Negócios

Saiba como opera o Alibaba, o portal chinês que promove exportação


Os executivos Alex Tsai (acima, à esq.) e Michael Lee explicam por que o Alibaba aposta no Brasil, incentivando PMEs a vender mundo afora


  Por Karina Lignelli 07 de Outubro de 2015 às 13:00

  | Repórter lignelli@dcomercio.com.br


“Facilitar a realização de negócios em todos os lugares” é o slogan do Grupo Alibaba, fundado em 1999 pelo empreendedor chinês Jack Ma. A companhia, que começou pequena, hoje é uma gigante do e-commerce listada na Bolsa de Nova York.

O Brasil é considerado o terceiro país mais importante entre os mercados em que o grupo atua, de acordo com Michael Lee, diretor de marketing e desenvolvimento de negócios.

Quem leva vantagem são os pequenos negócios, que podem melhorar os resultados nesses tempos de crise vendendo para o exterior via e-commerce por meio da intermediação de transações B2B (empresa para empresa) pelo Alibaba.com.

Há pouco mais de dois anos por aqui, o marketplace (ou seja, a plataforma que hospeda e oferece infraestrutura a empresas para fecharem negócios pela internet), promete ajudar as pequenas a vender lá fora. Inclusive por meio de parcerias com o Sebrae.

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Mais de 2,1 milhões de usuários brasileiros vendem produtos pelo Alibaba.com. Em 2013, o grupo até traduziu para o português o site Ali Express (de vendas para o consumidor final, ou B2C).

Depois de algumas reclamações quanto a prazos de entrega ou produtos incorretos, o site passou a investir em sua imagem para ganhar credibilidade.

Segundo Alex Tsai, um executivo chinês nascido no Paraná, para mudar isso o Ali Express passou a marcar presença nas redes sociais e oferecer formas de pagamento locais, como transferência bancária e boleto.

“Fizemos até um memorando de entendimento junto aos Correios, assinado na presença dos presidentes de ambos os países (Brasil e China) para reforçar essa intenção”, afirma.  

No âmbito B2B, uma nova ferramenta - a “Compra Segura”, com versão em português - promete reembolsar em 100% as empresas compradoras em caso de problemas. A ideia é acabar com a impressão negativa sobre fazer “negócios da China”.

“É nossa tentativa de mudar essa visão. A ferramenta foi criada para resolver o problema mais fundamental de uma transação comercial: a confiança”, diz Michael Lee.  

A crise não passa nem perto dos planos do grupo: após detectarem uma significativa atividade de importação e exportação entre os pequenos negócios, adotaram uma estratégia tipicamente chinesa para ampliar sua presença no mercado brasileiro.

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Ainda em fase experimental, começou a operar o 1688.com (ou “aliobaba”, na pronúncia em mandarim). Pelo site B2B, o grupo intermedia o encontro entre fornecedores brasileiros e importadores chineses para vender produtos diferenciados ou típicos ao mercado doméstico do país asiático.

Para saber mais sobre os planos do grupo no Brasil, leia a entrevista de Lee e Tsai ao Diário do Comércio:

Mesmo que o Brasil atravesse um período de recessão, o interesse do Alibaba.com no mercado local é grande. Por que?

Nosso interesse no Brasil começou há cerca de dois anos, e a razão pela qual decidimos explorar este país é porque vimos muita atividade ligada à importação e exportação. Tentamos ajudar pequenos negócios brasileiros que precisam vender globalmente, e é por essa mesma razão que o serviço que oferecemos prosperou.

Mas respondendo à sua pergunta sobre recessão, ela aconteceu quando já estávamos aqui. Acreditamos que a crise definitivamente crie ameaças e desafios aos negócios, mas se olharmos para o mercado global, vemos que pode gerar oportunidades.

Uma recessão pode significar que você deveria vender mais, não só localmente, mas internacionalmente. Muitos pequenos negócios nem imaginam que há uma forma fácil de fazer isso. Com a plataforma, qualquer um pode abrir uma loja e começar a vender para o mundo usando a internet – o que pode ser uma oportunidade para muitos.

