São Paulo, 28 de Setembro de 2016

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Por que a recessão na indústria fortalece o varejo nas negociações
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Com a economia desaquecida, descontos oferecidos pelas indústrias nas negociações de preços variam de 5% a 10%. Prazos de pagamento chegam a até 90 dias

As tabelas de preços e prazos de pagamento das indústrias nunca estiveram tão flexíveis para o comércio. Em pleno final de ano, quando, tradicionalmente, há um pico de consumo, fabricantes de alimentos, roupas, calçados, eletroeletrônicos e autopeças estão oferecendo aos lojistas descontos de até 10% nos preços.

Eles também oferecem prazos de pagamento de até 90 dias e ofertas como “compre 5 quilos de farinha e leve um pacote de macarrão”, ou “compre dez pares de sapato e leve um cinto”.

É claro que isto não estaria ocorrendo se a indústria, de forma geral, não estivesse em recessão. O maior endividamento das famílias, o aumento da inflação e dos juros, o receio do desemprego e a falta de confiança na economia provocaram um esfriamento do consumo e, em consequência, um aumento dos estoques em quase toda a cadeia produtiva de bens de consumo.

Alguns indicadores mostram que os estoques têm subido. Em outubro, aumentou de 14,1% para 14,6% a proporção de empresas que estão com estoques excessivos, segundo Sondagem da Indústria de Transformação - IBRE/FGV.

A flexibilidade nas negociações surge, portanto, quase que como uma das poucas alternativas para as indústrias tentarem transferir pelo menos uma parte dos seus estoques para o varejo. Até porque, com a taxa de juros do tamanho em que está, manter mercadorias prontas nas fábricas ou em centros de distribuição pode custar cerca de 0,9% ao mês.

Representante de cerca de 40 mil empresas, o Sindivarejista (Sindicato do Comércio Varejista de Campinas e Região) identificou que as empresas que abastecem as lojas da região passaram a dividir os pagamentos dos produtos em até três vezes, inclusive as importadoras. Há poucos meses atrás, o pagamento das mercadorias tinha de ser feito à vista.

“A maioria dos fornecedores está facilitando, sim, a compra, em pleno final de ano. Até porque o varejista está com medo de comprar porque a expectativa de venda não é lá grande coisa. Tudo indica que, neste mês, o consumidor vai comprar comida, não presentes”, afirma Sanae Murayama Saito, presidente do Sindivarejista.

Sanae conhece bem o mercado de consumo de Campinas e região, até porque sua família possui comércio há cerca de 50 anos no Mercado Municipal de Campinas. “Nós, lojistas, estamos também pedindo mais prazo, descontos. O fato é que o país mudou de patamar de consumo, não estamos mais em momento de fartura. E isso vale para o comércio que vende produtos de R$ 1,99 e para as grandes redes”, afirma.
 

Sanae Saito, do Sindivarejista: "O país mudou"

PEQUENOS SÃO OS MAIS COBIÇADOS

Neste período de consumo mais retraído, diz ela, é típico as grandes indústrias voltarem a dar mais atenção para os pequenos comerciantes, como está ocorrendo neste final de ano. Como as grandes redes de supermercados, roupas e eletroeletrônicos cortaram as compras, o foco das empresas são os pequenos comerciantes, que passaram praticamente a ter as mesmas condições de compra que os grandes.

Este cenário mais favorável de relacionamento com as indústrias também passou a ser notado pelos lojistas do setor de autopeças.

“Com a queda das encomendas das montadoras, o único caminho dos fabricantes de peças para desovar os produtos é o mercado independente, que é o nosso. Por isso, os fabricantes estão surgindo com promoções de 15% a 20%”, diz Francisco Wagner De La Tôrre, presidente do Sincopeças-SP, Sindicato do Comércio Varejista de Peças e Acessórios para Veículos no Estado de São Paulo, que reúne cerca de 27.500 lojistas.

