São Paulo, 07 de Dezembro de 2016

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Cabeça de artista, talento de vendedora
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Objetos de desejo, os azulejos estampados de Carine Canavessi abrem caminho para uma empreendedora disposta a criar mercado

Formada em arquitetura, a paulistana Carine Canavessi trabalhou em agência de publicidade, morou no exterior e teve um estúdio de design gráfico. Esta trajetória comum na vida dos profissionais criativos se completou quando ela identificou um gap no mercado de construção, a produção de azulejos com a pegada de design, para ser aplicado em qualquer área da casa. 

 “Um cliente do meu estúdio pediu uma das estampas que pesquisei para aplicar em azulejos”, disse a designer. “Ele não achava um revestimento que tivesse uma cara contemporânea e resolveu encomendar. Percebi que muita gente queria isso também.” Por ser uma produção em pequena escala, o material não desperta interesse das grandes empresas de revestimento. 

Em 2010, enquanto pesquisava técnicas para imprimir os desenhos que criava em azulejos, Carine fundou a Pavão Revestimentos. Escolheu a técnica de decalque, produzido sob encomenda em empresas especializadas (sim, há um segmento de fabricantes de decalques). Aplicado sobre a base de cerâmica lisa, o desenho se funde com o esmalte quando levado ao forno de alta temperatura. 

Vendeu fácil para os conhecidos a pequena produção. As estampas já tinham o visual descolado que se tornou uma característica da marca, com muito grafismo, cores fortes, efeitos psicodélicos, sempre em azulejos 15x15, comprados pronto, formando um porfólio de uma centena de modelos. Atualmente, faz sucesso a linha inspirada em tatuagens, recebidas com status de peça de arte. São vendidos em caixas com 50 peças que chegam a custar R$ 600. 

HORA DA DECISÃO

Instalada em uma oficina no bairro de Santa Cecília, em São Paulo, ela viu o espaço ficar apertado e enfrentou o momento crucial para muitos empreendedores. “Naquela hora, tive de tomar a decisão de montar uma indústria de verdade.” Aproveitou a proximidade de um fornecedor de decalque em Pedreira (cidade perto de Campinas conhecida pela produção de louças) para sair de São Paulo. 

Escolheu a vizinha Jaguariúna para instalar a fábrica e se mudou de vez com as filhas. “Fiz a escolha certa. Diminuí as despesas, ganhei uma vida melhor, minhas filhas estudam perto, tudo ficou mais simples.” Perfeito para uma empreendedora enfrentando as agruras iniciais de um negócio. Foram R$ 400 mil investidos na fábrica de 1000 m² e nos equipamentos para produzir os azulejos decorados.

A capacidade de produção passou de 800m² para 2.000m² por mês. Com a ampliação, a marca ganhou em escala e preço. Pelos planos de Carine, a meta é faturar R$ 4 milhões por ano. “Por enquanto, o negócio se paga”, ela avalia. 

NO CORPO A CORPO

Em um estande mínimo do espaço Novos Talentos, área da recente feira Gift Fair para artesãos, designers e pequenos empresários, as peças coloridas da Pavão Revestimentos se destacavam no mostruário, enquanto Carine fazia a estreia no circuito de eventos especializados.

Passar quatro dias inteiros trancada em um pavilhão de exposições, à espera de interessados e compradores, pode ser desconfortável para novos empreendedores. Mas nada que se compare a um dos pontos críticos da empreitada – a prospecção inicial – enfrentada com raça pela empresária. 

Carine conta como criou coragem e se organizou para formar a cartela de clientes: “Montei uma planilha e anotei as revendas que tinham perfil para trabalhar com meu produto. Descobria os dados dos gerentes na internet, mandava um email e ligava em seguida.

Tudo era anotado em relatórios - como tinha sido a conversa, o combinado. Depois, montei caixinhas com jogos de azulejos e saí batendo de porta em porta. Ligava para as lojas de São Paulo que me interessavam e propunha uma conversa. Foi mais de uma centena de contatos.” 

Em um deles, uma conhecida butique de revestimento de São Paulo, enquanto a dona explicava para Carine porque não venderia os azulejos da Pavão, um arquiteto viu a caixinha de mostruário em cima do balcão, se encantou e encomendou um lote grande. Bingo! Nasceu uma parceria forte.

Como resultado deste esforço, os produtos da Pavão são distribuídos hoje para 110 revendas com perfil de butiques de revestimento e cobrem todo o país. A prospecção teve o reforço de divulgação para a imprensa e logo Carine é que passou a ser procurada pelos lojistas.

Ela só aceita a parceria comercial quando não interfere no acordo de exclusividade que estabeleceu com os primeiros contatos. “Trabalhar com revenda é tudo na vida e procuro dar este diferencial para elas”, explica. “Não vendo para o consumidor final, é muito complicado.” 

SOMENTE MULHERES

Na fábrica, tomou uma decisão radical. Só contrata mulheres. São 15 na produção e três no administrativo/financeiro. “É um trabalho artesanal. A aplicação de decalque exige delicadeza e, ao mesmo tempo, força física para carregar peso, dirigir empilhadeira, cuidar da expedição. Optei pela maior dedicação das mulheres, em especial as que são arrimo de família.”

Foi também uma forma de contornar a rotatividade de mão-de-obra. Além dos benefícios, como plano de saúde para os filhos, e cursos de aperfeiçoamento, ela criou um sistema próprio de plano de carreira.

Todo mundo entra como decalqueira e quando a empresária percebe um talento especial, promove para um cargo administrativo. Foi assim com três funcionárias, hoje responsáveis pela área financeira, pelo administrativo e pelas vendas.  

 Os planos agora incluem diversificar e exportar, tanto como estratégia para o futuro como para enfrentar a recessão que se abateu sobre o mercado de revestimentos este ano. Carine iniciou a experiência internacional com quatro lojas no Chile, mas ainda não superou a perplexidade que toma conta dos empreendedores brasileiros diante do cipoal burocrático da área. 

A diversificação inclui o desenvolvimento de produtos de menor custo para trazer um giro rápido de receita, com venda no site da empresa. Entre as novidades estão a aplicação de azulejos em peças de pequeno porte, como bandejas e banquetas, o desenvolvimento de uma linha de revestimento para piso e um kit para compor uma “faixinha” sobre a pia. “Não curto”, ela confessa, “mas é uma maneira de satisfazer o desejo de ter o azulejo estampado a um custo acessível.”    

A versatilidade dos azulejos da Pavão, usados para decorar cabeceira de cama, painéis, fachadas de casas e lojas, caíram nas graças de arquitetos e escritórios, reforçado pelo da customização. Agora, Carine aposta na força de um objeto de desejo para fortalecer sua empresa, um antídoto contra o baixo astral que paira sobre o país. 



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