Opinião

A questão por trás do problema


No sistema político francês, muito mais rígido do que o britânico, um chefe de governo malsucedido na política externa e desacreditado em casa pode fazer um estrago bem maior, e não limitado apenas à França, sobre a qual agora pesam, sem a menor dúvida, maiores responsabilidades


  Por Sérgio Paulo Muniz Costa 27 de Abril de 2017 às 17:08

  | Historiador


A Europa tem um grande problema a resolver, de fato, um problema que não é só dela: a sobrevivência do sofisticado sistema de relações interestatais que ela construiu ao longo de setenta anos.

Depois de quase duas décadas de hegemonia tecnocrática centrada em Bruxelas, a Europa está voltando aos tempos em que as decisões sobre o seu futuro tinham nomes e rostos, como Konrad Adenauer, Charles De Gaulle e Harold Macmilliam.  

A inquietação das populações dos países europeus com temas candentes  e bem atuais trouxe de volta os políticos e os partidos à direção da União Europeia, não somente no que diz respeito ao rumo que ela vai tomar nos próximos anos, mas também ao próprio exercício do poder. 

Uma primeira análise do panorama da Europa dá a impressão de que os seus grandes problemas são a ameaça terrorista e a imigração descontrolada. 

Estas podem ser razões de estridência contra a União Europeia, mas estão longe de ser preocupações exclusivamente europeias, na medida em que atingem boa parte do mundo. 

O verdadeiro problema da Europa que não está vindo à tona nos noticiários e nos discursos é bem europeu. Trata-se, mais uma vez, da Europa lidar com a própria História.  

Um renomado historiador começava suas aulas sobre a política inglesa com uma platitude: “a Inglaterra é uma ilha”. Mais do que sobre geografia, ele estava falando da insularidade britânica em termos políticos, de medidas, de tráfego e de moeda que se reflete na relação dos ingleses com os demais europeus.  

Já Paris e seus arredores contam outra história: da centralidade, do universalismo e da gloire que alimentam tanto a nostalgia como o protagonismo da França no cenário europeu e mundial. 

E a Alemanha, reunificada, reconstruída e rica, reina no continente, mas continua procurando um papel para o seu poder no mundo. Que o digam seus museus, sua memória e suas hesitações.

Mas, tal como a Alemanha, destruída e dividida pela maior guerra da História, a Europa supranacional teve que aprender rápido, em apenas trinta e cinco anos, para lidar com dez séculos de histórias nacionais. Do Tratado de Roma (1957) ao Tratado de Maastrich (1992) ela aprendeu muito para ir das intenções aos compromissos. E para isso teve que metabolizar a insularidade inglesa, a nostalgia francesa e o poder alemão.  

Nesse meio tempo, enquanto Macmilliam esnobava a Europa e De Gaulle vetava a entrada da Inglaterra na Comunidade Econômica Europeia, Adenauer já sonhava com mercados bem mais amplos. 

A Guerra Fria, entretanto, impunha voos mais modestos à Alemanha. Com a queda do Muro, em 1989, isso acabaria, e três anos mais tarde a União Europeia tomaria forma.

Hoje, ao contrário do que sugere o reducionismo dos ideólogos de plantão, a França e a Europa têm problemas bem maiores do que Le Pen. 

Um pouco mais de isenção e objetividade deveria despertar fundadas preocupações sobre a capacidade de o candidato inventado contra Le Pen, e virtual vencedor das eleições francesas, ser consistente o bastante para lidar com a Alemanha de que primeiro-ministro for. 

No sistema político francês, muito mais rígido do que o britânico, um chefe de governo malsucedido na política externa e desacreditado em casa pode fazer um estrago bem maior, e não limitado apenas à França, sobre a qual agora pesam, sem a menor dúvida, maiores responsabilidades.

Dependendo do resultado final do Brexit, o edifício da União Europeia sustentado pelos pilares franco-britânico e alemão ficará desequilibrado, e poderá vir abaixo, a começar pela sua estrutura monetária. Da próxima vez que surgir na zona do euro um caloteiro nos moldes gregos, a Alemanha pode se descobrir irremediavelmente sozinha. 

E, do outro lado do Atlântico, determinados círculos republicanos, sempre irritados com os europeus, também podem descobrir, da pior forma, que a desintegração da União Europeia vai colocar desafios aos Estados Unidos bem maiores do que os enfrentados no pós-Segunda Guerra, certamente excessivos para a 
sua atual estatura político-militar no mundo.   

Um colapso da União Europeia terá dois grandes perdedores, Estados Unidos e Alemanha, e somente um vencedor, a Rússia.  E esse acontecimento pode se desdobrar em um desastre mundial, no qual, por certo, apostam alguns atores não tão explícitos. 

Por essas e outras melhores razões, parafraseando Raymond Aron, está chegando o momento dos discursos encontrarem a sua política. 

Por trás do problema que se pensa francês, continua a grande questão da Europa: a alemã. 

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