Por que o interior paulista ainda não comemora a retomada do emprego


Cada vaga aberta na capital corresponde a outras cinco geradas em cidades do interior. Mas especialistas ponderam: isso se limita às indústrias exportadoras, como a de calçados, em Franca (na foto)


  Por Mariana Missiaggia 13 de Junho de 2017 às 08:00

  | Repórter mserrain@dcomercio.com.br


A passos lentos, a economia brasileira dá alguns sinais de recuperação. São três anos de más notícias e uma recessão que destruiu o mercado de trabalho com uma velocidade impressionante. São, atualmente, mais de 14 milhões de desempregados.

Desde 2015, o saldo entre demissões e os empregos formais gerados se mantém no negativo. Em uma avaliação nacional, o Ministério do Trabalho informa que 95,8% das vagas geradas em abril procedem de cidades distantes das capitais.

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Neste mesmo período, o Estado de São Paulo foi responsável pela criação líquida de pouco mais de 30 mil empregos.

Desses novos postos de trabalho, 25 mil foram registrados no interior -número quase cinco vezes maior que os cinco mil da região metropolitana. O setor de serviços liderou a abertura de vagas, seguido da agropecuária.

Com tudo isso, seria óbvio afirmar que o interior paulista ganhou uma dinâmica própria para se recuperar do desemprego e reverter os efeitos da crise.

Mas, a verdade é que tantos dados constroem um verdadeiro quebra-cabeça que ainda está longe de poder ser montado.

Embora os números aparentem ser positivos, Luciano Nakabashi, especialista em mercado de trabalho do Departamento de Economia da Faculdade de Economia, Administração e Contabilidade de Ribeirão Preto (FEA/USP), avalia que a retomada do emprego deverá ocorrer somente a partir de 2019 ou 2020.

Nakabashi diz que as regiões mais ligadas às exportações e ao setor sucroalcooleiro tiveram os efeitos negativos parcialmente compensados devido à melhora no preço internacional do açúcar e do etanol e também à depreciação do Real. "Mas, ainda não dá para comemorar", afirma.

A indústria é o setor que irá se recuperar com maior lentidão, devido ao excessivo foco no mercado interno, de acordo com o especialista.

EFEITO SAZONAL

Analisando a lista das cidades que mais geraram empregos com carteira assinada no primeiro trimestre de 2017, em todo o país, Franca, a 400 quilômetros de São Paulo aparece em primeiro lugar.

Foram 390 demissões contra 4.685 novas vagas nos três primeiros meses do ano, de acordo com o Cadastro Geral de Empregados e Desempregados (Caged).

A maior parte delas na indústria calçadista, que gerou 4.395 novos postos.

Além disso, de acordo com José Carlos Brigagão do Couto, presidente do Sindicato da Indústria de Calçados de Franca (Sindifranca), a média salarial da indústria calçadista é baixa. Um trabalhador na cidade recebe cerca de R$ 1,3 mil. 

Com a retomada dos pedidos, especialmente de exportação, os patrões voltam a contratar.

"E então, resulta nesse número bonito e fica parecendo que estamos numa situação muito confortável", diz.

Das dez profissões que mais contrataram na cidade no período, nove têm ligação direta com a linha de produção dos calçados.

Dorival Mourão Filho, presidente da Associação Comercial e Industrial de Franca (ACIF) avalia esses resultados com certo receio.

Seu argumento é que as fábricas de calçados têm fechado postos de trabalho sistematicamente nos últimos anos, nos meses de novembro e dezembro, quando o volume de produção é reduzido.

Ainda assim, houve avanços. No primeiro quadrimestre de 2015, por exemplo, havia um déficit de 5 mil vagas em Franca.

Já em 2016, o saldo do mesmo período foi de 674 novas vagas - uma grande recuperação justificada pelo aumento da exportação de calçados nos primeiros meses do ano.

Para entender isso há também outro possível fenômeno: o surgimento de um novo polo de moda íntima na cidade.

"A baixa empregabilidade fez com que surgissem muitas pequenas confecções especializadas", diz o presidente da ACIF. 

De acordo com Mourão Filho, o forte desemprego de 2015 foi responsável pelo maior índice de abertura de micro e pequenas empresas em Franca, que hoje representam 94% do universo de empresas.

MOURÃO FILHO, DA ACIF: DESEMPREGO LEVOU À EXPANSÃO DE MICROEMPRESAS

O engenheiro-agrônomo Alex Rodrigues Kobal, 46 anos, proprietário de uma empresa de dedetização e controle de pragas, é um dos empresários do setor de serviços que abriu novas vagas neste ano.

Com um fluxo de clientes estável nos últimos três anos, Kobal conseguiu renovar todos os contratos anteriores sem aplicar a correção do Índice Geral de Preços do Mercado (IGP-M) e precisou de reforço na equipe.  

RIO PRETO, PIRACICABA E BAURU

Outros destaques do Caged foram as cidades paulistas de São José do Rio Preto (958), Bauru (398) e Piracicaba (482).

A nona posição no ranking estadual de formalização de empresas diz muito sobre a leve retomada na criação de empregos em Bauru, a 330 quilômetros de São Paulo.

No primeiro trimestre deste ano, cerca de dois mil novos microempreendedores individuais (MEIs) foram cadastrados pela Secretaria do Desenvolvimento Econômico do município.

ALINE, SECRETARIA DE DESENVOLVIMENTO DE BAURU

A secretária municipal Aline Fogolin diz que o setor de serviços ganhou sustentação em meio à crise à medida em que uma parcela dos desempregados decidiu empreender.

Wagner Ismanhoto, economista do Instituto Toledo de Ensino de Bauru, também acredita que por estar vinculado a demandas básicas, serviços são o último ítem cortado do orçamento.

Para Ismanhoto, a diferença de desempenho entre capital e cidades do interior pode ser parcialmente explicada pelo fato de a região metropolitana concentrar segmentos da economia que ainda estão sendo penalizados pela crise, como é o caso do ramo automotivo.

“Por se tratar de um bem de valor elevado, a retomada ainda é muito lenta. Os consumidores, além de endividados, ainda não se sentem seguros em assumir compromissos financeiros de longo prazo”.

Responsável pelo processo seletivo de mais de 300 indústrias nas regiões de São José dos Campos, Piracicaba, Atibaia e São José do Rio Preto, a Consult Interior RH abriu um novo leque de atuação em 2016 - a captação de funcionários para o varejo.

Pouco antes do segundo semestre começar, a consultoria começou a ser procurada por lojistas com o objetivo de tornar seus colaboradores mais engajados.

Mesmo sem experiência na área, Ronan Silveira, diretor de planejamento da Consulting, se reuniu com alguns empresários para tentar entender o que cada um buscava.

A resposta foi unânime. Eles queriam diminuir a rotatividade de contratos para reduzir custos.

"Percebi que essa (rotatividade) é uma característica forte do segmento".

Hoje, a fatia de clientes varejistas atendidos pela consultoria já representa 30% dos clientes.

De acordo com Silveira, esse resultado reflete o período de transição da indústria, que atualmente, está em baixa.

Enquanto a produção física não apontar  para cima, o emprego, que é o último a se recuperar, ainda viverá esse período de altos e baixos, segundo o consultor. 

"A base de comparação é que é muito fraca e as notícias são muito ruins", diz. "Claro que qualquer mínimo avanço é comemorado, mas, não há um setor que esteja indo bem".

FOTOS: Estadão Conteúdo e divulgação