São Paulo, 29 de Setembro de 2016

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No Canadá, pequenas cervejarias buscam alternativas de vendas
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Praticamente toda cerveja vendida em Ontário, uma das províncias canadenses, sai das gôndolas da Brewers Retail, que abocanha mais de 80% das vendas da bebida no varejo.

Por Ian Austen 

Ontário, Canadá – A Brewers Retail vende cervejas basicamente da mesma forma desde que abriu as portas há 88 anos.

Em uma velha loja no bairro de Glebe, no centro da cidade, os clientes fazem suas escolhas a partir de um painel estonteante com mais de 300 rótulos. Os pedidos são enviados para um depósito sem janelas ao lado da loja. Então, a cerveja surge de um pequeno buraco na parede e desce por uma esteira metálica até o cliente.

"Ontário é um lugar meio puritano quando se trata de bebida", afirmou Nick Lea, depois de comprar 15 garrafas de Sleeman Original Draught.

O sistema de compras antiquado, responsável pela maior parte das vendas na província, está no centro da guerra das cervejas em Ontário.

Cervejarias artesanais e varejistas estão lutando para acabar com o monopólio da empresa sobre o mercado das cervejas. Os clientes querem preços mais baixos e lugares mais convenientes para comprar. E o governo quer mais dinheiro.

Batalhas similares estão sendo travadas em todo o planeta, à medida que cervejarias artesanais e independentes lutam por mais espaço com as gigantes do mercado. Mas a coisa é especialmente intensa em Ontário, graças ao sistema heterodoxo do mercado regional.

A BREWERS RETAIL MONOPOLIZA O VAREJO DE CERVEJA EM ONTÁRIO

Remanescente das regras pós-proibição da venda de bebidas alcoólicas, a Brewers Retail, que conta com 466 lojas da Beer Store, basicamente controla o mercado das cervejas, com 80% das vendas na província. A empresa começou como uma cooperativa de cervejeiros em Ontário. Mas agora é praticamente um monopólio que pertence a três grandes empresas globais do setor: a Anheuser-Busch InBev, a Molson Coors e a Sapporo Breweries.

Os pequenos cervejeiros afirmam que o sistema perpetua o domínio das grandes marcas sobre o mercado.

A Moosehead Breweries, uma fabricante independente de cervejas, vende mais cerveja na Brewers Retail do que em outras lojas. Contanto, o presidente da Moosehead, Andrew Oland, critica a falta de oportunidades para promover suas marcas nas lojas. Além disso, ele também acha que a experiência de compra é ruim para os clientes.

"Nas lojas mais velhas... estou tentando pensar em uma analogia que não fale da Rússia comunista. Bom, digamos que a experiência não é compatível com o século 21", afirmou Oland em sua cervejaria em St. John, New Brunswick.

PARCERIA

As cervejarias menores, como a Moosehead, encontraram um parceiro inesperado no governo.  

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Enfrentando uma grave crise orçamentária, Ontário, a província mais populosa do Canadá, busca novas fontes de renda. Esse processo trouxe a perspectiva de rompimento desse quase monopólio, abrindo o mercado das cervejas, avaliado em quase três bilhões de dólares, para outros varejistas. No orçamento deste ano, o governo liberal da província prometeu grandes mudanças nas regras para a venda de cerveja.

Ao mesmo tempo, o bureau nacional de concorrência está comparando o sistema de venda de cerveja em Ontário com o adotado pela província vizinha, Québec. Um porta-voz do bureau afirmou que as autoridades querem determinar "quais são os efeitos dessas diferenças sobre a concorrência em cada uma das províncias".

A Brewers Retail, que sempre foi uma generosa doadora nas campanhas políticas, defende seu modelo de negócio. A empresa argumenta que desmanchar o sistema aumentaria o preço da cerveja e limitaria as opções.

"Verdade seja dita, esse é um modelo com altíssima eficiência de custo para os consumidores", afirmou Stewart Glendinning, executivo-chefe da Molson Coors Canada. "Eu sei o que é melhor para os consumidores. E tendo conhecido diversos modelos de venda em todo o planeta, posso dizer que esse é um sistema de baixo custo e que transfere a economia para o consumidor final".

