São Paulo, 11 de Dezembro de 2016

/ Negócios

Reformas de casa salvam o varejo de material de construção
Imprimir

É um dos poucos segmentos a registrar crescimento em um ano de crise. Isso se deve à insegurança dos consumidores em comprar imóveis novos e à necessidade de produtos que ajudam a economizar água e energia

Em tempo de recessão é comum ouvir nas rodas de empresários ou mesmo de amigos: “A crise está aí, mas alguém deve estar ganhando com ela.” E está. O varejo de material de construção, por exemplo.

Pode parecer controverso, mas é justamente a crise hídrica e a insegurança de comprar um imóvel novo em uma conjuntura recessiva o motor da expansão nas vendas de torneiras, chuveiros, bacias sanitárias e produtos destinados, principalmente, para a economia de água e energia.

A alternativa é dar um jeitinho na casa ou apartamento: trocar o revestimento do piso ou da parede, as luminárias, as lâmpadas ou simplesmente renovar a pintura, principalmente em um momento em que a economia de água e energia se tornou prioridade nas residências.

SONIA MANTOVANI:COM MERCADO INCERTO, É MELHOR REFORMAR PARA ALUGAR

Em vez de vender duas das três casas localizadas em um mesmo terreno na Lapa, zona Oeste de São Paulo, a dona-de-casa Sonia Maria Mantovani Cezar decidiu reformar os imóveis para locação.

“Concluí a obra de uma e agora estou acabando a obra da segunda casa. Chegamos a pensar em vendê-las. Mas como o mercado está incerto, a reforma foi uma saída”, disse Sônia, na  quinta-feira, 16, enquanto finalizava uma compra de cerca de R$ 1 mil em tintas e outros materiais na Telha Norte da marginal Tietê.

O valor de uma das casas, segundo ela, é da ordem de R$ 1 milhão. “Recebi uma oferta de R$ 700 mil. Optamos pelo aluguel”, afirmou a dona-de-casa, que gastou cerca de R$ 60 mil na reforma da casa.

É esse comportamento do consumidor brasileiro que tem assegurado as vendas do setor de material de construção neste ano, segundo representantes do varejo, do atacado e da indústria.

Em pleno ano recessivo, o faturamento real das lojas de material de construção subiu 4,6% no primeiro trimestre em relação a igual período de 2014.

Só no mês de março, o crescimento do setor atingiu 6%, de acordo com levantamento da Anamaco, associação que representa aproximadamente 148 mil lojistas de material de construção no país. O levantamento foi realizado junto a 530 comerciantes das cinco regiões do país, entre os dias 27 e 31 de março.

As vendas de louças sanitárias subiram 6%; revestimentos cerâmicos, portas e janelas de alumínio, 3%; tintas, 2% e metais sanitários, 1%, sobre igual mês de 2014.

São  números de despertar a inveja. A maioria dos segmentos do varejo registrou queda de vendas desde o inicio deste ano, segundo o IBGE. No primeiro bimestre de 2015, as vendas do comércio brasileiro caíram 1,2% em relação a igual período de 2014.

Alguns setores registraram queda de até dois dígitos, como o de veículos e motos, de 19,8%. Até as vendas de alimentos e bebidas em supermercados caíram 0,8%, no período, de acordo com o IBGE.

No caso de material de construção, a pesquisa do IBGE também mostra queda de vendas – de 7,8% no primeiro bimestre deste ano em relação a igual período do ano passado. Neste caso, há explicações.

Essa queda, segundo o IBGE e especialistas no mercado de construção, reflete a diminuição no número de lançamentos de novos prédios neste ano --de 10%, em média, segundo o Secovi--, a paralisação do setor de infraestrutura por conta da operação Lava Jato e o fato de fevereiro do ano passado ter tido menos dias úteis.

A Associação Brasileira da Indústria de Materiais de Construção (Abramat) informa que, se não fossem as reformas das residências das famílias, o setor  estaria sofrendo muito mais.

No primeiro trimestre deste ano, segundo a associação, as vendas da indústria caíram 8,8% em relação a igual período do ano passado. Metade do que o setor produz de destina às construtoras e às obras de infraestrutura. A outra metade que vai para as lojas e, como consequência, para o consumidor, está indo bem, registrou crescimento de 1,5%.

Tanto o varejo como a indústria de material de construção esperam um crescimento positivo sobre 2014. A Anamaco prevê para 2015 um aumento de 6% no faturamento real do setor. É um número e tanto, quando se considera que o crescimento da economia, na melhor das hipóteses, deve ficar próximo de zero.

Tão importante quanto isso é que a comparação se dá com um ano (2014) em que o faturamento do varejo de material de construção foi recorde, de R$ 125 bilhões, segundo levantamento do Ibope Inteligência.

