Com A Novelaria, o tricô voltou a ser fashion


Ao abrir uma loja descolada em São Paulo, Lica Isak (à esq. na foto) recuperou a imagem dos trabalhos manuais e ainda reaqueceu o segmento de fios e acessórios


  Por Inês Godinho 25 de Janeiro de 2017 às 13:25

  | Jornalista especialista em sustentabilidade e gestão, a editora atuou no Estadão, na Editora Abril e na Folha de S. Paulo


Lica Isak, ex-produtora de fotografia e cinema, sabia o risco que corria como empresária quando resolveu apostar na ressurreição do tricô feito à mão. 

Até seis anos atrás, a técnica era quase uma reminiscência em São Paulo. Quem gostava de fazer, precisava garimpar materiais e levava o hobby como uma atividade solitária. Raramente, era alguém com menos de 50 anos. 

A difusão da malharia industrial nas últimas décadas passou como um tornado sobre os armarinhos e fábricas de fios. Além de ter quebrado a transmissão das técnicas de trabalhos manuais entre as gerações, os novos tempos passaram a ver o tricô como demodée. 

MODELAGEM MODERNA

Como uma produtora experiente, Lica Isak previu que o tricô precisava de um banho de estilo para atrair uma nova geração de fãs. 
Resolveu apostar em um modelo comercial sem igual na cidade - um misto de armarinho especializado em materiais importados, espaço de curso, um café e decoração descolada. Era forte a percepção de que a capital estava pedindo um lugar. 

AULA DE TRICÔ

Aberta em 2011 no bairro da Vila Madalena, berço de ideias criativas na capital paulistana, A Novelaria conheceu o sucesso desde o início. Mesmo com a chegada da crise, em 2014, a empresa não ficou nem um ano no vermelho.

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“Tivemos em 2016 nosso melhor ano”, disse Lica. “Sempre senti que, em tempos de crise econômica, as pessoas procuram por esse tipo de compensação. Elas se permitem um investimento em si mesmas para escapar do clima ruim e das finanças em baixa. O tricô traz esse reconforto.”

FENÔMENO ECONÔMICO

O alcance da loja, no entanto, ultrapassou o pequeno espaço na Vila Madalena e o objetivo inicial de criar um ponto de encontro para os fãs das agulhas. Primeiro, o lugar se tornou uma escola para microempreendedores interessados em comercializar a produção – 30% dos alunos fazem os cursos para se capacitar e revender as peças.

A segunda surpresa aconteceu em relação ao mercado. A pegada vintage da loja, com móveis reciclados, atmosfera de sala de visita e hiper colorida, e a releitura moderninha das criações reverberaram sobre os fabricantes nacionais, as lojas tradicionais que sobreviveram e a própria imagem do tricô. 

Empresas como a Pingouin, do Grupo Paramount, e a Círculo começaram a modernizar a comunicação pensando no consumidor final. As lojas concorrentes aumentaram as vendas de lãs e materiais. O tricô virou queridinho nas redes sociais e entre as blogueiras. Surgiram inúmeros clubes de tricô (inclusive masculino) e A Novelaria ganhou status de atração turística paulistana e local de eventos.

PRODUTOS EXCLUSIVOS

A loja e a técnica se tornaram tão cult que a fundadora passou a ser procurada pelos fabricantes para abrir espaço de revenda e desenvolver projetos conjuntos. Propostas por enquanto recusadas para manter o modelo inicial. Os fios em formatos e cores alinhados à moda vêm da Argentina e Uruguai. As agulhas são importadas da Índia. 

MODELO DE NEGÓCIO

Tudo começou quando Lica Izak tinha encerrado um negócio e estava para montar outro. Recebeu o convite de uma conhecida para abrir um armarinho com uma roupagem atualizada. O investimento seria de R$ 250 mil. 

PARA TODAS AS GERAÇÕES

Vinda de uma longa trajetória em produção, inclusive como dona de uma agência de elenco, com três filhos, Lica estava cansada da intensidade da profissão. Como gostava muito de decoração, criou uma loja em que vendia de tudo - objetos, luminárias, vestidos, peças de produção manual, desde que passasse pelo crivo do seu gosto pessoal. O que se chama curadoria.
 
A loja durou dois anos “Fechei porque não tinha dinheiro para renovar o estoque”, ela conta. Coisas de empreendedor iniciante. 

A ideia evoluiu para uma galeria de fotografia, outra paixão. Ela começava a dar forma ao projeto quando recebeu a proposta de sociedade. Em contrapartida ao capital financeiro, ela entraria com seu capital de conhecimento, bom gosto e network.