Quantos usuários do alibaba.com são brasileiros, tanto no âmbito B2B como no B2C?  
Eu não sei o número real (do B2B), pois quando se registram, não revelam se são ou não empresários. Mas acredito que uma parte sensível deles ou acabou de começar seu negócio, ou já possui. Só não têm os meios, o tempo, ou uma equipe dedicada a exportar. Por isso procuram nossa ajuda para fazer isso online.

Também não tenho o número de B2C's, mas só no Alibaba.com nós temos 2,1 milhões de usuários brasileiros –  eram 100 mil há apenas dois anos. Parte desse crescimento se deve a nosso esforço de marketing. Mas também foi orgânico, devido ao desejo dos pequenos negócios de fornecer para outros países e, ao mesmo tempo, de baixar o custo destas operações.

Houve impacto da alta do dólar na operação brasileira de vocês?
Um dólar forte terá grande impacto em tudo, pois inverte as taxas de importação e exportação. Mas a pergunta é: o quanto nos afeta? Veremos. Ainda não vimos impacto em nossas receitas, pois nosso modelo não está diretamente ligado à taxa de câmbio.

Fale mais sobre o 1688.com. Ele já está disponível por aqui?
O1688.com é uma porta para qualquer negócio interessado em exportar para a China na forma B2B. Se por exemplo você quiser exportar um contêiner inteiro de seu produto, a oportunidade está aberta. Digamos que um país tenha um produto bem específico como o açaí, que é bem famoso...

Há demanda nesse mercado por produtos brasileiros?
Sim. Há demanda desses produtos na China e, quando houver oportunidade, o 1688.com cria uma maneira para uma companhia vendê-los para outra. Tradicionalmente, muitas não sabem como proceder, ou têm que apelar a empresas diferentes para fazê-lo, porque é preciso passar por um longo processo.

Agora em termos de quando está disponível, já começou a funcionar - embora não o tenhamos lançado oficialmente. Já estamos trabalhando com ele, mas tentando desenvolver um programa-piloto com uma companhia grande, primeiro.

Como?
Há companhias que possuem um produto específico como o café, por exemplo. Há um grande mercado chinês para isso, e o que fazemos é encontrar uma importadora na China para ajudá-la a levar grãos até lá.
 
Também oferecemos outros serviços importantes, como tomar conta do inventário, tratar da barreira da língua, dos custos... Tudo isto costuma ser administrado pela própria empresa, que não sabia como fazer. Mas com o 1688, a ideia é não se preocupar com o processo, e sim com as vendas.

Isso já existe em outros países?
Esse conceito com o qual trabalhamos já funciona em outros países. Nossa primeira tentativa foi na Espanha, onde intermediamos algumas companhias de vinho para exportar para a China.

Depois trabalhamos com a Coreia, intermediando a exportação de cosméticos, com uma empresa taiwanesa para exportar snacks, com uma companhia japonesa para exportar houseware (utensílios domésticos) e produtos de jardinagem...

Acreditamos que cada país têm sua vantagem ou produto pelo qual é famoso e, assim sendo, o 1688 deve evoluir como uma espécie de “fornecedor global” para as companhias chinesas.

No fundo, então, o grande foco do grupo seria a classe média chinesa?
O Alibaba.com é uma plataforma global, então os clientes estão em outros países e querem comprar de fornecedores chineses. Apenas o 1688 é diferente e segue o modelo inverso: nós levamos produtos importados para a China.

O poder do consumidor dita o rumo dos pequenos negócios, e na China a classe média têm crescido. Nas duas plataformas (Alibaba e 1688), nós detectamos um crescimento no volume de compra, por isso há mais demanda por produtos estrangeiros autênticos.

Agora são os chineses, que “vendem de tudo para o mundo”, que procuram produtos diferenciados. É fácil assim vender para eles?
Sim. O mercado chinês é muito interessante, e eles são abertos a qualquer coisa. O açaí, por exemplo, é algo novo para os chineses, muitos nem ouviram falar. Então, para criar uma demanda, algumas coisas precisam ser feitas, como trabalhar com marketing, por exemplo, ou fazer um trabalho de educação sobe certos produtos.

