São Paulo, 07 de Dezembro de 2016

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Os novos negócios bilionários de Safra, tradição secular de silêncio
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Por dentro da discretíssima linhagem de banqueiros que, baseados em São Paulo, agora aceleram no mercado imobiliário e no agronegócio

Por David Gelles e Dan Horch
Em um único dia de novembro passado, estavam sendo fechados dois negócios que atrairiam atenção inusitada para uma família de banqueiros que prefere se manter nas sombras.

Em Londres, na Rua Mary Axe, 30 – uma torre de escritórios em forma de pepino desenhada por Norman Foster e conhecida como Gherkin – estava para mudar de mãos por US$ 1,1 bilhão. Já em Nova York, os acionistas da Chiquita Brands International, empresa produtora de bananas, haviam finalmente concordado em vender a companhia por US$ 1,3 bilhão.

A TORRE GHERKIN, OU DO PEPINO, COMO É CONHECIDA: TRANSAÇÃO DE US$ 1,1 BI/Foto:Tom Jamieson

O comprador, nos dois casos, foi o Grupo Safra, ramo de investimentos de uma lendária família do mundo das finanças, que luta para manter sigilo sobre seus negócios. 

Administrado por Joseph Safra, o último filho vivo do patriarca que construiu o império, o Grupo Safra gerencia os bilhões da família. Com uma fortuna pessoal estimada em 14,5 bilhões de dólares, de acordo com a revista Forbes, Safra, de 76 anos, é o banqueiro mais rico do mundo.

Além da vasta e sempre crescente coleção de imóveis, sua fortuna foi reforçada por uma rede de bancos internacionais, como o Banco Safra do Brasil, o J. Safra Sarasin Holding, da Suíça, e o Safra National Bank de Nova York. No total, a família e seus bancos administram mais de 200 bilhões de dólares e têm capital próprio de mais de 15 bilhões de dólares. 

Com os negócios mais recentes, a Gherkin se tornou a imagem principal do portfólio de imóveis dos Safra, que conta com mais de cem propriedades mundo afora, incluindo algumas em Nova York, como o complexo de escritórios da avenida Madison, 660, no centro de Manhattan, e vários prédios com localização privilegiada no SoHo, na parte baixa da ilha. 

COMPRAR PARA ACUMULAR

“A filosofia com que gerenciam o negócio de imóveis é parecida com a que usam nos bancos”, afirma um conhecido que trabalhou em negócios envolvendo propriedades da família e pediu para não ser identificado para não colocar em risco sua relação. “Tudo o que fazem é para preservar a riqueza. Compram para acumular, não para vender.”

De fato, eles não venderam nenhum patrimônio importante nas últimas décadas. 


Q.G DA CHIQUITA BRANDS, EM CINCINNATI, OHIO

Com a Chiquita, o Grupo Safra encontrou uma oportunidade de diversificar seus rendimentos com uma aposta parecida, pública e de longo prazo. A demanda por bananas, uma fruta popular no mundo todo, não deve diminuir. E, unindo-se ao Grupo Cutrale, que pertence a uma família brasileira com experiência em agricultura e bastante conhecida dos Safra, conseguiram se expandir sem correr muitos riscos. 

Apesar de sua propensão pela privacidade, Joseph Safra se tornou um filantropo importante no Brasil. Tanto o hospital judaico de São Paulo, o Albert Einstein, quanto o fundado pela maior comunidade árabe da cidade, o Sírio-Libanês, têm Safra como um dos seus maiores doadores.  

Entre os sócios próximos, Safra é conhecido por ser uma pessoa gentil e humilde, que cozinha para a família e liga para as pessoas em quem confia regularmente. 

“Ele pensa nos negócios 24 horas por dia, mas encontrou tempo para me ligar todos os dias quando estive no hospital por causa de uma cirurgia no coração”, conta Jack Terpins, presidente do Congresso Judaico Latino Americano. 

IMPACIENTE E IRRITADIÇO

Outras pessoas, que concordaram em falar somente sem ser identificadas por causa do poder de Safra na comunidade financeira de São Paulo, descrevem um lado impaciente e um temperamento irritadiço. 

