Negócios

Por que o mercado brasileiro está no radar da Ikea


A empresa sueca –líder na produção de móveis domésticos de baixo custo– estuda se instalar no país. Há fatores favoráveis de peso, mas não faltam obstáculos


  Por Thais Ferreira 15 de Junho de 2015 às 00:00

  | Repórter tferreira@dcomercio.com.br


Depois de diversos rumores, a Ikea está dando seus primeiros passos no Brasil. A maior empresa do mundo no setor de móveis e decoração instalou seu primeiro escritório em Curitiba para realizar pesquisas sobre o mercado brasileiro – que domina 63% do setor na América do Sul. 

Apesar dessa primazia regional, a indústria moveleira nacional é considerada bastante precária: grande parte da mão de obra é mal qualificada e há baixos investimentos em tecnologia. Há muitas oportunidades, mas também não faltam riscos, para a entrada da companhia sueca no Brasil. É o que revela a análise de Hiroshi Ito e Rebecca Harrison, pesquisadores do centro internacional da Universidade de Nagoya, no Japão.

CRESCIMENTO DA CLASSE MÉDIA E CONSUMO

Apesar dos recentes problemas econômicos, a classe média brasileira cresceu significativamente nos últimos dez anos.  Em 2005, 51% da população era considerada parte das classes B, C e D. Seis anos depois, o número subiu para 54%.  De acordo com os dados do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada, 37 milhões de brasileiros entraram na chamada nova classe média.  

A Ikea pode se beneficiar com esse crescente número, já que os produtos da marca são destinados exatamente à classe média. A empresa mantém preços acessíveis e design prático e diferenciado, em grau superior ao encontrado no varejo brasileiro.

Por outro lado, a atual crise e o endividamento das famílias podem ser fatores negativos. O consumo indiscriminado de todas as classes sociais. No primeiro trimestre desse ano, caiu 0,9% em relação ao mesmo período de 2014. Foi a primeira retração desde o terceiro trimestre de 2003.  

Se a Ikea entrar no mercado brasileiro nos próximos meses, terá que lidar com um cenário complicado, mas com o potencial de recuperação nos próximos anos.  

CLIENTES ONLINE

A internet tem sido uma porta de entrada para novas empresas no Brasil. De acordo com o relatório da Internet World Stats, há no país  88 milhões de internautas –o que mostra um vasto potencial para o comércio eletrônico. A Ikea –em todos os países em que está presente – estimula que os consumidores realizem suas compras online, o que ajuda a manter os preços baixos (há uma significante diminuição dos custos para a empresa). 
    
Outro fator que encoraja as vendas pelo comércio eletrônico é a intensidade com que se navega no mundo online. São 35 horas a cada mês --tempo semelhante às 37 horas dos americanos. Com esse consumo de tempo online, a Ikea terá que investir pesado na venda e no marketing na rede.  

Uma fonte importante para a divulgação da marca serão as mídias sociais e os brasileiros compõem a nacionalidade que passa mais tempo nessas redes.

A média é de 13,8 horas por mês –europeus e americanos passam entre seis e sete horas respectivamente, e os demais latino-americanos cerca de 10 horas mensais. A internet, especialmente as redes sociais, é um local aonde os consumidores do Brasil vão para descobrir novos produtos e marcas. 

Apesar dessa hiperconectividade dos brasileiros, apenas 42,6% dos latino-americanos usam frequentemente a rede, o que pode dificultar o crescimento da marca nos países vizinhos. Isso mostra que a Ikea não pode depender apenas do comércio online como seu principal ponto para a expansão pela região –já que a metade de seu novo público não tem acesso ao mundo online. 

 

INTERIOR DA LOJA DA IKEA EM BERLIM. Foto: ThinkStock

PRODUTOS ECOLOGICAMENTE CORRETOS 

Os itens anteriores apontam que apesar de alguns contratempos existem boas oportunidades para empresas estrangeiras que querem entrar no mercado brasileiro. Mas qual seria a vantagem competitiva ou o diferencial da IKEA? Uma das respostas é a preocupação que a empresa tem com a sustentabilidade. 

Uma pesquisa realizada em 2011 pela Global Inteligence Alliance, mostrou que os brasileiros estão se tornando cada vez mais seletivos com móveis que consomem, principalmente em relação à procedência. No levantamento, 64% dos brasileiros disseram que a responsabilidade ambiental é uma das principais obrigações de uma empresa. 

Ser ecologicamente correto está se tornando parte do dia a dia dos brasileiros, tanto que muitas empresas nacionais estão desenvolvendo produtos menos agressivos ao meio ambiente – por exemplo, a fabricante de calçados Amazonas, que criou um chinelo biodegradável que, após o uso, leva apenas cinco anos para se decompor completamente.  

Nesse quesito a Ikea realmente se destaca. A empresa sueca é uma das pioneiras na preocupação com os produtos sustentáveis: desde 1990 a companhia desenvolveu uma política para diminuir os impactos ambientais de seus produtos. 

MODELO DE NEGÓCIO 

O principal desafio da Ikea no Brasil será manter o mesmo padrão das lojas estrangeiras. Encontrar um terreno que seja perto das grandes capitais e que acomode o porte de uma das gigantes lojas da marca pode ser uma tarefa bastante complicada – uma das recentes lojas abertas em Miami ocupa 37 mil metros quadrados. A empresa geralmente escolhe locais próximos a grandes centros urbanos e com fácil acesso por meio de rodovias. 

Além disso, no modelo de negócio da empresa os móveis devem ser montados, em casa, pelos próprios clientes, o que pode não ser bem aceito no país. Os consumidores brasileiros estão acostumados com o serviço de montagem.

Outro empecilho será a confusa lei tributária brasileira. Dificilmente, a Ikea conseguirá manter os preços baixos, praticados nas lojas estrangeiras, um dos grandes diferenciais da marca, por causa da alta carga tributária nacional – objetos como almofadas e luminárias são taxados em 33,84% e 38, 35%, respectivamente. 

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*Foto: ThinkStock