São Paulo, 05 de Dezembro de 2016

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Como as concessionárias reagem à queda nas vendas de automóveis
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Distribuidoras de veículos como a Sorana (foto) fecham lojas, oferecem descontos e esticam o prazo em até 24 meses sem juros para clientes dispostos a pagar 50% de entrada

Vender 700 carros novos por mês ou 8.500 unidades por ano, como aconteceu em 2007, é um sonho que parece quase impossível de se realizar para a Sorana, uma das mais tradicionais distribuidoras de veículos da marca Volkswagen.

Com quase 50 anos no mercado, a concessionária exibe neste ano números bem mais modestos. As vendas estão agora na faixa de 252 unidades mensais.

Se esse número se mantiver nos próximos meses, a loja terá comercializado até dezembro cerca de 3.000 veículos novos -pouco mais de um terço em relação a 2007.

CHODIN, DA SORANA: TIRANDO LEITE DE AÇO

“Estamos tirando leite de aço”, afirma Orlando Chodin Neto, gerente comercial da loja localizada na avenida Braz Leme, na zona norte paulistana.

Com isso, ele quer dizer que não está fácil nem vender as duas centenas de carros por mês. Esse volume representa 7% mais do que o registrado, em média, no ano passado.

Esse crescimento ocorreu, diz Chodin Neto, devido a um forte esforço de vendas e, principalmente, à prática de descontos, de 3% a 12%, dependendo do veículo.

A retração no mercado fez a empresa, que pertence à família Viscardi, fechar duas de suas três revendas, e ampliar de uma para três as lojas que comercializam veículos Audi. O grupo também possui uma concessionária da marca Toyota.

“Procuramos diversificar a oferta de carros e marcas, ser mais eficientes e entender exatamente qual a necessidade do cliente. Qualquer detalhe que ele queira no carro, procuramos atender”, diz.

Clientes dispostos a pagar 50% de entrada na compra de um Golf podem financiar o restante do valor em até 24 meses, sem juros. A promoção também vale para os modelos  UP, Amarok e Voyage.

O caso da Sorana é o retrato do que se observa em boa parte das distribuidoras de veículos de São Paulo e, provavelmente, do país.

A falta de confiança na economia e o aumento das taxas de juros são fatores que levaram o consumidor a restringir as compras de bens, como imóveis, carros, eletroeletrônicos e até de alimentos.

Tudo isso começou logo após um período em que o número de marcas e de concessionárias de veículos se multiplicou no país. São pouco mais de 40 marcas entre nacionais e importadas e, aproximadamente, 8.500 modelos.

A Toyota, por exemplo, que somente produzia modelos de luxo, lançou o Etios, preparando-se para ampliar as vendas de veículos com preços mais acessíveis, na faixa de R$ 40 mil a R$ 50 mil.

A JAC Motors, que entrou no país, em 2011 com forte apoio do apresentador Faustão e um investimento de R$ 80 milhões em ações de merchandising na TV, projetava que, neste ano, o mercado automobilístico estaria no patamar de 5 milhões de unidades.

No primeiro mês de estreia da marca no Brasil, em abril de 2011, a marca chinesa comercializou 3 mil veículos, com apenas dois modelos.

Hoje são apenas 500 carros a cada mês. A expectativa do setor automobilístico é que o mercado nacional comercialize 2,8 milhões de unidades ante 3,5 milhões de unidades no ano passado.

Em 2012, o grupo SHC, do empresário Sérgio Habib, que trouxe a JAC para o Brasil, chegou a ter nove revendas da marca. São atualmente cinco. As revendas que fecharam estavam localizadas nas avenidas Braz Leme, Sumaré, Bandeirantes e na Vila Guilherme.

Nas avenidas Braz Leme e Sumaré também fecharam as portas (ou mudaram de lugar), no último ano, concessionárias da Kia, Land Rover e Citroen, de acordo com vendedores que há anos trabalham nessas regiões.

 “O corte de custos passa por redução de verba de marketing, demissões e fechamento de concessionárias”, afirma Eduardo Pincigher, diretor de Assuntos Corporativos da JAC Motors.

LEIA MAIS: Crise no setor automobilístico já fechou 250 concessionárias 

No primeiro semestre dese ano, 250 concessionárias fecharam as portas no país, segundo levantamento da Federação Nacional dos Fabricantes de Veículos Automotores (Fenabrave), resultando na demissão de aproximadamente 12 mil funcionários. Esse número de 250 concessionárias é o saldo entre as que abriram e as que fecharam.

A estimativa da federação é que a situação vai piorar. Até o final do ano, 10% das 8.000 concessionárias existentes no país deverão fechar as portas, provocando a demissão de até 40 mil pessoas. Estima-se que o Estado de São Paulo representa de 35% a 40% desses números.

Há um ano, a Sorana, por exemplo, chegou a empregarr 420 funcionários entre o pessoal da oficina e de vendas. Foram reduzidos para 370 e a expectativa é que esse número diminua ainda mais.

LOJA DA REDE RENAULT, EM SÃO PAULO

Na avenida Braz Leme, ao lado da Sorana, a revenda Renault, que pertence ao grupo Grand Brasil, é outra concessionária que sente fortemente a insegurança do consumidor  na hora de fechar o negócio.

De janeiro a maio deste ano, as sete lojas do grupo venderam, em média, 400 veículos por mês, algo entre 15% e 20% menos do que em igual período de 2014.

O desempenho em junho foi ainda mais fraco, com a comercialização de 300 veículos. Nos bons tempos, esse número chegava fácil a 600 unidades mensais.

