São Paulo, 06 de Dezembro de 2016

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Quem são e onde estão os empreendedores da venda direta no país
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Metade do contingente nacional comercializa diferentes produtos de diferentes empresas e setores. Os que mais lucram atuam nas regiões Norte e Centro-Oeste

 O levantamento da FGV/RJ possibilitou pela primeira vez delinear o perfil da legião de 4,5 milhões de revendedores (as), assim como as disparidades regionais. Para começar, mensurou o lucro médio mensal com melhor desempenho nas regiões Centro-Oeste e Norte -36% superior à média nacional. Isso se explica pelas deficiências do varejo tradicional, além de menor grau concorrência entre as próprias revendedoras. Muitas delas, radicadas em locais distantes, são compelidas a usar transporte pouco convencional. Tome-se o exemplo de Maria do Socorro Gemaque, radicada em uma fazenda próxima do povoado de Boa Vista, no Pará, que faz entregas às consumidoras de búfalo, único meio para chegar a locais alagados da região. Ou Jurema Magno, consultora de Muaná, na região do Marajó, que se desloca em uma canoa motorizada ou rabeta, como é conhecida, para percorrer as ilhas do município.

  Outra conclusão do estudo mostra que, à exceção do Rio Grande do Sul, praticamente a metade do contingente de revendedores trabalha com mais de uma empresa por setor. E mais: 57% possuem alguma outra fonte de remuneração além da venda direta. Cerca da metade tem carteira assinada ou é proprietário. Também aqui o Rio Grande do Sul destoa, com 71,5% dos revendedores nesta condição. Em relação à maneira como trabalham, a pesquisa revelou que quase um terço dos revendedores (27,1%) formam equipes de vendas, em média com três profissionais. Esse percentual é superior em Minas Gerais (37,5%).

  Como se sabe, a expansão da rede de revendedores é um fenômeno intrinsicamente vinculado ao aumento da participação da mulher no mercado de trabalho. De um lado, o sistema de venda direta permite que a mulher solucione um dilema que a acompanha desde o rompimento com a dedicação exclusiva à vida doméstica: o desejo de autonomia e emancipação ante a preocupação com o casamento e a família. Com esse modelo de vendas, ela passa a ter mais liberdade para compor seus horários, contemplando a carreira, o marido e os filhos, com a vantagem de poder administrar sua própria renda, sem subordinação hierárquica e com grande liberdade para entrar e sair do sistema.

Tal como ocorreu nos Estados Unidos, a presença das revendedoras na linha de frente desde o início representou a real força comercial do negócio de venda direta. Coerente com essa tendência, o estudo da FGV confirmou que o setor gera 2,3 milhões de ocupações em tempo parcial e 1,75 milhão em tempo integral. De outro lado, para neutralizar as efeitos das ciclotimias da economia e os rigores impostos por décadas de inflação ao orçamento doméstico, mais e mais donas de casa aderiram ao sistema. O que as mais recentes pesquisas do IBGE estão agora revelando é que, em um grande número de casos, atividades como a da venda direta, que antes significavam complementação de orçamento doméstico, também podem representar um peso superior da fatia da renda familiar. Isso porque cresceu significativamente no Brasil a proporção de chefes de família do sexo feminino. De acordo com o levantamento do Pnad (Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílio), 37,4% dos domicílios brasileiros têm como pessoa de referência uma mulher.

Para ter uma ideia do veloz avanço, basta citar que elas encabeçavam apenas 20,8% dos lares em 1996 e 26,5% em 2000. Segundo especialistas, esse avanço é mais notável nos grupos familiares de baixa renda, onde se encontra o maior contingente das revendedoras. São notáveis as milhares de histórias de ascensão ou mesmo mobilidade social promovidas pela atividade de venda direta.

Veja o caso da paraibana Irenilda Silva e Silva, de 47 anos, que migrou para São Paulo há 25 anos para se casar. Quando os três filhos concluíram o ensino médio, Irenilda, uma dona de casa dedicada, tornou-se revendedora da Avon. Começou colhendo encomendas de familiares. Dez anos atrás, depois de frequentar um programa de treinamento da companhia, tornou-se uma executiva de vendas, responsável por recrutar e orientar atualmente outras 350 colegas. Diz que chega a ganhar entre 4 mil e 5 mil reais por campanha. “Comprei uma independência financeira e me realizei em todos os sentidos”, diz Irenilda. Hoje só a filha de 24 anos mora com ela e o marido, um motorista aposentado. Já deu uma casa de presente a um dos filhos. Nesse percurso, ganhou prêmios valiosos da companhia por superar metas de vendas: micro-ondas, geladeira, fogão e TV de LCD. Ser reconhecida é outro trunfo. Em Interlagos, bairro da zona sul paulistana onde reside o nome da companhia virou seu sobrenome. “Todo mundo por aqui conhece a Irenilda da Avon”, orgulha-se.


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Foto: Divulgação

A trajetória de Valéria Paz Correa, paulistana de 44 anos, não é muito diferente. Trabalhando desde os 13 anos e esposa de um bancário, ela deixou o emprego de assistente financeira de uma empresa de informática quando engravidou pela primeira vez. Desejava retornar ao mercado de trabalho quando o filho crescesse. Nesse meio tempo, começou a vender produtos da Natura como alternativa. Em dois anos passou a obter uma renda equivalente à da antiga função e nunca mais foi procurar emprego fixo. Há três anos tornou-se uma consultora orientadora Natura (CNO), responsável por recrutar, incentivar e treinar duas centenas de colegas. Em 2009, formou-se em pedagogia e seu foco é a educação corporativa. Percebe uma renda de até R$ 5 mil a cada mês, que lhe possibilitou mobiliar a casa com modernos eletrodomésticos e viajar com a família. “Gosto muito da atividade, principalmente agora que estou levando trabalho para muitas outras pessoas”, diz Valéria. O que é decisivo para ter sucesso nessa jornada? “Disciplina, persistência e atitude diferenciada no atendimento e no pós-venda”, diz. Hoje trabalha em seu escritório em casa parte do dia, fazendo cadastros, e reserva a outra parte para visitar as consultoras de seu grupo e prospectar novas candidatas.

 



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