São Paulo, 09 de Dezembro de 2016

/ Opinião

15 de março de 2015
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O saldo do governo Dilma é tão espantosamente negativo que isso acaba legitimando o protesto em massa de domingo

A esta altura, todo mundo já ouviu o pronunciamento da presidente no Dia Internacional da Mulher (se você ainda não viu, torture-se um pouco e escute as atrocidades a partir deste link.

Não fosse a data, ninguém perceberia que somos governados por uma. Talvez, por isso, haja uma celeuma tão grande sobre o termo “presidenta”. É preciso deixar bem claro: uma mulher dirige o país, “viu, gente?” O futuro é rosa!

Na sua primeira aparição depois de eleita, há algumas semanas, Dillma anunciou que a culpa da roubalheira desenfreada na Petrobrás era do ex-presidente Fernando Henrique. Voltamos aos anos 90? “Fora FHC” e “Fora FM!!” Olho no calendário. Estamos em 2015.

E, para a nossa infelicidade, o PT está no poder há 13 anos. Ganhou, para assombro dos historiadores do futuro, quatro eleições presidenciais seguidas. Duas delas com uma figura totalmente analfabeta e as outras duas com o Lula. Incrível! A “oposicinha” tucana deveria pedir o chapéu e se mudar.

O PT assumiu a presidência como o messias em forma de partido. A ética em nove dedos! E, fora a corrupção futurística, o que esse portento da evolução canarinha entregou?

A economia foi para o brejo. Ou melhor, voltou para lá. O futuro é sempre um rabisco fosco em nosso retrovisor. Depois de dez anos, a partir do presidente Itamar Franco, construindo um país quase sério e de seis anos tentando fingir que ainda o éramos, vieram a crise internacional e as “políticas anticíclicas”.

Disse “tentando” porque o “mensalão” já havia deixado claro que a seriedade na condução econômica servia apenas de véu a encobrir a sem-vergonhice política. Esta, mais dia menos dia, se tornaria o padrão daquela.

Em 2008, decidiu-se que continuaríamos a crescer na marra e apesar da crise. Exatamente como em 1975, na crise do petróleo, quando do lançamento do II PND. Pelo menos, o II PND deixou obras como Itaipu de herança. E agora? Qual o legado? Uma refinaria Abreu e Lima que não funciona? O futuro é há 40 anos.

O governo começou a gastar como se não houvesse amanhã e a distribuir benesses. Chamou esse “novo” umbral da economia de “Nova Matriz Macroeconômica”. Foi, finalmente, decretada a extinção do “neoliberalismo”.

O “inovador” modelo fez água, como era de se esperar. Tanta água que encheria o Cantareira. A inflação e o dólar dispararam, e o PIB encolhe a olhos vistos.

Para explicar à Nação tamanha incompetência, a presidentA (ou seria melhor chamá-la de “comandAnta”?) foi à tevê dizer que a culpa era da crise internacional!

Aquela mesma marolinha – nos dizeres de Lula – debelada pela “competência dos companheiros”. Somos, realmente, o país do futuro. Demoraram sete anos para a crise nos atingir!

A “Nova Matriz” promoveu o retorno da inflação, nossa velha conhecida. Então o governo usou as estatais para segurar os preços. Voltamos aos anos 1980: sem crescimento, com inflação elevada e estatais quebradas!

No bojo do desfalecimento econômico, não há maquiagem que impeça o derretimento dos indicadores sociais. Aumentaram os números do analfabetismo, da miséria e do desemprego. O progresso petista foi uma miragem e o Brasil se descobriu um Curupira.

Depois da farra, a ressaca. É chegada a hora do “ajuste”. Em vez de cortar ministérios, reduzir despesas e cargos comissionados, o governo resolve repassar a conta para os pagadores de impostos. Sem dinheiro para honrar o “cartão de crédito”, decide aumentar os próprios rendimentos, extorquindo os cidadãos.

Durante o comício em rede nacional, em meio a todo esse desastre, parecia que havíamos voltado seis meses e estávamos em plena campanha eleitoral. Seria isso um terceiro turno deslocado no tempo?

A “presidenta” foi vaiada e houve panelaços pelo país. Ninguém aguenta mais tanto descaramento, tanta mentira e tanto desrespeito. “Esculacha, mas não humilha”, gritamos em uníssono.

O Planalto diz que os insatisfeitos são golpistas financiados pela oposição. “Querem um terceiro turno”, declara Aloizio Mercadante, ministro de um governo que ainda está em desbragada campanha eleitoral.

Como se financia um panelaço? A Tramontina seria a empresa da “elite capitalista fascista” por trás desse movimento? O governo virou, como diria Delúbio Soares, uma “piada de salão”. E quem se recusa a rir é golpista ou, pelo menos, mal-humorado. A falta de graça é inimiga do regime, pois o governo petista não tem mais graça nenhuma. Aliás, nunca teve.

Nada no discurso é novo. Este engodo de que “quem não gosta é golpista” tem uma longa história. A mais recente atende pelo nome de “bolivarianismo” ou “socialismo do século XXI” e está em pleno funcionamento na Venezuela, na Bolívia, no Equador, na Argentina... e com a ajuda do governo petista! Nada mais velho do que uma ditadura que rotula os descontentes. O passo seguinte é calá-los.

Dia 15 de março, os mal-humorados vão às ruas. O que nós queremos? Queremos voltar no tempo. Mais precisamente, ao ano de 1992. Queremos festejar o restolho de democracia que ainda torna possível declarar o impeachment da presidente. Novamente, um vice do PMDB assumiria o comando, e o país melhoraria, como melhorou daquela vez. Por quanto tempo? Ninguém sabe. O futuro já passou.

Depois de ficarmos mais de uma década emulando um passado fracassado, temos a chance de nos repetirmos no que fizemos de proveitoso. O bom passado é agora, no dia 15 de março de 2015.

(com Reinaldo Bedim)
 

 



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