No primeiro semestre deste ano, os emplacamentos de automóveis caíram 23% na comparação com igual período do ano passado. Considerando só o mês de junho, a queda foi de 25%, segundo levantamento da Fenabrave. A federação projeta uma queda de 20% nas vendas de carros neste ano em relação a 2014.  

“A instabilidade da economia gera insegurança nos clientes. Isso está ocorrendo em todos os setores, não apenas no nosso”, afirma Ricardo Viana, gerente-geral do grupo Grand Brasil. "A falta de confiança reflete diretamente no mercado", diz Alarico Assumpção Jr., presidente da Fenabrave.

O mercado de carros usados, segundo Viana, é que está mantendo o comércio de veículos um pouco mais ativo. A Grand Brasil tem vendido cerca de 180 a 200 veículos usados por mês, um volume até um pouco maior do que o de igual período do ano passado.

O consumidor prefere trocar o carro usado por outro usado mais novo porque o dinheiro que necessita desembolsar na troca é menor do que se optar por um zero quilômetro. Até pouco tempo atrás recente, a proporção entre veículos zero quilômetro e usados era de sete para dois, respectivamente. Hoje, dizem os vendedores, é de sete para quatro.

Assim como a Sorana e outras concessionárias, a Grand Brasil tem procurado atrair o cliente com descontos, IPVA do ano e emplacamento pagos pela loja. “Estamos também bem enxutos para manter a operação.”

Quem costuma trafegar pela avenida Sumaré vai notar que a revendedora Fiat, que pertence ao grupo Amazonas, encolheu. Foi a opção escolhida pela empresa até inaugurar, na mesma avenida, uma sede própria, que ainda está em construção.

Com nove revendas Fiat, o grupo Amazonas comercializava entre 700 e 800 veículos novos da marca por mês. O número caiu para 600 unidades mensais.

Com 20 anos no setor, Cleber Bocchi, gerente da revenda Fiat, instalada na avenida Sumaré, diz que a crise que o setor vive neste ano é a pior que ele já viu. “Esta loja chegou a vender até 300 carros por mês em 2007 e 2008. Esse número caiu para 80 unidades.” No caso de alguns modelos, diz ele, o consumidor consegue bônus, isto é, um preço mais reduzido do carro, mas quem determina a promoção é a montadora.

NA CONTRAMÃO 

Com números tão negativos das lojas de automóveis, dá para imaginar que, em algumas concessionárias, existe até fila de espera para comprar um carro?

Isso está ocorrendo com alguns modelos de carros da Honda, como o HR-V, lançado em março, que custa a partir de R$ 76,6 mil. As versões básicas dos modelos Fit e City também estão em falta.

MODELO HR-V, DA HONDA: SEM CRISE

“A procura pelo HR-V superou a expectativa de venda da fábrica. Isso é reflexo de um trabalho de anos que preza a qualidade do veículo e, principalmente, o bom serviço pós-venda. Não adianta vender o carro e, depois, esquecer do cliente”, afirma Maurício Santoro, consultor de negócios da concessionária Honda, localizada na avenida Sumaré.

Cerca de 300 clientes, diz ele, estão à espera do HR-V. Desde abril, a fábrica da Honda, localizada em Sumaré, interior de São Paulo, está operando com três turnos para dar conta da demanda. Uma nova unidade, na cidade de Itirapina, perto de São Carlos (SP), tem previsão de iniciar a operação em janeiro de 2016, segundo Santoro.

A mesma situação pode ser observada na concessionária da Jeep, inaugurada há um mês, na avenida Sumaré. Lançado em abril, o modelo Renegade, que custa a partir de R$ 69.900, está em falta.

A fábrica da Jeep, localizada em Goiana, Pernambuco, preparada para produzir 5 mil unidades mensais, não está dando conta de abastecer as 130 concessionárias da marca instaladas no país.

Os clientes interessados no Rengade vão ter de esperar até 90 dias para ter o carro, segundo Emerson T. Bejo, gerente de vendas da concessionária Jeep, na avenida Sumaré, que pertence ao grupo DAHRUJ.

Na avaliação de Bejo, não existe crise para veículos que custam de R$ 70 mil a R$ 150 mil. “O consumidor que compra carro nesta faixa de preços quer lançamentos, por isso há filas de espera no caso de alguns modelos”, diz. A DAHRU possui cerca de 20 concessionárias em São Paulo e trabalha, além da Jeep, com as marcas Fiat, Ford, Honda e Pegeout.

ANDELMI, DA REDE FORD: "CLIENTE QUER NOVIDADE"

Gilson Andelmi, gerente de vendas da concessionária Ford (grupo Amazonas), na avenida Sumaré, tem a mesma opinião. “Vendemos seis carros novos no domingo, cinco no sábado e cinco carros nesta segunda-feira (29) porque são lançamentos”, afirma Andelmi. Os carros comercializados foram os da linha Ka, Fusion e Focus.

De janeiro até agora, porém, as vendas estão 25% menores do que as de igual período de 2014. Como a Ford renovou quase toda a linha, os clientes que adquiriram o modelo Focus nos últimos dois anos poderão comprar a versão 2016 com 15% de desconto.

Se o cliente resolver comprar um carro neste momento, de acordo com vendedores entrevistados pelo Diário do Comércio, precisa fazer conta. Trocar um veículo usado por outro usado mais novo pode ser mais barato. Mas é bom também prestar a atenção porque, se o  tiver como pagar 50% do valor do veículo, conseguirá parcelar o restante em até 24 meses sem juros, segundo as concessionárias. É preciso conferir.

 



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