São Paulo, 25 de Julho de 2017

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“Demanda por comida vegetariana e vegana é maior do que a oferta”
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A afirmação é de Guilherme Carvalho, da Sociedade Vegetariana Brasileira. Ele acredita que há espaço para novas empresas que querem entrar nesse mercado

O designer Bruno Gobbi, de 34 anos, foi vegetariano por oito anos. Após um período em que voltou a comer carne, ele adotou a alimentação vegana – que restringe todos os alimentos provenientes de animais, como leite e ovos.

“Decidi ser vegano após assistir um documentário que mostrava como os homens subjugam os animais para alimentação, moda, pesquisa científica e diversão”, afirma Gobbi.

Ele não está sozinho. Diversos brasileiros são adeptos a essa forma de alimentação. Os motivos são diversos. Alguns são impulsionados pela causa animal e ambiental. Outros por questões religiosas ou relacionadas à saúde. Há também aqueles que simplesmente não apreciam o sabor.

De acordo com a pesquisa do Instituto Ibope realizada em 2012, 8% da população não come nenhum tipo de carne (ou seja, quase 16 milhões de brasileiros). 

Nesses últimos cinco anos, esse percentual pode ter aumentado. “Minha percepção é de que há mais pessoas vegetarianas hoje”, afirma Gobbi. “Os veganos ainda são um grupo mais restrito, mas vejo cada vez mais amigos e pessoas próximas adotando esses novos hábitos de alimentação.”

A impressão é similar a de Guilherme Carvalho, secretário executivo da Sociedade Vegetariana Brasileira (SVB). Ele acredita que os jovens são os principais responsáveis pelo crescimento do número de adeptos nos últimos anos.

“As pessoas mais novas têm hábitos menos arraigados e, por isso, estão dispostos a mudar seus padrões de alimentação”, diz Carvalho.

O fenômeno não é só brasileiro. No Reino Unido, de acordo com a Pesquisa Nacional de Alimentação e Nutrição, 1,2 milhão de ingleses adotam a dieta vegetariana ou vegana.

Nos Estados Unidos, a estimativa da Vegetarian Resource Group é que cerca de 7,5 milhões de americanos adultos não comem carne. A pesquisa ainda aponta que 13% evitam comer carne em metade de suas refeições.

MERCADO

Com a expectativa do aumento do número de adeptos nos próximos anos, não é de se espantar que o mercado de comidas veganas e vegetarianas também esteja em crescimento. 

Na Europa, 14% dos produtos lançados em 2015 eram veganos ou vegetarianos. No Brasil, ainda é difícil mensurar o tamanho do mercado.

A SVB, que certifica produtos veganos com um selo na embalagem, afirma que já há mais de 200 produtos cadastrados no Brasil e os pedidos para certificação continuam crescendo.

Mesmo assim faltam opções. Apesar de conseguir se alimentar bem em qualquer restaurante por quilo, Gobbi afirma que ainda é difícil encontrar restaurantes de comida vegetariana ou vegana em São Paulo.  

Estima-se que há cerca de 80 restaurantes vegetarianos e 20 veganos na cidade – de um total de 15 mil. Apesar do número baixo, São Paulo é um dos lugares que mais tem estabelecimentos desse tipo no Brasil.

Carvalho acredita que, hoje, a demanda ainda é maior que a oferta.

“Os empresários que investem em restaurantes ou em linhas de produtos veganos estão colhendo bons resultados”, afirma.

“Os consumidores têm poucas opções e, por isso, esses estabelecimentos costumam ter grande procura.”

Ele sabe do que está falando. Além de fazer parte da Sociedade Vegetariana Brasileira, Carvalho é um dos donos do Barão Natural, restaurante que vende pizzas e refeições veganas a preços acessíveis (a partir de R$ 9,90).   

Não são apenas os vegetarianos e veganos que frequentam esses estabelecimentos. Muitas pessoas que não são adeptas dessas dietas optam por fazer algumas refeições sem carne durante alguns dias da semana.

PRATO VEGETARIANO DO LIGHT CHEF: KIBE DE SOJA

MAIS OPÇÕES

As grandes redes também estão de olho nesse mercado. Diversas empresas estão adaptando seus cardápios para atender esse público.

É caso da rede de restaurantes América, que já tinha opções vegetarianas no cardápio e, agora, incluiu um lanche vegano.

Para os donos de restaurantes que querem vender opções vegetarianas e veganas, Carvalho garante que não há muitos custos extras.

“Não é necessário comprar novos equipamentos, basta higienizá-los corretamente e armazenar os produtos longe da carne”, afirma."

"A SVB presta consultoria gratuita para os empresários que desejam entrar nesse mercado"

Algumas empresas já nasceram com opções vegetarianas no menu.  Um exemplo é a Light Chef, empresa que vende comida congelada saudável sem o uso de conservantes.  

Desde 2014, ano de fundação da empresa, as opções vegetarianas fazem parte do cardápio, como a panqueca de palmito, o bobó Veggy e o Kibe 7 Grãos.

“Depois das refeições voltadas para emagrecimento, as opções vegetarianas são as mais vendidas”, afirma Felipe Dubau, sócio fundador da Light Chef.

Com ajuda das refeições vegetarianas, a empresa mais que triplicou o faturamento em 2016 –  passou de R$ 800 mil em 2015 para R$ 3 milhões no ano passado. A combinação de baixa oferta e alta demanda tem feito esse nicho de mercado permanecer imune aos efeitos da crise econômica. 

FOTO: Thinkstock