São Paulo, 29 de Setembro de 2016

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Aumento do IOF: mais um golpe no varejo
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Elevação do imposto encarece o crédito e deve reduzir o consumo. Com mais essa novidade, 2015 vai ser ainda mais difícil para o varejo

O aumento da alíquota do IOF (Imposto sobre Operações Financeiras) de 1,5% para 3% não agradou em nada o varejo. O segmento, que no último ano viu suas vendas desacelerarem consideravelmente, seguirá ainda mais fragilizado. Por tabela, a medida ainda deve causar impacto na inadimplência, que embora esteja em um patamar seguro, já aparecia com viés de alta nas projeções para este ano. 

O IOF deixa o crédito mais caro para o consumidor – isso, em um momento em que a procura por financiamentos vem diminuindo. Segundo levantamento da Boa Vista-SCPC (Serviço Central de Proteção ao Crédito), a demanda por crédito recuou 6,7% em 2014, em comparação ao ano anterior. Para 2015, a perspectiva é de nova queda, de 5%, sobre o resultado negativo do ano passado.

A queda atual na busca por crédito é resultado da desaceleração da renda e do maior rigor na concessão dos financiamentos. Agora, a medida do governo acrescenta um terceiro fator, que deve implicar em um recuo ainda maior, e possivelmente afetar mais drasticamente as vendas do varejo.

Com o consumidor tendo maior dificuldade para obter empréstimo, a tendência é que o consumo diminua. O que deve acontecer principalmente entre os bens duráveis, cujas vendas são, em sua maioria, dependentes dos financiamentos. Pesquisa feita pela ACSP (Associação Comercial de São Paulo) no final do ano passado mostrou que 70% dos entrevistados que pretendiam comprar televisores financiariam a aquisição. No caso de uma geladeira, 60% das compras seriam a crédito.

Na cidade de São Paulo as vendas a crédito iniciaram 2015 em forte queda segundo a da ACSP. Na primeira quinzena de janeiro elas recuaram 3,3% na comparação com o igual período do ano anterior. 

As vendas gerais do varejo brasileiro (à vista e a prazo) foram decepcionantes em 2014. Pelos dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), fechados até novembro, elas cresceram apenas 2,4%, pior resultado desde 2003. Esse resultado deve refletir o desempenho do ano de 2014 para o varejo do país.

Para Marcel Solimeo, economista-chefe da ACSP, o anúncio do aumento do IOF em um momento de queda no consumo evidencia que a única intenção do governo foi realmente fazer caixa. Solimeo afirma que seria desnecessário usar dessa ferramenta para o controle da inflação em um momento de consumo baixo. "Mas já que foi usada, a provável elevação da taxa básica de juros, a Selic, poderia ser repensada”, diz.

INADIMPLÊNCIA

Com o aumento o IOF, que encarece o custo do crédito, a renda do consumidor também pode ficar mais comprometida com o pagamento de dívidas, de acordo com Fernando Cosenza, diretor de sustentabilidade da Boa Vista-SCPC. Em 2014, a inadimplência avançou 2,3% segundo dados da Boa Vista. 

O cenário que se desenha indica que essa taxa tende a crescer neste ano, uma vez que, além de lidar com um crédito mais caro, o consumidor verá sua renda crescer menos do que em anos anteriores. A expectativa é de uma elevação de 3% na taxa de inadimplência em 2015.

CIDE

Os efeitos do aumento da alíquota do IOF são imediatos no consumo. Já as consequências da elevação da Cide (Contribuição de Intervenção no Domínio Econômico) e do Pis/Cofins para combustíveis devem aparecer em alguns meses. Mas ao encarecer a gasolina e o diesel, essas medidas afetam as cadeias produtivas de diversos setores. 

O custo do frete, por exemplo, cresce, o que encarece a compra de matéria-prima e a distribuição do produto final. Essa elevação de custo da indústria também deve chegar ao varejo – e ao bolso do cliente.

Para Rogério Amato, presidente da ACSP e da Facesp (Federação das Associações Comerciais do Estado de São Paulo), o governo, mais uma vez, adota medidas equivocadas ao aumentar impostos em vez de reduzir os gastos. “Mais uma vez o governo recorre ao aumento de tributos para fazer o necessário ajuste fiscal, que vai drenar recursos da sociedade, inibir ainda mais as atividades econômicas e o consumo”, afirma Amato. “Como contrapartida, espera-se que ocorra um maior controle dos gastos, redução da burocracia e racionalização da tributação e que se apresente um programa completo de ajuste fiscal factível e transparente que restabeleça a confiança dos agentes econômicos.”



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