São Paulo, 01 de Outubro de 2016

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Nem dólar caro barra a entrada de importados no país
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Roupas, calçados, tecidos e alimentos produzidos lá fora registram em 2014 aumento extraordinário de volume, em sintonia com a demanda crescente dos consumidores

A opção preferencial dos brasileiros por produtos importados não fica evidente somente nas viagens para Miami ou Nova York. Aqui mesmo em São Paulo, os produtos ‘made in china’, ‘made in Bangladesh’ ou até ‘made in Spain’ são cada vez mais consumidos. E se há demanda, faz-se de tudo para atendê-la. Basta observar as vitrines, principalmente no centro da cidade, e as prateleiras nas redes de supermercados, para constatar como prolifera a oferta de alimentos, roupas, sapatos, bolsas, acessórios, tecidos, artigos de cama, mesa e banho vindos do exterior.

No supermercado Santa Luzia, por exemplo, os importados já representam 60% do mix de produtos, especialmente nesta época de Natal, e 50% no restante do ano. Mais: qualquer loja de grife ou de marcas mais populares possui hoje pelo menos uma parte da coleção trazida do exterior --ou totalmente pronta ou semiacabada.

A Levi´s, por exemplo, já não produz mais nada no país e informa que suas vendas cresceram dois dígitos neste ano em relação ao ano passado. Na rede Chic Outlet, com três lojas, 70% das mercadorias vendidas com as marcas Hollister, Lacoste, Abercrombie & Fitch procedem do exterior.

Isso sem levar em conta o que entra de importados por meio das grifes instaladas em shoppings centers ou no bairro dos Jardins. Com crise ou sem crise no país, o Dorben Group, que representa várias marcas de luxo, tem planos de aumentar cinco para sete, as lojas da marca Carolina Herrera no Brasil.

Moda feminina: entre os itens de maior volume de importação

 A advogada Regina Kjovak exemplifica bem o comportamento do consumidor brasileiro. Pelo menos quatro vezes por semana ela faz compras no supermercado Santa Luzia, conhecido pela oferta de produtos importados e diferenciados. Ela aprecia queijos suíços. É também frequentadora de outlets de grifes estrangeiras, como Tory Burch e Kate Spade. “Os preços dos importados são muitas vezes similares aos das confecções nacionais do mesmo padrão. E a qualidade dos produtos estrangeiros é hoje muito melhor do que a dos nacionais”, afirma.

A exemplo de muitos brasileiros, ela tem receio de como vai ficar a economia brasileira em 2015 e diz que, ao seu modo, está mais cautelosa com as compras, apesar de considerar o importado como produto do dia a dia da família.

Os números comprovam o comportamento de Regina. De janeiro a outubro, as tradings reduziram aproximadamente 3,3% das importações sobre igual período de 2013, reflexo da retração econômica. Mas, no setor de manufaturados, há vários produtos que se destacam pela expansão das importações.

Entre os itens estão calças e bermudas masculinas, calçados, aparelhos eletrônicos, ternos, cobertores e mantas. As tradings também importaram mais fios de algodão  e tecidos de fibras têxteis sintéticas ou artificiais.

De tudo o que as tradings trazem de fora, 30% são bens de capital e 24%, matérias-primas. O restante, ou 44% da importação, chega ao país para atender o consumidor. “A queda da importação total é reflexo da desaceleração da economia. Agora, no caso de bens de consumo, a importação cresceu porque a indústria brasileira perdeu competitividade”, afirma Lilia Miranda, diretora executiva da Abece (Associação Brasileira de Empresas de Comércio Exterior). O que está ocorrendo, portanto, é substituição de produto nacional por importado.

“Os atacadistas compraram menos produtos nacionais e importados porque estão com mais estoques”, diz Aldo Nunez Macri, diretor do Sindicato dos Lojistas do Comércio de São Paulo (Sindilojas). Mas assim que a economia entrar nos eixos, segundo prevê, as importações devem ser retomadas. Até porque, segundo Macri, o importado ainda possibilita maior margem de ganho para os comerciantes.

“Eu gosto dos importados porque são produtos diferenciados, não, necessariamente, mais baratos. Gosto dos azeites, vinhos, pistache”, afirma a professora Sônia Ohanian cliente do Santa Luzia. “Eu gosto de temperos, mostardas e molhos para barbecue [churrasco]. Também compro chocolates belgas para o preparo de mussis”, afirma a arquiteta Ana Maria Jordani.