FALTA CAIXA D´ÁGUA  

“O próprio IBGE já informou que existem 57 milhões de casas que precisam ser reparadas no país. Veja quanto o nosso setor ainda tem para vender”, afirma Cláudio Conz, presidente da Anamaco. “Está faltando, por exemplo, caixa d´água no mercado. É só espalhar a notícia de que o nível de água na Serra da Cantareira está diminuindo, que as vendas de bacias sanitárias, torneiras, produtos capazes de economizar água e energia começam a subir”, diz.

A indústria de material de construção já prevê crescimento de 1% para o setor neste ano. Walter Cover, presidente da Abramat, diz que este aumento está apoiado na manutenção dos atuais incentivos do governo ao setor, na expansão do programa Minha Casa Minha Vida e no fato de que poderá haver substituição de produtos importados por nacionais em decorrência da alta do dólar e ainda nas reformas.

Para a Deca, uma das maiores fabricantes de louças e metais sanitários do país, os negócios vão muito bem. A empresa faturou no último trimestre do ano passado 30% mais do que em igual período de 2014 e a previsão é que este crescimento está mantido neste início de ano.

Osvaldo Oliveira Jr., coordenador de engenharia de aplicação da empresa, afirma que a Deca possui um portfólio de 300 tipos de produtos, somente na linha de economizadores de água, e que esses modelos são hoje os mais procurados pelos consumidores.

A linha de chuveiros Balance, por exemplo, consegue reduzir, segundo ele, o consumo de água em até 90%. “A fábrica da Deca está operando a plena capacidade para atender a demanda das lojas e dos consumidores”, diz Oliveira.

MULTINACIONAIS

O mercado brasileiro de materiais de construção é dominado por pequenos lojistas. A estimativa do Anamaco é que apenas 4% das vendas estão nas mãos das grandes redes, em sua maioria multinacionais.

A primeira do ranking da Anamaco, a Leroy Merlin, é uma das maiores empresas de bricolagem da França, que chegou ao Brasil em 1998 e possui 32 lojas em nove Estados brasileiros e no Distrito Federal.

A Telha Norte, também de origem francesa, com 38 lojas em São Paulo, Minas Gerais e Paraná, está em segundo lugar, seguida pela C&C, com capital 100% nacional, com 45 lojas nos Estados de São Paulo, Rio de Janeiro e Espírito Santo. A C&C faz parte do grupo financeiro Alfa.

A quarta colocação é da Di Cico. Fundada em 1918 e adquirida pelo empresário Dimitrius Markakis, em 1999, a rede se associou, em 2013, à empresa chilena Sodimac, líder em vendas de material de construção em vários países da América Latina. No Brasil, a empresa possui 58 lojas.

MENOS INFORMALIDADE

O setor de material de construção é considerado retardatário quanto à profissionalização, na avaliação de Cláudio Felisoni de Angelo, presidente do Instituto Brasileiro de Executivos de Varejo e Mercado de Consumo (Ibevar).

“Veja a diferença deste setor em relação ao de supermercados e de farmácias. Hoje, este é um mercado dominado por formiguinhas, pequenos comerciantes, e bastante pulverizado. Isso já começou a mudar e vai mudar mais ainda com o tempo”, afirma Felisoni.

A exigência do fisco para que os lojistas emitam a nota fiscal eletrônica e o regime de substituição tributária, que faz com que o imposto de um produto seja cobrado antecipadamente pela indústria, têm contribuído para a formalização do setor. “Vai ser cada vez mais difícil as empresas trabalharem na informalidade”, diz.

É exatamente este movimento de formalização que deverá atrair mais redes de lojas de material de construção para o país. “O mercado brasileiro está em um momento mais difícil. Mas, em quatro ou cinco anos, penso que a Home Depot, a Lows, dos Estados Unidos, deverão se instalar por aqui.”

Essas duas empresas estão constantemente avaliando a entrada no Brasil. Até mesmo a francesa Castorama, que entrou no Brasil em 1998, animada com a estabilização econômica do Plano Real, e saiu em 2003 (vendeu três lojas para a C&C), já andou rondando o país muito recentemente. "É um setor que vai enfrentar grandes mudanças", diz Felisoni.

 



Baixa demanda também manteve o valor da mão de obra estável, segundo o Sinduscon-SP

comentários

Na última reunião plenária do ano realizada pela ACSP, os empresários lamentaram as baixas de 2016, mas demonstraram expectativas positivas para o próximo ano

comentários

Total associado a roubos, furtos e problemas operacionais ficou em 2,25% do faturamento líquido em 2015, segundo o Ibevar. Média dos anos anteriores era de de 1,8%

comentários