São Paulo, 04 de Dezembro de 2016

/ Opinião

A cadeira vazia
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A cerimônia do Oscar limitou-se, no domingo, a uma caricatura do igualitarismo presente na cultura americana

Foi o Oscar dos Direitos Humanos, tanto pelos discursos quanto pelas escolhas dos filmes vencedores, havendo quem enxergue na derrota de Clint Eastwood o troco ao seu discurso feito em 2012, quando entrevistou o “Invisível Obama“.

Todo ano, a cerimônia do Oscar atrai a atenção do mundo, mais do que para seus filmes e discursos tomados isoladamente, para o que eles têm em comum. 

Um filme conta uma estória, já um discurso fala de um futuro, tratando, tanto um quanto outro, de História, a que se tem e a que se quer.

E o cinema norte-americano, por ser tanto manifestação cultural quanto expressão econômica, influi, não somente nos Estados Unidos, como no mundo afora, matizada essa influência aqui e acolá pelo grau de liberdade e pela cultura de cada sociedade, tomado por vezes como ameaça direta, haja vista o que aconteceu recentemente aos estúdios da Sony.

O reconhecimento de sua influência não significa tê-lo por fidedigno na interpretação dos fatos, acontecimentos e realidades, mas sim aceitar o papel que ele desempenha, mais do que como instrumento de cultura de massa (não na visão estreita de Adorno), também como expressão de tendências orientadas por interesses, tal como ocorre com as produções televisivas no Brasil.

O cinema norte-americano definiu padrões de moda e beleza, apregoou virtudes e valores, bem como afastou e aproximou os Estados Unidos de guerras e povos, ajudando a induzir comportamentos e atitudes que deram tons ao mundo desde o início do século XX.

Hoje, ele se orienta pelo ethos da igualdade e da justiça, mas por um tipo particular de igualdade e justiça que pode ser intrinsicamente diverso, até mesmo contrário, às suas concepções originais e fundamentais.

A luta pela igualdade e justiça no mundo de hoje, em defesa de “minorias”, independentemente de como elas sejam definidas, por sexo, etnia ou orientação sexual, não acontece incondicionalmente, mas em favor de um tipo de minoria; não uma defesa em sua acepção ampla, mas estrita; sendo essa defesa seletiva, portanto, em seus objetos e formas.

E não haveria exagero em afirmar que essa luta, na prática, faz o que é realmente uma minoria - cada vez menor e mais estigmatizada –parecer culpada pelos problemas, fracassos e erros de “minorias” cada vez mais ampliadas.

Algo, por conseguinte, diametralmente oposto ao que seja igualdade e justiça. Isso por que os ideais de igualdade e justiça, que deveriam ser incondicionais e absolutos, estão sendo deslocados para fora deles mesmos, subordinando-se à causa da transformação social orientada ideologicamente.

Uma história da desigualdade e da injustiça no mundo seria a própria história da humanidade, em cujo desenrolar se alternariam no papel de oprimidos e opressores homens e mulheres de todas as cores, origens, religiões e convicções, não poucas vezes perpetrando os maiores males em nome de elevados ideais.

A lição de que a maior luta da humanidade sempre foi e será pela liberdade - sem a qual não há igualdade e pela qual primeiro clama a justiça - nos ensina o quão complicado é seccionar conceitos ou torna-los unilaterais nessa discussão sobre igualdade e justiça, como fez o francês Thomas Piketty  (aplaudido por Paul Krugman e pela Economist) ao excluir o capital humano do capital (O Capital no século XXI, 2014) e o norte-americano Joseph Healey (Diversity and Society: Race, Ethnicity and Gender, 2012) ao cunhar o conceito de racismo ideológico, um sistema de crenças que afirma a inferioridade de um grupo ou grupos, tomando-se aqui dois exemplos muito distintos em termos de repercussão mundial, mas que atingem quase que igualmente nossa sociedade.

Piketty e Healey desconsideraram, ou pelo menos minimizaram, fatores essenciais aos campos sobre os quais se debruçaram, respectivamente, o papel do conhecimento na economia, tal como abordado pela professora do MIT Alice Amsden, e  a “multiplicidade intrincada, sutil, diversa e fluída do mundo social”, tal como apontado por Anísio Teixeira em seu prefácio à Sociologia de Gilberto Freyre (1957).

Nestes trópicos nos quais se tem bem viva a falta que faz o conhecimento em suas diversas expressões, mas por outro lado remanesce a multietnicidade espontânea, soam estranhos os discursos do Capital relançado e da ideologia de minorias.

Das sociedades desenvolvidas seria melhor esperar a reiteração da fé na Liberdade, tal como ela se institucionalizou pela Déclaration des Droits de l'Homme et du Citoyen (a de 1789, que permaneceu válida), pelo Bill of Right of United States (1791) e pela Declaração da ONU (1948), não sinais de hesitação e recuo.
 
A história política dos Estados Unidos pode ser resumida na sua determinação em defender os princípios nos quais se fundaram sua organização social, política e econômica e que serviram de exemplo ao mundo, aqui no Brasil aos Inconfidentes no final do século XVIII.

Neste momento transparece uma incerteza quanto à crença nesses princípios, por parte de quem talvez esteja abrindo mão de influir na História, se não mais dirigindo, encenando os principais papéis do grande filme do mundo moderno.

 



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