as do PT e PSDB e, num segundo plano, também a do PMDB.

O ex-ministro, portanto, teria mais condições de se eleger se viesse a ser candidato pelo PT ou PSDB, mas não por um partido sem expressão ou nanico.

Estão pretendendo fazer com o jurista Joaquim Barbosa o que foi tentado em São Paulo em 1986 com o empresário Antonio Ermírio de Moraes, cuja candidatura ao governo do Estado foi bancada pelo PTB.

Como repórter político do Estadão, na época, acompanhei toda a campanha de Antonio Ermírio e, por dois ou três meses, constatei o grau de admiração que o candidato gozava entre os paulistas.

Confesso que não encontrei na capital e interior uma única pessoa que fizesse qualquer tipo de restrição ao empresário nº 1 do País. Mas, quando a eleição chegou, veio também a confirmação do que já desconfiávamos: o povo admirava Antonio Ermírio mas elegeu Orestes Quércia.

É duvidoso confundir prestígio pessoal com voto. Tomemos um exemplo no campo esportivo: nenhum santista é mais enaltecido na cidade do que Pelé, o “Atleta do Século”. Mas, cabe a pergunta: Pelé conseguiria se eleger prefeito de Santos?

O grande Rui Barbosa é outro bom exemplo: era o maior jurista do País, ferrenho abolicionista e republicano de primeira hora que ajudou a derrubar a monarquia, mas que acabou perdendo as duas eleições que disputou para a presidência da República.

E, o que dizer do homem do século 20, o extraordinário estadista Winston Churchill, - orgulho dos ingleses- que ganhou a guerra mas perdeu a eleição.

Se candidato vier a ser, Joaquim Barbosa – apesar de ser enaltecido e reconhecidamente admirado pela população -  pode ter o dissabor de ser reprovado pelo eleitor.

Sua canoa pode fazer água. O povo admira o ex-ministro mas, na hora H, pode eleger Lula, ou Aécio Neves, ou José Serra, ou, ainda, Geraldo Alckimin.

Joaquim Barbosa, enfim, pode conhecer na esfera federal o mesmo desencanto que levou Antonio Ermírio a abominar, até a morte recente, a vida pública.

 



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