São Paulo, 07 de Dezembro de 2016

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Food truck é limão para dono de restaurante. Mas pode virar limonada
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A comida sobre rodas pode ampliar o negócio ou funcionar como uma espécie de estandarte de restaurantes ou lanchonetes que querem se tornar mais conhecidos

A “comida de caminhão”, também conhecida no Brasil como food truck, trailer de comida ou comida de rua não é uma novidade, pelo menos nos Estados Unidos onde existe desde o século 19. Circulavam naquela época na forma de carroças (chuck wagon) que se deslocavam por grandes distâncias para atender os trabalhadores ocupados na construção de estradas, cidades e, mais tarde, de ferrovias.

O formato foi se desenvolvendo lentamente nas décadas seguintes, chegando à maturidade no século 20 com base no preparo e venda de pratos de comida mexicana, pizzas, hambúrgueres, etc. A forma mais conhecida do modelo original são os conhecidos carrinhos de cachorro quente e sanduíches, encontrados em quase todos os países do mundo. De pequeno porte, servem às pessoas sem tempo ou dinheiro para comer em restaurantes e lanchonetes. Têm as vantagens de caber em pequenos espaços, custos fixos muito baixos e vender alimento e bebidas a preços convidativos.

 Suas desvantagens, além dos casos isolados de má qualidade da comida, são o espaço restrito para comercializar alimentos variados e pouca higiene, já que normalmente a pessoa que prepara o alimento é a mesma que recebe e troca o dinheiro, não havendo local apropriado para lavar as mãos, dentre outras exigências de higiene.

O modelo de negócio atual é bastante reconhecido pelos consumidores, que testemunham os cozinheiros prepararem os seus pratos nos caminhões, em geral inspirados nas comidas regionais servidas em restaurantes, ou em lanchonetes locais conhecidas.

Os empreendedores que sabem cozinhar bem, mas que não possuem recursos para bancar os custos para montar restaurantes, aprenderam que com os seus caminhões-cozinha podem executar os seus cardápios para vendê-los deslocando-se de bairro em bairro ou de cidade em cidade, seguindo as agendas de eventos como feiras, shows, temporadas de férias ou em direção aos encontros organizados pelos próprios consumidores nas redes sociais.

COMIDA SOBRE RODAS NO BUTANTÃ, EM SÃO PAULO: FORJANDO MARCAS

O que tem acontecido bastante nos Estados Unidos e no Brasil também, é que a tradicional comida mexicana, os hambúrgueres, hotdogs, pizzas e saladas começam a dividir espaço com os pratos e sanduíches sofisticados, muitas vezes desenvolvidos por chefes reconhecidos, que buscam atrair novos públicos para os seus restaurantes.

O trailer de comida, assim, funciona como uma bandeira móvel do restaurante, oferecendo alimentos bem elaborados a um custo acessível pelas pessoas que ainda não podem frequentar as casas descoladas.

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É claro que a comida de caminhão também é bastante consumida por pessoas que podem pagar para frequentar os restaurantes, mas talvez sem aquele clima de festa, socialização e o sentimento de vantagem emocional característico das reuniões de amigos que se unem nas mídias sociais para compartilharem novas experiências de consumo. Com tudo isso, e além da economia de escala oferecida pelos food trucks, é de se imaginar qual é a vantagem do negócio para os donos dos restaurantes e grandes lanchonetes.

Além da possibilidade de ampliação e de fidelização dos novos padrões de comida pelos consumidores, o negócio do food truck abre uma nova janela de oportunidade para as marcas fornecedoras envolvidas na fabricação de molhos, temperos, bebidas, guardanapos, papel toalha, pratos e talheres descartáveis, dentre outros.

Não se deve esquecer também do próprio caminhão, o qual necessita de adaptações de cozinha, encanamento, reservatórios e outros equipamentos, além dos recursos necessários para a manutenção mecânica dos veículos. Os fabricantes de carrocerias e dos materiais envolvidos na conversão de trailers e outros veículos em food trucks também são beneficiados.

A RECEITA DA LIMONADA

É certo que o desenvolvimento do food truck no Brasil ainda é lento, e que também ele deve superar alguns obstáculos já bastante conhecidos pelos empreendedores, como a obtenção de licenças, a desconfiança das autoridades no que se refere a arrecadação de impostos e tantos outros desafios.

Os sinais, contudo, indicam que o negócio repetirá no Brasil o mesmo sucesso que faz nos Estados Unidos e em outros países, onde já se observam casos de redes de alimentos baseadas exclusivamente nesse modelo de negócio.

Portanto, vale a pena conhecer um pouco mais sobre o formato atual do fenômeno food truck. Uma boa e divertida dica é assistir ao bom filme “Chef”, estrelado por Jon Favreau, Robert Downey Jr. (que fez uma ponta, dando um velho caminhão a Favreau), Dustin Hoffman, Scarlett Johansson e Sofía Vergara.

Sem comprometer a sua expectativa, dá para contar que Favreau era o chefe de um restaurante sofisticado em Los Angeles de propriedade de Dustin Hoffman, mais preocupado com os lucros do restaurante do que com a inquietação de Favreau para evoluir com a arte de sua culinária.

Claro que o conflito de interesses resultou na demissão de Favreau, que acabou ganhando um caminhão e passou a fazer e vender comida pelas ruas, onde, além de ganhar a liberdade para criar, se reaproximou da família, fez novos amigos e recebeu o reconhecimento que sempre esperou pelo seu talento como chefe de cozinha. Uma história bastante inspiradora, inclusive porque ensina os passos para o sucesso na empreitada, além de dar dicas importantes sobre o uso das mídias sociais para promover o negócio.

Como em quase todos os tipos de negócios, alguns recursos de estratégia e de comunicação de marcas contam bastante para o sucesso, especialmente se o plano empreendedor incluir a expansão do número de caminhões para atendimento em vários pontos, ou mesmo que o food truck funcione como uma espécie de estandarte de um restaurante ou lanchonete que querem se tornar mais conhecidos.

O guia básico sobre criação e gestão de marcas pode ser conhecido no livro Grandes Marcas Grandes Negócios, oferecido gratuitamente. Além, é claro, da boa comida e do preço justo, não custa lembrar que a marca não é apenas o nome pintado no caminhão. Deve ser uma marca original, com um posicionamento bem claro, indicando e significando as diferenças que o caminhão tem em relação aos seus concorrentes.

É natural que com o tempo a reputação das virtudes de cada negócio seja suficiente para significar o negócio, mas até que isso aconteça é muito importante que a marca funcione a priori como um atestado de confiança e de satisfação. Para concluir, vale relembrar que nome de domínio de internet e marca que não são registrados não têm dono.



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