São Paulo, 02 de Dezembro de 2016

/ Opinião

150 anos de nascimento do marechal Rondon
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Ele foi um personagem raro no indigenismo e na expansão do sentimento nacional no Centro-Oeste

O marechal Rondon, cujos 150 anos de nascimento se comemoram nesta terça-feira (5/5), foi um personagem singular e superlativo dentro da construção do sentimento nacional.

Ele é bem mais conhecido pelo comando das excursões que, entre 1907 e 1915, construiram 2.130 quilômetros de linhas telegráficas que integraram o Brasil litorâneo ao Centro-Oeste e à parte ocidental da Amazônia.

O telégrafo como instrumento de integração seria em seguida superado pelo rádio. Mas nada superaria, em termos geográficos e políticos, a tarefa de levar fisicamente o Estado a regiões em que a população rarefeita não se sentia ainda brasileira e carregava uma identidade cultural um tanto difusa.

Marechal Cândido Rondon / Foto:Wikipédia

Ao penetrar pelas florestas, Cândido Mariano da Silva Rondon (1865-1958) foi também o principal agente da integração do índio à sociedade brasileira. E o fez em cumprimento muitíssimo tardio de uma tarefa esboçada, na Constituinte de 1823, por José Bonifácio de Andrada e Silva (1763-1838).

Um dos reparos biográficos de que Rondon é hoje objeto consiste justamente na ideia de agregar o índio à comunidade do homem branco, com sua inevitável descaracterização cultural. Mas esse anacronismo foi eclipsado pelo profundo humanismo e respeito que o sertanista demonstrava por seus patrícios silvícolas. « Morrer se preciso for; matar, nunca», foi de início seu lema.

Os contatos com os bororós ou os nhambiquaras derivavam do trabalho de penetração em território virgem para a instalação do telégrafo. Mas desde 1910 ele se tornara diretor do recém-criado Serviço de Proteção aos Índios (SPI), precursor da atual Funai, cuja direção ele reassumiria bem mais tarde, em 1939, quando já estava com 74 anos e recusava a se aposentar. Nos anos 40, um de seus assistentes foi o antropólogo Darcy Ribeiro (1922-1997).

Rondon representou, para a agregação dos espaços vazios do território brasileiro, a ideia de centralização em nome da eficiência, que em parte contrariava a autonomia regional de poderes que vigorou durante a República Velha (1889-1930). Era a missão em que acreditava como oficial do Exército – que era, ao lado da Igreja, a única instituição verdadeiramente nacional.

Ele exerceu, dentro do sertanismo, um papel semelhante ao de Carlos Chagas ou Oswaldo Cruz na política sanitária. Os projetos nacionais supunham muitas vezes atropelar os interesses dos chefes políticos que tinham o comando dos Estados.

Mas, paradoxalmente, foi por meio de Rondon que uma parcela significativa do território nacional passou a ser conhecida por essa elite dirigente que exercia o poder, por meio da agricultura, desde o Segundo Reinado. Isso porque foram Rondon, seus oficiais adjuntos e soldados, que fizeram o levantamento topográfico e hidrográfico do território pelo qual passavam.

Para citar um episódio anedódico, durante a longa e penosa excursão pelo Centro-Oeste, em que Rondon foi em 1914 o cicerone do ex-presidente americano Theodore Roosevelt (1858-1919), os 640 quilômetros percorridos com mapas precários impediram que se soubesse de qual rio era afluente um outro rio designado, e não por acaso, como o rio Dúvida.

Ele próprio descendente de índios, Cândido Mariano Rondon nasceu em Mato Grosso e, órfão, teve no Exército o único meio de instrução. Formou-se engenheiro e ascendeu lentamente na carreira militar.

Como testemunha de um Brasil desconhecido para os cidadãos urbanizados, dedicou-se, quando não estava mergulhado no meio do mato, à tarefa de conferencista, narrando não as aventuras que o transformariam numa espécie de heroi moderno, mas insistindo na missão que desenvolvera, em nome de um projeto de integração de cunho bem mais coletivo e impessoal.

foto:projetorondon

Por detrás dessa modéstia havia um Rondon desde moço adepto do positivismo, que aprendera na escola militar com o líder republicano Benjamin Constant. O positivismo foi para ele, literalmente, uma religião – há mesmo ainda hoje um templo dela no Rio – na qual prevalece a ideia da racionalidade, da fé no homem em produzir bons conhecimentos e se afastar de inverdades e preconceitos.

O fato é que, já idoso, e já esquecidas suas divergências com a oficialidade ligada à Revolução de 1930, Rondon tornou-se para os brasileiros uma verdadeira lenda viva.

Em 1955 o Congresso Nacional o promove a marechal. No ano seguinte, e com ele ainda vivo, o então Território de Guaporé é rebatizado de Rondônia, designação que hoje mantem como Estado.

Rondon faleceu em janeio de 1958, no Rio, e foi sepultado com honras militares no Cemitério de São João Batista.