São Paulo, 30 de Setembro de 2016

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Interior de São Paulo já produz azeite de qualidade
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Pequenos produtores de azeite artesanal entram na disputa com importados por um mercado cada vez mais atraente

Embora ainda não exista tradição no cultivo de oliveiras no Brasil, pequenos produtores estão descobrindo a arte de transformar azeitona em azeite. Os primeiros resultados obtidos no interior de São Paulo mostram que a atividade surge com grande potencial econômico para a região sudeste.

Habituado a importar, o brasileiro começou a produzir. Feito de forma artesanal em São Bento do Sapucaí, a 200 quilômetros da capital, na Serra da Mantiqueira, o azeite extra virgem Oliq representa uma história que ainda escreve suas primeiras páginas. Os sócios Vera Masagão Ribeiro e seu marido Antônio Gomes Batista, donos da Fazenda Santo Antônio do Bugre, e Cristina Vicentin, proprietária da fazenda São José do Coimbra, formaram o núcleo de produtores rurais que se dedica à olivicultura e investe em maquinário.

Cada associado colabora com o que tem. Alguns com a colheita de apenas 30 oliveiras, outros com 9 mil árvores, como é o caso de Cristina, que as cultiva há mais de 12 anos. No total, o azeite Oliq é resultado de uma promissora produção de 15 mil pés de quatro variedades: arbequina e arbosana (espanholas), grappolo (italiana) e maria da fé (brasileira) – todas fincadas a uma altitude superior a 900 metros, na divisa do estado com Minas Gerais.

Azeite Oliq, produzido no interior de São Paulo/Foto: Arquivo Oliq

Foi a vizinhança da cidade com pequenos produtores mineiros que trouxe os primeiros aprendizados à Oliq. Diferente do Estado de São Paulo, que engatinha nesse segmento, Minas Gerais e o Rio Grande do Sul já se posicionam de forma mais concreta nesse mercado. 

Depois de três anos de pesquisa e tentativas, Vera, Batista e Cristina comemoraram em julho do ano passado a primeira extração de azeite extra virgem com acidez menor a 0,2%, que rendeu 400 litros e 1.600 garrafas, comercializadas a R$35 cada. Cada tonelada de frutos colhidos gera 150 litros de azeite. 

Sócios da Oliq, em São Bento do Sapucaí/Foto: Arquivo Oliq

Com a primeira leva dos engarrafados vendida, Vera já projeta um novo ritmo de produção para a safra de 2015. A intenção é saltar de 400 litros para 15 mil litros e no mínimo, quadruplicar o faturamento. “Teremos produções cada vez maiores. Não queremos nos restringir ao público local. Gradativamente, vamos chegar à mesa do Rio de Janeiro, Belo Horizonte e São Paulo”, diz. 

A presença do Brasil na lista dos dez maiores consumidores de azeite de oliva do mundo, segundo a Olisul (Associação dos Olivicultores do Sul do Brasil) confirma o interesse do brasileiro pelo produto. Hoje, o país ocupa a 7ª posição no ranking. Em 2014, esse volume cresceu cerca de 40%, levando o país a consumir 72 mil toneladas de azeite.  

Esses números crescem proporcionalmente ao de empreendedores no segmento, segundo Edna Bertoncini, engenheira agrônoma da  Secretaria de Agricultura e Abastecimento do Estado de São Paulo e pesquisadora do Projeto Oliva SP, da APTA (agência paulista de tecnologia dos agronegócios). Acostumada a acompanhar as plantações de perto, Edna afirma que o Estado já reúne cerca de 60 microprodutores, que juntos totalizam 500 hectares de olival. Cidades como Campos do Jordão, Piedade, São Sebastião da Grama, Louveira, Lorena e Cabreúva fazem parte desse roteiro. 

MERCADO JÁ TEM INOVAÇÃO

Ainda com muito a ser descoberto, o mercado brasileiro de azeites já oferece novidades. Consolidado em outros países como México, Nova Zelândia, África do Sul e Chile, o azeite de abacate é a aposta de Ricardo Lama, 63 anos, dono da Americana Óleos Vegetais Ltda., e seus dois sócios, que afirmam ser pioneiros nesse segmento no Brasil. 

É de uma fazenda em Bauru (a 330 quilômetros de São Paulo) – a maior exportadora de abacates do Brasil, que sai a matéria-prima do azeite Hass. Após três anos de planejamento e em busca de máquinas para extração (a utilizada para azeite de oliva não funciona com o abacate), os sócios decidiram arriscar e investir em um maquinário para tratamento de esgoto, o grande acerto da empresa. “Já tínhamos tentado de tudo. Foi a cartada final e deu super certo”, diz.

Diferente do processo realizado com o azeite de oliva, a casca e o caroço da fruta são separados da polpa, processada sozinha para a extração do azeite, que segundo Lama, não recebe nenhum tipo de produto químico.

No mercado, desde abril do ano passado, hoje, o produto é distribuído somente no interior do estado, em Campinas, Americana, Bauru, Limeira e Ribeirão Preto. A embalagem de 500 mililitros custa cerca de R$ 40. São produzidos 4.000 litros de azeite durante a safra, que vai de fevereiro a outubro. 

IMPORTADOS ATRAEM OS CONSUMIDORES 

Segundo dados do COI (Conselho Oleícola Internacional), a importação de azeites no Brasil cresceu na ordem de 20%, no último ano. O mercado mundial de azeites gira em torno de 10 bilhões de euros. Esse número, no entanto, representa o faturamento do produtor ao varejista/atacadista.

As prateleiras dos supermercados simbolizam muito bem esses números com o crescimento na oferta de rótulos a cada dia. De olho nesse segmento, em dezembro do ano passado, o 7 Molinos Armazém, na alameda Lorena, nos Jardins, ampliou a atuação e o espaço físico da loja, para se tornar uma espécie de butique de azeites. Em menos de dois meses, o produto já representa 40% do faturamento do negócio.

Para Miguel Vendrasco, 53 anos, fundador do 7 Molinos, a relação do brasileiro com os azeites de qualidade passa por um movimento similar ao que ocorreu com a uva no país. Segundo Vendrasco, o brasileiro está aprendendo a degustar azeite e passou a valorizar qualidade, a ponto de investir R$200 em uma garrafa de meio litro – o 7 Molinos trabalha com importados de R$30 a R$259, de nacionalidade espanhola, grega, francesa, uruguaia, portuguesa e marroquina – todos com grande aceitação.

Mesmo comercializando somente marcas internacionais, Vendrasco confirma o interesse em incluir fornecedores locais em sua carta de azeites. “Tem coisas muito boas sendo produzidas dentro do país. Temos interesse em trabalhar com o produto artesanal, por se tratar de algo autêntico. Além disso, queremos ajudar os microprodutores a entrar no varejo recebendo um lucro justo”, diz.  

 

 



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