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Coleção de inverno chega às lojas. Cadê os clientes?


No Bom Retiro, um dos maiores polos de confecção do país, as vendas esboçam alguma reação. A expectativa é que a queda de inflação e juros, dinheiro do FGTS e frio possam ajudar os comerciantes a vender mais do que em 2016


  Por Fátima Fernandes 03 de Abril de 2017 às 08:00

  | Editora ffernandes@dcomercio.com.br


Março de 2016: Inflação anual próxima de 10% (IPCA), taxa de juros anual (Selic) em 14,25% e o país no auge da maior crise econômica e política da história.

No bairro do Bom Retiro, onde se situa um dos maiores polos de confecções do país, havia 149 lojas fechadas -17 delas na Rua José Paulino e 18 na Rua Silva Pinto.

Em pleno lançamento da coleção outono-inverno, as lojas, às moscas, servem fondue, sucos, doces para atrair os raros clientes que circulavam pelo bairro.

O assunto recorrerente nas rodas de comerciantes é corte de custos, enxugamento de modelos e da produção. O clima proporcionava uma ideia do tamanho da recessão que o país enfrentava. Para eles, o ano seria perdido. E foi. Em 2016, o volume de vendas do varejo de vestuário caiu 10,9%, de acordo com o IBGE.

Março de 2017: inflação anual bem inferior, perto de 4,73% (IPCA-15), taxa de juros anual (Selic), em 12,25%, com perspectivas de queda, e nova equipe econômica.

No mesmo bairro, há agora 137 lojas fechadas (12 a menos do que no ano passado) -12 na Rua José Paulino e 13 na Silva Pinto, de acordo com a Câmara de Dirigentes Lojistas (CDL) do Bom Retiro.

A coleção outono-inverno começa a chegar às vitrines e o que se constata é um pouco mais de otimismo entre os lojistas.

Para eles, a pior fase da crise já passou. Afirmam ter feito os ajustes necessários para adequar a produção à demanda. Houve uma pequena reação nas vendas e que indicadores levam a crer que o comércio de vestuário deve melhorar em 2017.  

São eles: inflação e juros em queda, redução da proporção de famílias endividadas, volta do emprego na indústria e saque de contas inativas do FGTS, principalmente.

A meteorologia também deve dar uma forcinha para o setor. A previsão é que a partir da segunda quinzena de maio e, durante o mês de junho, o frio seja intenso na região Sudeste.

“Os lojistas estão sem estoques e mais confiantes, e este inverno promete ser rigoroso. Por isso, eles estão voltando a comprar, mas com muita cautela”, afirma Cristiana Viegas (na foto que abre esta reportagem), gerente da Kitson, loja de atacado de roupas femininas localizada na Rua Aimorés.

Com cerca de 4 mil clientes espalhados pelo país, a Kitson registrou crescimento de 60% nas vendas em março ante igual período do ano passado. Mas, decidiu agir como os clientes, com cautela.

Vai produzir para o inverno o mesmo volume de peças do passado e não irá reajustar preços. As roupas da marca custam de R$ 90 a R$ 200 para os lojistas.

Na Forwhy, loja de atacado de roupas femininas que fica na Rua Cesare Lombroso, as vendas também reagiram neste mês. Com 700 clientes, a Forwhy, que trabalha com peças importadas, vendeu R$ 50 mil a mais do que costuma faturar no mês, de acordo com Charlene Alvarenga, gerente.

“É um pequeno crescimento, pois o lojista continua ainda muito cauteloso”, diz Charlene. Para essa estação, a expectativa da loja é vender 30% mais do que em igual período do ano passado. O preço médio dos produtos da Forwhy é de R$ 35, valor inferior ao do ano passado.

“O movimento no atacado, que estava numa situação horrível, está agora melhor do que no ano passado”, afirma Natália Reis, gerente para a área de atacado da Confecções Group K.

A incerteza em relação ao comportamento dos lojistas, diz ela, levou a empresa, porém, a reduzir em 20% o volume de peças importadas para o inverno.

Aumentar as vendas em 30%, 60% ou 100% em relação ao ano passado, não quer dizer muita coisa hoje, de acordo com Ronald Masijah, presidente do Sindivestuário, sindicato que reúne as confecções no Estado de São Paulo.

De acordo com Masijah, 2017 começou melhor do que 2016 para o setor de confecções, mas ainda é cedo para fazer previsão mais otimista para o inverno e para o restante do ano. A crise, de acordo com ele, acabou com o cronograma de entrada de coleções nas lojas.

 “Aquela euforia dos lojistas para ver e comprar as novidades nas vitrines não existe mais. O país quebrou. Todo mundo está com medo de gastar, mesmo quem está empregado” diz.