“Dessa vez, quis fazer uma coisa bem pensada e que não existisse ainda em São Paulo”, explica. “Passamos um ano pesquisando, até que descobri a febre dos knit café nos Estados Unidos, Japão e Canadá.”

São pequenos comércios que oferecem a venda de materiais para tricô (knit, em inglês) e um serviço de café. Caíram no gosto dos jovens, assim como o tricô. Funcionam como ponto de encontro para tricotar e conversar.

A ideia das sócias era fazer algo bem mais amplo. Foi difícil, pois não havia comércio semelhante em que se basear. 

Com o plano de negócios na mão, encontraram um imóvel vazio em uma rua movimentada da Vila Madalena. De um lugar tosco, o antigo sambão ganhou aparência chique e descolada, graças às táticas decorativas de baixo custo e alto impacto adotadas pela empreendedora.

Ao mesmo tempo, as então sócias viajaram para o Sul do continente para conhecer produtores de lãs e acertar o fornecimento de fios. Com alguns, conseguiram estabelecer a produção de materiais exclusivos para a loja.

Na concepção inicial, a venda de materiais e o café seriam o ponto forte. Os cursos começaram devagar. Surpresa! Eles chamaram a atenção, impulsionaram o movimento da loja e a tiraram do lugar comum. 

“Hoje, as vendas atraem para os cursos e os cursos estimulam as vendas. Com isso, ganhamos um fluxo de recursos que trouxe mais rentabilidade e equilíbrio às contas.” 

Das 25 alunas no primeiro ano, A Novelaria recebe hoje uma média de 200, que frequentam o lugar com assiduidade. E um número grande que faz aulas avulsas. A movimentação aumenta com os encontros marcados no café. Até reuniões de trabalho são feitas no lugar, para aproveitar o clima acolhedor das várias saletas com estofados.

Não se trata de um fenômeno localizado da tribo da Vila Madalena. Tem gente de todas as idades, de toda a capital e até turistas reservam aulas. “Somos um espaço democrático”, comemora a criadora. 

PEDRAS NO CAMINHO

A sociedade, no entanto, não fluiu pacificamente. Durante quatro anos, a preocupação com o capital empatado impediu que se aproveitasse o sucesso da loja para acelerar a expansão. 

“Eu queria crescer, via um horizonte, mas tínhamos visões diferentes sobre o significado do negócio”, disse Lica. 
A solução veio com a troca de investidora. Com experiência em gestão financeira, a nova sócia Aída Fonseca (à direita na foto principal) abriu espaço para a empreendedora aplicar as inovações que queria no negócio. “A clientes querem novidades sempre.” 

Depois de aprender a aproveitar as vantagens de importação do Mercosul, Lica ampliou as compras de lã para o Peru e pesquisa outros países andinos com tradição no produto. Também criou novos cursos, como os de bordado, feltrargem e macramê.
 
“Demos um salto de 100% de crescimento em 216 e tivemos lucro pela primeira vez. Não dá para se acomodar nos negócios.”

Com a transição, ela sentiu necessidade fortalecer a gestão e trabalhou com uma consultoria para identificar os gargalhos. “Cometemos erros, como contratar mais funcionários do que precisávamos e descuidar da burocracia.” 

Por causa de uma licença mal orientada, precisou abrir mão de uma das sacadas da loja, o café comandado por um chef. “Não temos mais os bolos e pães feitos na hora”, lamenta. Agora, as guloseimas são trazidas de fora e aquecidas na hora.

Entre as medidas administrativas que fizeram diferença, está a contratação de uma profissional para cuidar do financeiro. Ela também aumentou a comissão da equipe e teve como resultado a queda drástica de rotatividade. “Melhorei a comissão e meu faturamento dobrou." Atualmente, quatro pessoas na loja. 

Outras providências importantes foram a troca do sistema de gestão de vendas e a realização do primeiro inventário do estoque, medidas que deixaram mais simples o fechamento do balanço. Para as decisões mais importantes, ela conta com a sócia. 

A ampliação dos negócios, segundo Lica, não passa pela reprodução do modelo em filiais ou franquia. “Não seria viável”, ela considera. A grande aposta está sendo dirigida ao ecommerce. Depois de muita experimentação e testes, o projeto entrou no ar em agosto de 2016, dentro do site da loja.

Para Lica Isak, A Novelaria deixa uma boa lição para os empreendedores. “Antes de sofrer com a preocupação de devolver o capital, primeiro precisa fazer o negócio dar certo.”  

Imagens: Divulgação