São Paulo, 26 de Setembro de 2016

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“Recessão não deve tirar a vontade de empreender”
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Para Isabela Cadena, gerente de marketing da Caixa Crescer, abrir o próprio negócio pode ser a melhor forma de enfrentar a crise

A vontade do brasileiro de empreender é maior, pelo mesmo até agora, do que o receio de enfrentar uma recessão no país.

Em um ano e meio, a Caixa Crescer, empresa de microcrédito, concedeu R$ 550 milhões para cerca de 300 mil microempreendedores em todo o país. E, desse valor, que não para de crescer, a estimativa é que cerca R$ 200 milhões foram destinados aos empreendedores de favelas.

“Acho difícil que o momento econômico atual tenha algum impacto neste movimento de empreender das favelas. O empreendedorismo é uma vocação, e o brasileiro tem isso muito forte dentro dele. É algo que está quase encrustado na nossa natureza”, afirma Isabela Cadena, gerente de marketing da Caixa Crescer.

Isabela, que participou hoje do 2º Fórum Nova Favela Brasileira, organizado por Renato Meirelles, presidente do Data Popular e fundador do Data Favela, e Celso Athayde, fundador da CUFA (Central Única das Favelas), acredita que, em tempos de recessão, é bem provável que o empreendedorismo ganhe ainda mais força nas classes de menor renda.

ISABELA: QUASE MEIO BILHÃO EM CRÉDITOS

 

Veja a seguir os principais trechos da entrevista com Isabela Cadena:

Pesquisa que acaba de ser divulgada pelo Data Favela revela que os moradores nas favelas têm mais vontade de empreender (40%) do que a população em geral (23%). O que explica este fenômeno?

A necessidade de empreender não é maior ou menor neste momento. Na verdade, ela sempre existiu. O que acontece é que agora este público está conseguindo ter mais acesso a recursos, a programas de incentivo. Havia uma grande dificuldade para esse empreendedor chegar à agência e mostrar o potencial de vendas para justificar o crédito a ser concedido. Agora isso está mudando.

Como está a demanda por microcrédito nos últimos anos?

A Caixa Crescer começou a operar há dois anos. Foi quando contratamos a primeira turma de colaboradores para dar o startup na empresa. A operação mesmo começou há um ano e meio. Até agora, nós já concedemos quase R$ 500 milhões, dos quais entre 30% e 40% destinados a microempreendedores de favelas. Do total concedido, a participação do Estado de São Paulo é da ordem de 23%. 

E olha que nós estamos ainda em uma fase inicial, de entendimento da base de dados que está recebendo este crédito e ainda nascemos sem fazer qualquer investimento em divulgação do negócio.

Estamos em um momento de prospecção. A nossa força de vendas é composta por quase mil pessoas no país. O que percebemos é que o empreendedor trabalha muito em parceria com outras pessoas da base da pirâmide. Um  conta para o outro que conseguiu o crédito e, assim, cresce a nossa base de clientes.

Qual é o tíquete médio concedido para cada cliente, e quanto ele paga de juros para obter o crédito?

A taxa de juros é de 2,40% ao mês. O tíquete médio está em torno de R$ 1,8 mil. Porém, a faixa de concessão vai de R$ 300 a R$ 15 mil. Existe um processo escalonado. O microempreendedor não pode pegar de imediato R$ 8 mil ou R$ 9 mil, e ele também precisa justificar essa concessão.

Como ele faz para justificar e obter o financiamento?

A justificativa é o fluxo de caixa dele. E esse é o papel fundamental do orientador de crédito. Nosso papel não é só dar o crédito, mas é também de orientação, de capacitação do microempreendedor.

A Caixa Crescer já identificou qual é o tipo de negócio preferido do microempreendedor neste momento?

Na maioria dos casos, o que estamos vendo é que o dinheiro vai para a manutenção ou para a expansão do negócio. A base da pirâmide empreendedora representa mais ou menos 20 milhões de pessoas. Só que esta base é absolutamente complexa. Dentro desta base existem três perfis de microempreendedores: subsistência, acumulação simples e acumulação ampliada, neste caso, aquele que fatura um pouco mais.

Para obter um crédito de R$ 1,8 mil, qual o faturamento que o empreendedor precisa ter mais ou menos?

Ele precisa, no mínimo, faturar o dobro, pois deve pagar as despesas da empresa e também as dele. Geralmente, todas as despesas são misturadas.

Como anda a inadimplência desse público?

Não adianta conceder um valor alto de financiamento, se ele não tem capacidade de pagamento. Aí está o segredo do microcrédito, que tem uma metodologia internacional, absolutamente inteligente, que vai desde a contratação do orientador (aquele que vai conceder o crédito) até a escolha do cliente. A inadimplência existe e, sabendo que ela existe, é preciso saber administrá-la. No nosso caso é administrável, entre 1% e 1,5% dos valores concedidos.

A inflação em alta e as projeções pessimistas para o país podem tirar o fôlego do empreendedor?

Acho difícil que isso aconteça, pois o empreendedorismo é uma vocação, não é estado de momento. O brasileiro tem uma vocação muito forte para o empreendedorismo. É algo que está encrustado na nossa natureza. Veja o caso das mulheres que têm de administrar família, filhos, casa, esposo ou não esposo.

O empreendedorismo permite que ela faça isso de uma forma melhor. Porém, claro, ela vai ter de ralar muito mais para conseguir dinheiro para se manter.

O empreendedorismo, que eclodiu nos últimos anos faz parte do nosso DNA, e dificilmente regredirá. A tendência natural é que as pessoas passem a empreender mais, até para enfrentar um cenário mais difícil.

Qual a orientação que você daria para quem quer empreender neste momento?

Conhecimento. É este o segredo do sucesso do empreendedor. E o conhecimento está disponível de forma vasta em todos os lugares. Hoje, pela internet, você consegue acessar de forma fácil formas de gestão de negócios. Esse é um diferencial do Caixa Crescer.

Nós investimos em conteúdos para orientação dos empreendedores de forma simples. Não adianta explicar para ele fluxo de caixa do jeito que é explicado em uma universidade. Tem de explicar isso contando uma historinha. Nós fazemos isso. O empreendedor precisa ter auto conhecimento, conhecer o mercado em que atua. É o conhecimento que fará com que ele cresce de maneira sustentável.

 



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