INTERIOR DE LOJA NO BOM RETIRO

Pesquisa ACSP/Ipsosrevela exatamente esse quadro: 56% dos consumidores estão inseguros no emprego. E a proporção de brasileiros que não pretendem comprar eletrodomésticos, carros e casas nos próximos seis meses cresceu de 60% em fevereiro para 66% em março.

As lojas vazias em pleno lançamento de coleção também refleteM o fato de que os lojistas costumam deixar para a última hora as compras de roupas para o inverno e que também podem estar fazendo pedidos pela internet.

Se vem o frio, eles correm para a indústria para se abastecer, o que já é uma tradição. É uma forma de evitar os estoques de peças mais caras.

As baixas temperaturas de julho no ano passado pegaram os lojistas de surpresa. Quem tinha estoque de casacos e peças para o inverno acabou reforçando um pouco mais o caixa.

A situação não deve ser diferente neste ano, na avaliação de Marcelo Prado, diretor do Iemi, consultoria que monitora o setor de confecção.

Depois de dois anos de crise,  as lojas e as confecções estão descapitalizadas, vulneráveis financeiramente, com dificuldade para obter crédito, relata Prado.

Em dois anos, 2,1 mil confecções não conseguiram pagar a taxa obrigatória para o Sindivestuário - ou porque fecharam as portas ou por má situação financeira.

“As perspectivas são melhores do que as do ano passado", diz. "Mas, neste momento, as lojas vão comprar o mínimo necessário, só para colocar algo novo nas vitrines e misturar com as peças velhas. Se vender, se esfriar, os lojistas vão comprar."

PIOR MOMENTO 

 O varejo de vestuário passou por um dos momentos mais difíceis da sua história. Em dois anos, a receita real do setor caiu aproximadamente 20%. Isto é, a loja que costumava faturar R$ 100 mil por mês, passou a faturar R$ 80 mil.

“A crise pode estar mais amena neste início de ano, mas persiste”, afirma Fábio Bentes, economista da Confederação Nacional do Comércio (CNC). Dois indicadores, diz ele, revelam que a demanda por vestuário, se teve alguma reação, foi muito pequena: preços e emprego do setor.

 De janeiro deste ano até 15 de março, os preços das roupas caíram 0,51% de acordo com IPCA -15, do IBGE. No acumulado de março de 2016 a fevereiro deste ano, o setor fechou 42,4 mil postos de trabalho.

Quando as vendas fluem, os preços e o emprego tendem a subir, diz ele. De março de 2013 a fevereiro de 2014, por exemplo, foram abertos 27 mil postos de trabalho no varejo de vestuário. No mesmo período, os preços do vestuário subiram 0,10%.

NOVIDADE

As lojas que registram alguma melhora no movimento de vendas neste ano são aquelas que estão trazendo alguma novidade para o lojista ou para o consumidor ou algum investimento em marketing, de acordo com Masijah.

“Eu mesmo estou lançando uma coleção atrás da outra para vender”, afirma o empresário, dono da Darling, uma das mais tradicionais fabricantes de lingeries do país.

LOJISTAS MISTURAM PEÇAS NOVAS COM  ANTIGAS PARA ESTIMULAR AS VENDAS

SuaDarlingcostumava lançar seis coleções por ano, divididas em dois semestres. O primeiro trimestre ainda nem acabou e a empresa já está lançando a quinta coleção.

Com duas lojas em Brasília, a comerciante Carla Vasconcelos sabe bem disso. Na última terça-feira, ela estava no Bom Retiro para adquirir peças novas para misturar com as antigas.

“Os clientes sempre querem ver algo novo, com ou sem crise. Os lojistas estão vindo para adquirir algumas dessas peças”, afirma Fabiana Fabri, gerente da Vitral, loja de atacado na Rua Cesare Lombroso.

A expectativa da Vitral hoje é melhor do que a do ano passado, com projeção de aumento de vendas de 30% em relação a 2016.

Além de ter a preocupação de sempre colocar algo novo na vitrine, os lojistas estão recorrendo cada vez mais às redes sociais (Facebook, Instagram) para divulgar as coleções.

A Loony envia diariamente fotos e informações sobre os produtos para cerca de mil clientes espalhados pelo país. Neste ano, a empresa produziu ainda 50 mil catálogos para distribuir para a clientela.

“As vendas ainda estão calmas, mas a expectativa é de crescimento, especialmente quando começar a esfriar”, diz Nelson Tranquez, sócio-proprietário da Loony, especializada em jeans, e presidente da CDL do Bom Retiro.

Até que o frio chegue, as lojas renovam as vitrines, dão prazo de pagamento, contratam DJs para criar ambiente de festa.

Mas o fato é que a coleção de inverno nem bem foi para as prateleiras e já há loja fazendo promoção de peças de frio, algo que não se vê quando a economia vai bem.

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FOTOS: Fátima Fernandes/ Diário do Comércio