“Ele gosta que os problemas sejam resolvidos imediatamente. Ninguém quer desapontá-lo ou deixá-lo nervoso”, explica um antigo funcionário. 

Apesar de sua natureza privada, Safra manteve e aumentou a fortuna da família, que deve sobreviver 100 anos ou mais. 
“O dinheiro deles vai durar por muitas gerações”, diz um banqueiro do alto escalão que trabalhou próximo à família. “Não são muitas as pessoas que conseguem isso.”

O lugar que a família Safra ocupa hoje no centro da elite da indústria de bancos mundial está muito distante de suas raízes como negociantes nas caravanas de camelos que passavam por Alepo, na Síria. 

Foi ali, mais de 100 anos atrás, que a família Safra descobriu sua perspicácia para os negócios, primeiro como mercadores e mais tarde como banqueiros amadores. Depois da Primeira Guerra Mundial, o pai de Safra, Jacob, foi para Beirute e abriu um banco, aproveitando o fato de o Líbano ser um centro cosmopolita em ascensão no Oriente Médio.

PRÉDIO SEDE DO GRUPO SAFRA, NA AVENIDA PAULISTA, EM SÃO PAULO

Logo após a Segunda Guerra Mundial, Safra se mudou com a família para o Brasil e, em 1957, montou o Banco Safra com sete funcionários. Hoje, o banco é o oitavo maior do país, com mais de US$ 56 bilhões de patrimônio. 

Apesar da proeminência da família, Joseph Safra e seus parentes vivem em total privacidade. Ele não aparece em colunas de fofocas e seu nome nunca foi associado a políticos ou celebridades. Em contraste com os hábitos descontraídos dos brasileiros, ele sempre usa terno. Seguidor de suas raízes de judeu sefardita, sua dieta é estritamente kosher.

“Para a maioria dos brasileiros, ele é um mistério”, afirma Paulo Feldmann, professor de Economia da Universidade de São Paulo, que estuda a cultura corporativa na América Latina. 

Ele também é um mistério para o resto do mundo. Nenhum integrante da família Safra ou de suas empresas quiseram dar entrevistas para este artigo, seguindo uma regra antiga de não falar com a imprensa ou aparecer em público. 

A privacidade, no entanto, não inibiu a habilidade da família de expandir seus negócios ou aumentar sua fortuna. Várias pessoas que trabalham próximas ao Grupo Safra descrevem uma família que mede o sucesso por décadas e gerações e não por trimestres ou anos fiscais, e que têm como objetivo aumentar sempre os retornos de longo prazo para clientes e ela própria. 

“Eles estão focados em investimentos de prazo muito longo, em qualquer lugar do mundo onde isso faça sentido”, diz o banqueiro. “Eles vão manter suas apostas em bens de baixíssima volatilidade, além de propriedades e empresas com valorização comprovada no longo prazo.”

Por trás dessa filosofia está uma máxima adorada pelo patriarca, Jacob Safra, e assimilada pelos filhos e netos: “Se você escolheu navegar no mar dos bancos, construa seu banco como faria o seu barco, com força para navegar com segurança mesmo na pior tempestade.”

A TERCEIRA GERAÇÃO

Hoje, enquanto Joseph se mantém o patriarca da família, seus três filhos, Jacob, David e Alberto estão assumindo papeis mais importantes. Jacob, o mais velho, divide seu tempo entre a Suíça e Nova York, tomando conta do J. Safra Sarasin e do Safra National Bank de Nova York, além de algumas operações fora do Brasil não relacionadas ao banco. Enquanto isso, David e Alberto administram o Banco Safra no Brasil. O pai está sempre viajando entre o Brasil, a Suíça e Nova York. 

Safra acredita que o preço pago pelo Gherkin foi uma barganha, de acordo com gente ligada à família. O prédio foi vendido por causa de uma falência e, em uma sutil mudança de curso, a família Safra crê que tem agora a oportunidade de fazer melhorias e aumentar os aluguéis, incrementando os lucros sobre a compra do prédio mais cedo do que o imaginado. 
 



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