São Paulo, 26 de Março de 2017

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No Bom Retiro, lojista serve até fondue para vender peças de frio
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Vivian Song , sócia da Cotton Colors, que a exemplo de outras confeccções cortou 30% a produção da coleção de inverno

A troca sazonal de coleções sempre foi motivo de euforia para as indústrias de confecções. É o momento em que o lojista se estoca -ou costumava se estocar - para atender o consumidor por alguns meses.

É também quando se tem pistas de quais modelos e cores podem dar o tom da estação.

A crise política e econômica que o Brasil enfrenta mudou radicalmente esta relação. A coleção outono-inverno começa a chegar às lojas do Bom Retiro, que abastece todo o país, e não há sinais de lojistas por lá -ao menos não em número que os donos das confecções desejariam.

Uma consulta feita a uma dúzia de confeccionistas da região pelo Diário do Comércio revela que as confecções enxugaram custos, fecharam lojas e cortaram cerca de 30% da produção da coleção outono-inverno, na comparação com igual período do ano passado.

Passada a fase dura de cortes no último ano, o que as confecções querem agora é que a crise política não se arraste por mais tempo para que se restaure a confiança na economia e os lojistas e os consumidores, como consequência, voltem a lotar as ruas do bairro.

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Com 30 anos no Bom Retiro, a Cotton Colors fechou duas lojas e enxugou a variedade de modelos e reduziu a produção em 30%. A confecção possui atualmente três lojas de atacado (eram cinco) e uma de varejo, no caso, com a marca Yuri.

Ao refletir sobre a sua expectativa de vendas para a coleção de outono -inverno, Vivian Song, sócia da confecção criada pelo seu pai, diz que deve haver algum movimento de vendas até o Dia das Mães. Depois...é impossível prever, segundo ela.   

Para atrair os lojistas, a Cotton Colors resolveu oferecer alguns mimos para os clientes. Ontem (22/03), bem na entrada da loja da Rua Aimorés, uma funcionária servia frutas com calda de chocolate para quem entrava para dar uma espiada na coleção.

No fundo da loja havia também variedade de sucos e uma máquina de café para quem quisesse se servir. Todas as terças-feiras, até o Dia das Mães, a confecção vai fazer um agrado na clientela. E toda a semana vai lançar de dois a dez modelos novos entre calças, blusas e vestidos.

Na mesma rua, a Talgui, também especializada em roupas femininas, oferecia sucos naturais de frutas feitos por um barman. De fora, parecia que loja e minibar funcionavam no mesmo local.

“Em época de crise, é preciso apresentar mais novidade para os clientes. Diminuir a variedade de modelos é dar um tiro no pé”, diz Stefanos Anastassiadis, sócio da Controvento, uma das mais tradicionais confecções de roupas femininas do bairro.

"A crise está ai", diz ele, "mas nem por isso o cliente deixou de ser exigente, seletivo ou dispensou a experiência de compra". Por isso, Anastassiadis vai manter a variedade de itens dos últimos anos, mas vai diminuir a quantidade produzida de cada modelo.

Segue a mesma linha Pavlos Theodorakis, sócio da Main Street, confecção de roupas masculinas. “Vou manter os 80 modelos de sempre, mas vou diminuir a produção de peças por modelo.”

Os preços, diz ele, estão, em alguns casos, menores que os do ano passado. Uma camisa longa com tecido de fio egípcio que vendida a R$ 80 no atacado em 2015, agora custa R$ 78.

O bairro do Bom Retiro reúne cerca de 1,6 mil lojistas, dos quais 1,4 mil são também fabricantes de roupas, que movimentam cerca de R$ 3,5 bilhões por ano e empregam diretamente 50 mil pessoas, de acordo com a Câmara dos Dirigentes Lojistas (CDL) do Bom Retiro.

TRANQUEZ: AS CONFECÇÕES SE ADAPTARAM A UM RITMO MENOR DE VENDAS

Nelson Tranquez Jr., presidente da CDL do Bom Retiro, e gerente comercial da Loony Jeans, diz que, de fato, no último ano, as confecções fizeram cortes de custos e se adaptaram a um ritmo menor de vendas. Todas sofreram com a crise. Agora, diz ele, é hora de falar de “coisas boas”.

“Na parte nobre da Rua José Paulino, a principal rua do bairro, só tem uma loja fechada. Existem lojas fechando, mas existem outras abrindo, não dá para parar tudo por conta da crise”, afirma.

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Com 39 anos no bairro, a Loony, diz ele, diminuiu em 20% a coleção de inverno deste ano, em comparação com a do ano passado. E colocou em prática um programa para corte de custos.

As lâmpadas das lojas, que eram incandescentes, foram trocadas pelas de led, o que, de acordo com Tranquez, deve gerar uma economia da ordem de 30% a 40% na conta de luz.

A confecção, que possui cerca de 150 funcionários entre três lojas e duas fábricas, reduziu suas margens e vai vender os produtos por preços iguais ou até menores do que o do ano passado.

No atacado, os preços dos jeans femininos devem custar entre R$ 79 e R$ 99 e, as blusas, entre R$ 59 e R$ 89.

CALOR

Além da crise, o que tem afugentado os clientes do bairro é o calor, de acordo com Camila Lima, gerente da Estrada, que pertence a um grupo de cinco lojas de atacado e varejo.

Se fizer um friozinho, diz ela, muito provavelmente, haverá mais movimento no bairro. Por enquanto, de acordo com Camila, entra mais gente na loja para pedir emprego do que para comprar roupas.

“Antes de maio, a coleção de inverno não deve deslanchar mesmo, especialmente se não esfriar. Pode ser que os consumidores das classes A e B façam alguma compra. Mas aqueles com menor poder aquisitivo só vão comprar alguma peça se fizer frio”, afirma Emílio Alfieri, economista da Associação Comercial de São Paulo (ACSP).

A Star Índia decidiu nem apostar em peças para o frio neste ano. Após enfrentar queda de cerca de 40% nas vendas no ano passado, a confecção, que produz as peças na Índia, decidiu inovar neste ano com lançamento apenas de peças de verão.

“Não dá mais para atender o mercado com estações de inverno e de verão. Nós estamos com coleção nova, mas com peças para o calor, para atender outros mercados, como o Nordeste”, afirma Débora Silva, gerente da loja, que possui cerca de mil clientes espalhados pelo país.

 Para o varejo, os vestidos da Star Índia estão por R$ 80 a peça. No atacado, custam menos, R$ 60. No ano passado, para estimular o consumo, vestidos foram vendidos por R$ 40.

O que tem aliviado o caixa das lojas do bairro são os clientes estrangeiros. A desvalorização do real tem trazido mais consumidores do Paraguai, da Bolívia e da Angola para o bairro.

JEANINE: CONSUMIDORA BOLIVIANA FAZ COMPRA NO BOM RETIRO

Quem achou tudo barato na loja da Yuri ontem foi a boliviana Jeanine Limpias. De seis em seis meses ela costuma vir ao bairro para, durante três dias, adquirir roupas para a família toda e também para revender.

Após um ano de corte de custos e fechamento de lojas, confecções esperam o fim da crise política e econômica para voltar a vender roupas como antigamente.

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A projeção é do Instituto de Economia da ACSP com base em dados do IBGE e do Índice Nacional de Confiança (INC), pesquisa mensal da Associação Comercial de São Paulo

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Levantamento da Fecomercio mostra, entretanto, que na média os estoques ainda estão bem acima do ideal

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Para Alencar Burti, presidente da ACSP, o resultado, ainda que preliminar, aponta para um arrefecimento da crise

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