Há 25 anos um brechó de Perdizes faz a moda de paulistanos


Franz Ambrósio (foto), dono do Minha Avó Tinha, diz que tentou abrir uma loja no interior, mas é na capital que estão os clientes que buscam estilo e dão gás ao negócio


  Por Fátima Fernandes 28 de Janeiro de 2016 às 14:40

  | Editora ffernandes@dcomercio.com.br


 

Ele até tentou montar o negócio no interior de São Paulo, onde nasceu, mas foi em São Paulo que Franz Ambrósio, 60, engenheiro metalúrgico formado pela Universidade Mackenzie, abriu uma loja para vender o que sempre foi sua maior paixão: roupas e objetos antigos ou ‘vintage’, como ele gosta de dizer.

Instalado há 25 anos em dois imóveis, um de 1918, outro de 1924, na Rua Itapicuru, no coração de Perdizes, o brechó Minha Avó Tinha se tornou uma referência para quem procura roupas de época e de estilo na capital. Nem poderia ser diferente. Como o próprio Franz diz, o seu negócio é especial, pois reúne 'a memória de um tempo'.

“São Paulo é tudo para mim. Foi aqui que eu construí minha vida, minha família. Esse meu negócio só existe aqui, um lugar onde há pessoas que procuram vestir algo diferente da massa. Elas não seguem a moda, elas fazem a moda”, afirma.

Ele tentou ir para o interior, mas constatou que, em cidades pequenas, os moradores têm receio de vender e de usar roupas usadas.

"No interior, vender roupa usada é sinal que está mal de vida e ninguém compra porque não quer ser visto com a peça na rua pelo antigo dono", diz.

Com aproximadamente 25 mil peças para vender e alugar, Franz atende, principalmente, agências de publicidade, produtoras, programas de TV, equipes de teatro e organizadores e frequentadores de festas de épocas.

Seu cliente rotineiro é aquele que possui cultura de moda, não exatamente quem procura artigos de segunda mão atraído por preço baixo --as peças no brechó custarem aproximadamente um terço das novas.

ROUPAS NO BRECHÓ CUSTAM UM TERÇO DO PREÇO DAS PEÇAS NOVAS

Franz nasceu em Marília, cidade na qual a sua família chegou a ter uma fábrica de biscoitos e uma padaria. A vida em São Paulo começou bem cedo, com apenas dois anos, quando o seu pai decidiu montar um depósito de biscoitos no bairro de Moema, na zona sul.

Dos 6 anos aos 12 anos, Franz se divertia ao ajudar os sete irmãos a distribuir biscoitos pela cidade rodando em uma Kombi. Mas nunca a família ficou mais de três meses sem visitar Marília e também Catanduva, cidades onde está parte dos parentes.

Ao concluir o curso de engenharia, a vida de Franz no comércio ficou para trás, mas não por muito tempo.

Ele fez pós- graduação na USP em energia nuclear e, depois, virou engenheiro da Engesa para a área de desenvolvimento de mísseis, auditor qualificado da Petrobrás, consultor e professor do quinto ano do curso de Engenharia Mecânica no Mackenzie.

Enquanto dava aula e atuava com consultor, Franz frequentava, já como expositor, as feirinhas de antiguidades que aconteciam nos pátios do colégio São Luís e do Masp, no final da década de 80 e início dos anos 90.

A paixão por objetos usados, diz ele, vem da mãe, a dona Maria José Fortes Ambrósio.

“Ela gostava tanto desse negócio que, na época, nós frequentávamos o bazar de troca da Maria Thereza Grégori, uma das primeiras a trabalhar com o comércio de usados. Isso me deu segurança para entrar no ramo”, diz ele.

PEÇAS DO BRECHÓ: HÁ 25 ANOS NO BAIRRO DE PERDIZES

O negócio foi crescendo até que, em 1992, ele encontrou o lugar certo para abrir o seu brechó. “O imóvel e a tranquilidade do bairro me agradaram, e aqui estou até hoje.”

Ele admite que a sua loja nunca comercializou peças de sua avó. O nome “Minha Avó Tinha” surgiu porque os clientes que viam os objetos antigos nas feiras costumavam dizer “eu quero essa peça porque a minha avó tinha”.

No início dos anos 90 houve uma explosão de feiras pela cidade, principalmente nos pátios de shoppings centers. Na época, Franz tinha um sócio, o que facilitou a expansão do negócio na loja e nas feiras.

“O brechó é um bom negócio mesmo com a crise”, afirma. Nos melhores anos, em 2007, a sua loja chegou a faturar (bruto) perto de R$ 90 mil por mês. No ano passado, com a crise, o faturamento caiu para R$ 60 mil por mês (bruto), o menor da sua história.

Ainda assim, diz ele, dá para manter o negócio, por enquanto.

“Em 2014, tive de fazer empréstimos em bancos, pois em ano de eleições e de Copa do Mundo esse mercado sofre mais. A partir de setembro do ano passado, o negócio já melhorou. Vamos ver como será este ano”, diz.

De fato, parece que este negócio vai bem. De janeiro a outubro do ano passado, em plena crise, o número de micros e pequenas empresas no comercio varejista de artigos usados optantes pelo Simples Nacional cresceu 8% no país, de acordo com o Sebrae.

Em dezembro de 2014, havia 13,1 mil empresas do tipo em funcionamento no Brasil. Em 17 de outubro do ano passado eram 14,1 mil empresas.

De acordo com Wilsa Sette, coordenadora de varejo da moda do Sebrae Nacional, não há pesquisa sobre os locais onde os brechós estão crescendo mais. Mas ela observa que a expansão ocorre tanto nas capitais como no interior do pais.

“O crescimento dos brechós está muito associado a um novo comportamento de consumo, uma mudança de cultura da população, que segue uma tendência mundial pelo reaproveitamento de produtos, gerando um descarte menor, muito associado às questões ambientais. E essa tendência, de uma maneira geral, chega primeiramente nos grandes centros”, afirma Wilsa.

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Franz diz que a preocupação cada vez maior com a sustentabilidade deverá impulsionar o comércio de usados. Recentemente foi formado um grupo de donos de brechó de várias capitais do país para discutir os caminhos para esse tipo de comércio.

Para entrar e se dar bem neste negócio, diz Franz, não é tão simples como pode parecer.

É preciso gostar e entender a cultura da moda. O empreendedor precisa saber exatamente o valor e o quanto deve pagar e vender cada peça que tem na loja, de acordo com ele.

OS CLIENTES FAZEM A MODA EM SÃO PAULO

Franz costuma pagar 10% do valor da peça que vai vender e explica exatamente isso para o fornecedor. Se a camisa será vendida por R$ 60, ele paga R$ 6 por ela.

Isso porque ele tem de descontar os custos da lavagem e da higienização da roupa, dos empregados e da loja, os impostos e a pechincha dos clientes. O cliente de um brechó sempre quer um preço menor do que o que está na etiqueta.

“Se vendo uma camisa por R$ 60, vai acabar sobrando R$ 15 para a loja. Aqui não é bazar de caridade, é um negócio”, afirma.

Quem está no ramo de brechó também precisa estar atento às tendências, rodar as lojas, ler as revistas de moda. “Eu tenho algumas peças de grifes, como Louis Vuitton, Dior, mas meu foco não é a marca, é o estilo”. No Minha Avó Tinha há peças dos anos 40, 50, 60, 70, 80 e 90.

Prova de que está no caminho certo, diz, é que no final do ano passado um executivo da Louis Vuitton esteve no seu brechó em busca de peças até para inspirar a nova coleção da marca. “Devo tudo isso ao consumidor de São Paulo.”

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