Por meio de anúncios de TV, panfletos e propagandas online, a Brewers Retail também sugere que a liberação da venda em outras lojas levaria à bebedeira desenfreada entre menores de idade. Um dos comerciais da Beer Store mostra um atendente de meia idade em uma loja de conveniência cheia de produtos fazendo piadas com três adolescentes, enquanto eles compram cerveja e uísque. "Divirtam-se hoje à noite, meninos", afirma o vendedor assim que eles saem da loja.

Ao longo das últimas nove décadas, campanhas em prol de reformas ou do fim da Brewers Retail ocorreram diversas vezes. Mas seu domínio de mercado está ameaçado, agora que o governo de Ontário pediu para que um grupo de pesquisadores e líderes comerciais analise a venda de ativos como forma de arrecadar mais dinheiro.

Como parte dessa revisão, a equipe liderada por Ed Clark, diretor recém-aposentado do Toronto-Dominion Bank, avaliou o Painel de Controle das Bebidas Alcóolicas de Ontário, o único outro vendedor relevante de bebidas da província. Por fim, o grupo recomendou que o governo mantenha suas lojas de bebidas.

Mas também concluiu que a província deveria arrecadar mais dinheiro com a Beer Store. De acordo com a avaliação, os proprietários se beneficiavam sobremaneira do baixo custo e da distribuição limitada.

Em Québec, é mais comum encontrar cerveja nos supermercados e lojas de conveniência, além das lojas de bebidas que pertencem ao governo. Assim, algumas das marcas custam muito menos na província.

Uma caixa com 24 garrafas de Stella Artois, uma das principais marcas da Anheuser-Busch InBev, é vendida por 47,95 dólares canadenses, ou 38,50 dólares americanos, na Beer Store, incluindo os impostos e o preço do casco. Já nas lojas da Costco, em Québec, a mesma caixa custa 36,65 dólares canadenses. Os impostos sobre bebidas alcoólicas são um pouco mais baixos em Québec, mas não o suficiente para justificar essa diferença.

Além do preço, as cervejarias artesanais argumentam que a Beer Store e seu sistema impedem o crescimento. Dependendo da conta, as cervejarias artesanais são responsáveis por 4% a 6% das vendas em Ontário. Na Columbia Britânica, que conta com um sistema de venda mais competitivo e conveniente, as cervejarias artesanais respondem por 12% do mercado.

"Esse é um sistema que não parece beneficiar o cliente final. Se há um monopólio, é preciso haver alguma vantagem para o público", afirmou Darren Smith, presidente e executivo-chefe da Lake of Bays Brewing, em Baysville, Ontário.

Conseguir que a Beer Store venda um produto custa caro. Existe uma taxa inicial de 2.800 dólares canadenses, mais uma taxa adicional de 230 dólares canadenses para cada loja em que a cervejaria deseja vender seus produtos.

Para a Beyond the Pale, uma pequena cervejaria de Ottawa, o preço é alto demais. Por enquanto, as vendas da empresa se resumem ao balcão da cervejaria, vendas diretas a bares, restaurantes e nas lojas do governo.

CERVEJARIAS ARTESANAIS COMO A BEYOND THE PALE QUEREM PERMISSÃO PARA ABRIREM MAIS DE UMA LOJA 

Sentado em um escritório de madeirite, Al Clark, um dos fundadores da empresa, afirmou que a Beer Store "não faz parte da realidade de uma cervejaria pequena como a nossa". Ele preferia que o governo desse permissão para que os pequenos cervejeiros abrissem mais de uma loja.

"Isso é uma grande barreira para a concorrência, já que o monopólio de distribuição de cerveja está nas mãos de três grandes organizações internacionais."

A Brewers Retail afirma que está tentando resolver parte dos problemas, especialmente no que diz respeito à experiência do consumidor em suas lojas.

Glendinning, da Molson Coors Canada, afirmou que a empresa planeja abrir mais lojas com autoatendimento, embora reconheça que a cerveja continua basicamente escondida nos depósitos que ocupam até três quartos das lojas. Ele afirmou que passariam a usar iPads no lugar dos rótulos que ocupam a parede dos barracões.

E, mais recentemente, a Beer Store ofereceu a outras cervejarias a oportunidade de comprar uma pequena parte das ações da empresa. Porém, a proposta foi recebida com indiferença pela maioria das cervejarias artesanais.

Fotos: Dave Chan/The New York Times

 



Agora ele espera que o discurso se materialize na prática, de acordo com o presidente do Citi no Brasil, Hélio Magalhães

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