Este tipo de comportamento é o que leva Jorge da Conceição Lopes, diretor comercial do Santa Luzia, a pesquisar tudo o que possa interessar ao seu consumidor. “Este ano o que eu estou trazendo de diferente para os clientes é um biscoito da Indonésia, que é bom em qualidade e preço em relação ao dinamarquês”, afirma, ao prever para este Natal desempenho de vendas similares ao de 2013.

Os produtos importados custam, em média, de 25% a 40% mais em conta do que os nacionais, de uma forma geral. Nas cadeias metal-mecânica, que envolvem os setores de bens de capital e automobilístico, os custos de produção no Brasil são 30% a 40% mais elevados e, no setor químico, mais 25%, de acordo com estudos.

"Parece que o governo não enxerga a falta de competitividade", diz executiva

“Quando chega a este ponto de importação tão generalizada de produtos finais há clara demonstração de que a indústria não consegue mais competir. Apesar de a taxa de câmbio ter se desvalorizado, as indústrias enfrentam um problema de custos sistêmicos”, afirma David Kupfer, professor licenciado da UFRJ (Universidade Federal do Rio de Janeiro) e assessor da presidência do BNDES (Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social). Infraestrutura, logística, energia e salários, diz ele, são as maiores pressões de custos para as empresas.

O dólar está neste momento mais desfavorável para as importações, mas há uma demanda reprimida. E é por isso que a Dahll Internacional elevou em cerca de 15% as importações neste ano. Entre os produtos vindos de fora destacam-se equipamentos para ar condicionado, produtos alimentícios, motos e roupas semiacabadas.

“Parece que o governo não enxerga a falta de competitividade da indústria”, afirma Rita Campagnoli, diretora da Dahll. A própria Dahll teve de mudar o foco de atuação. Nasceu, em 1991, para fazer exportação de produtos brasileiros. Hoje, só cuida de importação. “O fato é que as tradings não tem produto para exportar. Nós, por exemplo, não conseguimos exportar frango salgado congelado para a República Checa por questões de preço, cota, mercado.”

Não é de hoje que a cadeia do setor têxtil, por exemplo, vem perdendo espaço para os fabricantes estrangeiros, especialmente os chineses. “Mas é preciso deixar claro que isso não está ocorrendo por conta da incompetência do empreendedor, mas, sim, por fatores macroeconômicos, como taxa de câmbio desfavorável, carga tributária alta, excesso de burocracia”, afirma Fernando Valente Pimentel, diretor superintendente da Associação Brasileira da Indústria Têxtil (Abit).

De janeiro a novembro, as importações de produtos de vestuário cresceram 8,3% em dólar e 6% em volume, na comparação com igual período de 2013. Os produtos vêm principalmente de Bangladesh, Camboja e China. Estes percentuais de incremento das importações já foram muito maiores, de dois dígitos, mas só que todo o crescimento é sempre sobre uma base cada vez maior. “O setor carrega um fardo difícil, pois compete de forma desleal”, diz Pimentel.

A indústria calçadista brasileira tem o mesmo discurso. “O que estamos prevendo para o ano que vem é a retomada nas exportações por conta da desvalorização do real e a possibilidade de retomada dos países compradores dos nossos calçados, como Estados Unidos e Europa”, afirma Heitor Klein, presidente executivo da Abicalçados, associação que reúne os calçadistas.

RESPIRO PARA INDÚSTRIA

Aliás, a expectativa de uma taxa de câmbio mais perto de R$ 2,80 em 2015 pode, na avaliação de alguns especialistas, dar um respiro para a indústria brasileira no ano que vem. Mais exportações e menos importações podem dar a chance de recuperação para algumas cadeias produtivas.

“Os setores que passaram por um processo de desindustrialização poderão voltar a produzir mais no ano que vem. Mas este é um processo que será discreto, não deve inverter todo o processo de desindustrialização dos últimos tempos”, afirma José Augusto de Castro, presidente da AEB (Associação de Comércio Exterior do Brasil). Neste caso, na sua avaliação, os setores que serão mais beneficiados por este processo são os intensivos em mão-de-obra, como confecção, calçados, móveis.

Mas, mais uma vez, a melhora da competição prevista para a indústria nacional no ano que vem está relacionada com a taxa de câmbio. A indústria, de qualquer forma, vai continuar de forma mais intensa ou mais branda, segundo os especialistas em comércio exterior, sofrendo a pressão dos importados. Isso não acaba mais. Para minimizar este processo, dizem eles, o país precisa de uma política industrial, focada em corte de custos e aumento de emprego.

 



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A retomada estará atrelada ao atual patamar de câmbio, com o dólar mais acomodado em cerca de R$ 3,20, depois de bater os R$ 4 no início do ano.

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