Negociações mais amigáveis com a indústria é tudo o que o comércio espera, sempre. E, neste momento, ela também é mais do que bem-vinda. Só que neste final de ano, os lojistas também estão com estoques acima do normal para o período, e o jeito é tentar não cair na tentação das ofertas das indústrias.
 

De La Torre, do Sincopeças: não cair em tentação

Especialistas do Sebrae SP recomendam que o lojista reforce o estoque somente dos produtos com venda certa. No caso da loja de peças, este problema é ainda pior, pois os comerciantes trabalham com estoques de peças para todos os modelos de carros. Quando os veículos saem de linha, não há outra opção se não entregar as peças dos carros para o mercado de sucatas.

“A velocidade de sucateamento no nosso setor é alta. Muitas vezes, os carros saem dos grandes centros e vão para outras regiões do país. Para compensar as perdas, as lojas estão abrindo venda pela internet”, afirma De La Tôrre.

ESTOQUES CHEGAM A 60 DIAS

O estoque das lojas de peças, segundo afirma, está hoje em torno de 60 dias, longe do ideal, cerca de 15 dias. “Temos dito para o lojista ficar muito atento em relação aos estoques e à inadimplência, revisar os custos, com o objetivo de reduzir perdas. Do contrário, quebra. O momento é difícil, e 2015 não deverá ser muito diferente. As medidas de ajuste fiscal deverão ser doloridas, e a perspectiva é de melhora somente a partir de 2016”, diz o presidente do Sincopeças SP.

Nos atacadistas de tecidos, vestuários e armarinhos, há no momento a impossibilidade de as indústrias elevarem os preços, em vez da prática de descontos. A queda de consumo no país e a competição com os produtos chineses não dão espaço para os reajustes.

“Os prazos, que eram de 60 dias da indústria para o atacado, chegam agora a 120 dias. E os descontos variam de 5% a 10%”, afirma Arinos de Almeida Barros, vice-presidente do Sindicato do Comércio Atacadista de Tecidos, Vestuários e Armarinhos do Estado de São Paulo, que representa cerca de 5 mil atacadistas.

Desde agosto, as indústrias de tecidos, aviamentos, roupas e calçados estão oferecendo prazos de até 120 dias de pagamento para a confecção de Aldo Nunez Macri, localizada no bairro da Luz, em São Paulo. “Há fornecedores tentando empurrar produtos, mas estou reduzindo as compras”, afirma. Esses cortes chegam a atingir 40%, no caso dos calçados.
 

Almeida Barros: descontos de 5% a 10%

Para negociar bem, seja em um momento em que o poder de negociação está mais para o lado da indústria ou mais para o lado do comércio, é bom que o lojista sempre priorize o que for melhor para o seu capital de giro. Alongar os prazos de pagamento e antecipar o recebimento é sempre o melhor a fazer para manter as finanças da empresa em ordem, segundo Fernanda Della Rosa, assessora econômica da FecomercioSP. E, num momento como este, quando o cenário econômico gera dúvidas, é sempre bom analisar quais os investimentos podem ficar para depois.

INADIMPLÊNCIA CRIA TENSÃO

As negociações entre indústria e comércio estão mais fáceis nos casos em que não há inadimplência. Segundo o Simpi, sindicato que reúne a micro e pequena indústria no Estado de São Paulo, há muita tensão na relação com lojistas que estão atrasando pagamento.

Em outubro, 39% das micro e pequenas empresas consultadas pelo Simpi informaram que o varejo estava atrasando o pagamento das mercadorias em mais de 30 dias.

É evidente que estas empresas não estão conseguindo dar nem prazo nem desconto para os lojistas. De acordo com Rogério Grof, diretor de relações institucionais do Simpi, os setores que estão nesta situação são, sobretudo, o de calçados e o de artefatos de couro.

A orientação do Simpi para estas empresas é que não é hora de dar descontos e esticar prazos de pagamento. É hora, sim, de manter a empresa saudável para manter o emprego e, como consequência, o consumo.


Info: William Chaussê

 



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