São Paulo, 27 de Março de 2017

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Prisão de neto do fundador abala ações do grupo Odebrecht
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Com uma fortuna pessoal avaliada em R$ 15 bilhões, Marcelo Odebrecht tem perfil arrojado e, sob sua gestão, o faturamento do grupo atingiu R$ 100 bilhões

"Perplexo". "Pasmo". "Incrédulo". Esses foram alguns dos adjetivos utilizados por presidentes de empresas para definir a reação diante da prisão do presidente do grupo Odebrecht, Marcelo Odebrecht.

Herdeiro de uma dinastia de empreiteiros, o empresário é neto de Norberto Odebrecht, que fundou o grupo em 1944, e filho de Emílio Odebrecht, que presidiu a companhia até 2001.

Marcelo Odebrecht é considerado um dos homens de negócios mais bem formados e influentes do Brasil e sob sua gestão o grupo atingiu a marca de R$ 100 bilhões em faturamento.

Arrojado, foi ele o responsável por fazer a empresa avançar na petroquímica, com a consolidação da Braskem, na construção de grandes hidrelétricas, e na internacionalização, abrindo novos canteiros de obras em 21 países, incluindo os controversos Cuba e Venezuela, onde o grupo atua com apoio financeiro do BNDES.

Sua fortuna pessoal, avaliada em R$ 15 bilhões, o coloca na lista dos 10 mais ricos do país, segundo levantamento do banco UBS em parceria com a Wealth-X.

Não foi à toa que a notícia de sua prisão ontem causou um furor em investidores no Brasil e também pelo mundo. As ações da Braskem caíram 9%. Os títulos externos, que somam R$ 30 bilhões, também foram afetados.

A agência de classificação Moody's colocou os ratings da Odebrecht Engenharia e Construção (OEC) sob revisão para possível rebaixamento, conforme relatório publicado neste sábado (20). A mudança foi motivada, de acordo com a classificadora, pela percepção de aumento do risco de crédito após os mandados de busca e apreensão e prisões preventivas de executivos, dentre elas, a do presidente do grupo, Marcelo Odebrecht.

 "Embora as investigações ainda estejam em andamento, sem a condenação ou penalidades, estes eventos poderiam afetar negativamente a execução de estratégias de crescimento da empresa no curto prazo e questionamento adicionais para o setor de construção civil no Brasil", diz a Moody's, em relatório.

Os bancos fizeram as contas e fecharam as torneiras imediatamente. Os concorrentes já começam a falar em fim do modelo de concessões, proposto há pouco menos de um mês pela presidente Dilma Rousseff.

O baque sobre os ânimos dos executivos do setor leva em consideração justamente a teia de conexões do empresário, bem como o peso e a influência dos negócios do grupo.

"Se prenderam o Marcelo, eles devem ter muito mais do que batom na cueca: têm fotos, filmes, digitais, têm de tudo", disse o presidente de uma grande empresa. "Se uma Odebrecht tiver problemas, ela vai levar tudo com ela: bancos, empresas, governo. Vai ser um arrastão."

Um ex-executivo da companhia vaticina: "Se ele quiser, derruba todo mundo. Tudo que está aí". "Mas não acredito que vá fazer", afirma, lembrando a passagem de Ailton Reis, um diretor da Odebrecht que, por volta de 1994, teve uma série de documentos que poderiam comprometer a construtora apreendida em sua casa, em Brasília.

Durante a Comissão Parlamentar de Inquérito dos Anões do Orçamento, que investigava propinas pagas a parlamentares para obtenção de emendas, Ailton foi firme, apesar dos documentos, segundo esse executivo.

"A Odebrecht cuida de seus funcionários, dá suporte à família, paga os melhores advogados." A empresa não teve nenhuma acusação confirmada.

BANCOS

Ontem (19), o temor entre executivos era de que os bancos restrinjam ainda mais a oferta de crédito - não só para Odebrecht e Andrade Gutierrez, agora alvos da Lava Jato, mas para todo o setor.

"Vai ficar mais difícil para a infraestrutura", disse o executivo de uma companhia que não é investigada, mas atua na área. Executivos de bancos confirmaram o temor:

"A redução de crédito tende a ser generalizada", disse um deles. Já um executivo que teve a empresa investigada nas primeiras fases lamentava: "Se tivesse sido todo mundo junto no começo, não teria afetado ninguém. Mas dividiram... nós já sofremos e agora são eles que vão sangrar".

FOTO: Piti Reali/EC



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