A embaixada brasileira na China têm trabalhado para promover produtos típicos, e uma vez que o público chinês em geral tem conhecimento deles, começa a perguntar sobre. E nós temos meios de rastrear essa demanda, pois nossa plataforma consegue reunir todas as buscas sobre açaí brasileiro, por exemplo.

O povo chinês quer produtos autênticos, então eles não vão comprar açaí americano sabendo que originalmente ele é nativo do Brasil. E com o crescimento da classe média, agora os chineses podem escolher e comprar os produtos que quiserem.

Vocês estão trabalhando por aqui a ferramenta Compra Segura (Trade Assurance). A ideia é acabar com a impressão ruim que o brasileiro tem sobre fazer “negócios da China”?
Não é somente impressão. No passado, houve problemas ligados à qualidade dos produtos, prazo de entrega... Mas isso vem mudando, e o Compra Segura é nossa tentativa de mudar essa visão. Ele foi criado para resolver o problema mais fundamental de uma transação: a confiança.

Algumas coisas que ainda são difíceis para negociar são as barreiras culturais e da língua. Enquanto o brasileiro é mais direto, o chinês ou outro oriental em geral dirá “podemos negociar, mas...”.

Na plataforma, nós temos um portal de ajuda, algo como um centro educacional que tenta clarear as diferenças culturais e as da língua. Essas diferenças não sumirão do dia pra noite, mas com o tempo, acredito que vai acontecer.

Mas esse serviço é limitado aos chineses, pois os conhecemos melhor, temos meios de conseguir seus dados de importação e exportação, o tamanho de suas companhias, e podemos usá-los para chegar a uma definição confortável sobre essas empresas quando dermos suporte a elas.  

Vocês acreditam que o Compra Segura vai ajudar a atrair mais usuários para Alibaba.com?  
Imagine que você é um comprador no Brasil, e por isso espera que o Alibaba.com lhe diga quem é e quem não é confiável. O segundo ponto é que ele cuida de dois fatores problemáticos, e sobre os quais as pessoas mais reclamam: qualidade do produto e prazo de entrega.

Está tudo em contrato, e então, se você compra um produto e a entrega atrasa, você pode reclamar e ter seu depósito de volta. Se for entregue na data, mas receber o produto errado, pode fazer o mesmo.

Mas há um terceiro elemento. No passado, você não poderia acompanhar uma transação, mas agora isso é possível online. Tudo isso gera um banco de dados, com pessoas dando notas e comentando sobre aquela compra... Isso cria um ambiente de confiança. No passado, isso era exclusivo de transações B2C, mas agora o mesmo pode ser feito também com as B2B.

Como o Custo Brasil e a burocracia afetam os negócios do Alibaba e das empresas que utilizam a plataforma?  
Cada país têm suas taxas e regulamentações sobre importação e exportação, e nós, como um marketplace, não conseguimos ver tudo. Nós auxiliamos companhias a fornecer e vender, mas se mais e mais companhias começam a usar este modelo de negócios, ajuda algumas mudanças a acontecerem.

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No Brasil, por exemplo, exportar é muito difícil. Mas quando muitas pessoas usam um marketplace como o Alibaba, isto cria um clamor que diz: “veja, muitas pessoas querem exportar, ajude-nos a remover as barreiras.” Assim sendo, eventualmente nossos serviços fazem com que esta demanda crie força.

Nós estamos constantemente falando com o governo local para adaptar algumas regulamentações, mas não podemos forçá-los a isso. Apenas tentamos fazê-lo entender que, se certas decisões forem tomadas, não seremos os únicos beneficiados. O comércio local também.

Nosso fundador (Jack Ma) visita constantemente outros países para falar com os líderes dos governos. Nossa missão enquanto grupo é facilitar negócios em qualquer lugar do mundo. Embora não tenhamos uma solução direta, sempre tentaremos ajudar.

Foto de abertura: Karina Lignelli / Arte: Willian Chaussé