São Paulo, 29 de Setembro de 2016

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Alta do dólar tira os importados da mesa dos consumidores
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O bacalhau, prato típico da Semana Santa, deve ser substituído por peixes frescos. No Mercado Municipal de São Paulo, o clima é de desânimo entre os comerciantes

Na Rua D, Box 12, no Mercado Municipal de São Paulo, Marcelo Nunes, 42 anos, filho do fundador do Rei do Bacalhau, fala com desânimo sobre as perspectivas do seu negócio para o período que poderia ser um dos melhores de vendas no ano: a Semana Santa.

De dezembro até agora, o preço do peixe, que é importado da Noruega, subiu 45%, por conta da alta do dólar. “O consumidor se assusta quando chega aqui e pergunta quanto custa. Provavelmente, vai haver substituição do bacalhau por peixe fresco na Semana Santa”.

Em dezembro, o quilo do bacalhau no Box 12 saía por R$ 29. Ontem, segunda feira (09), por R$ 42. Para Nunes, que tem contato com a loja do pai desde os 7 anos, só resta torcer para que o consumidor pague pelo aumento, até porque ele já havia se comprometido com os fornecedores ao encomendar o mesmo volume do ano passado.

NUNES, DO REI DO BACALHAU: PREÇO DO PEIXE SUBIU 45%

“Confesso que, neste momento, estou perdido como todo mundo por aqui. Não consigo me lembrar de um período pior do que este. Não dá nem para fazer previsão de vendas. Sábado e domingo, o mercado costumava lotar. Agora, o pessoal só vem aqui para passear. O volume de vendas caiu uns 30%”, afirma o dono do Rei do Bacalhau, fundado por seu pai em 1958.

A poucos metros dali, no Empório Cruzília, o impacto da alta do dólar é bem nítido na linha de queijos. O Prima Donna holandês, que custava R$ 90 o quilo no ano passado, era vendido ontem a R$ 103 o quilo, o que representa um aumento de 14,5%. No caso das frutas secas, a alta é de 35%. O damasco, vindo da Espanha e da Turquia subiu mais ainda: De R$ 20 para R$ 45 o quilo.

CRUZÍLIA: COMPRAS REDUZIDAS EM 90%

“Há seis anos, o cliente vinha quatro a cinco vezes na loja durante o mês. Hoje, somente uma. Há seis anos, as pessoas compravam para o Natal no final de outubro. Hoje, compram no dia 20 de dezembro”, diz Leonardo De Marco, gerente da loja, que reduziu 90% as compras neste mês.

Convencer o cliente a pagar mais pelos importados não é a única dificuldade enfrentada pelos lojistas. A volatilidade do dólar está emperrando as negociações de preços entre as importadoras e os comerciantes. Está difícil, segundo os lojistas, definir, por exemplo, os preços de vinhos, frutas secas, temperos, especiarias, azeites, queijos.

A Latinex, importadora de biscoitos, enlatados, sucos, condimentos, salgadinhos, principalmente da África do Sul, Estados Unidos e Inglaterra, reajustou em 9%, em média, os preços dos produtos neste mês, após permanecer estáveis por 18 meses.

“Tentamos segurar o máximo possível os repasses para evitar queda nas vendas. Só que manter os preços ficou impossível”, afirma Henrique Lago, gerente de planejamento da Latinex, que tem como principais clientes os supermercados Santa Luzia e St. Marche e os empórios Diniz e São Paulo.

Para administrar da melhor forma a alta do dólar, Lago fez uma tabela para acompanhar as cotações da moeda norte-americana diariamente. “Isso é desconfortável para mim e para os clientes, mas não há outro jeito de trabalhar neste momento. Agora o dólar está a R$ 3,10, pode chegar a R$ 3,40. Ninguém sabe”, diz o gerente da Latinex.

Pode-se afirmar ser este um dos mais graves momentos de volatilidade da moeda americana já enfrentados pela economia brasileira, na avaliação de Bruno Lavieri, economista da Tendências Consultoria.

E isso ocorre, segundo ele, porque o país enfrenta, principalmente, um período de fraca atividade econômica e baixo nível de confiança tanto por parte dos consumidores como dos empresários. A renda das famílias já não cresce como antes, a taxa de desemprego começa a subir. “É um dos piores momentos para o consumo no país.”

BANCA DO RAMON: CONSUMO CAI 50%

Na Banca do Ramon, na Rua B, Box 7, os preços das bebidas subiram 15% neste início de ano. Vinhos franceses, chilenos, argentinos, australianos, californianos, portugueses, que custavam R$ 100 a garrafa, por exemplo, são comercializados agora por R$ 115.

 “Se vendia mil garrafas de vinho, hoje vendo 500 unidades. O jeito é esperar e ver o que vai acontecer na economia. Para falar a verdade, estou com saudade da ditadura”, desabafa Clemilton Batista dos Santos, gerente da loja.

O estoque de bebidas da Banca do Ramon, que trabalha com cerca de 4 mil rótulos, é suficiente para a venda de um ano. Só do vinho português Pêra – Manca, que custava ontem R$ 1.000, o lojista possui mil garrafas.

Com mais de 30 anos no Mercado Municipal, o Laticínios Pirâmide, localizado na Rua D, Box 1, adotou a política de compra semanal de mercadorias. “O que me faz lembrar este período? A época da hiperinflação”, afirma o gerente Fábio Ohara.

Há 15 anos na loja, Ohara diz que os clientes estavam acostumados a aumentos de R$ 1, R$ 2, R$ 3, no máximo, nos preços dos importados. Este ano, há casos de alta de R$ 6 a R$ 8. O azeite português Quinta do Ribeirinho, com 0,1% de acidez, custava R$ 69 há duas semanas e, ontem, R$ 75.

Os produtos nacionais não têm ficado atrás. A castanha de caju (R$ 58,90 o quilo), que vem do Ceará, diz ele, está até mais cara do que o pistache importado dos Estados Unidos (R$ 54,90 o quilo).

“A castanha de caju custava R$ 38 o quilo no ano passado. Os fornecedores dizem que a produção não foi tão boa e, por isso, os preços subiram tanto. Ninguém mais sabe o que está acontecendo.”

Para sobreviver neste ambiente de forte volatilidade monetária, a orientação de Lavieri para as importadoras é tentar comprar dos fornecedores internacionais com uma taxa de câmbio previamente negociada. “Essa antecipação pode evitar uma surpresa desagradável lá na frente”.

Para os lojistas que trabalham com importados, a sugestão é segurar o quanto puder os repasses para os preços e manter firme as ações para cortes de custos na operação. Os estoques precisam estar bem ajustados à demanda.

Amauri da Silva, gerente da Mr. Josef, na Rua E, Box 15, loja especializada em temperos para a cozinha gourmet, diz que, com certeza, esta crise que o país vive é pior que a de 2008, desencadeada pela quebra de bancos nos Estados Unidos.

“Olha, em 2009, a loja tinha nove funcionários. Hoje são cinco”, diz. Para justificar a queda de 30% nas vendas de dezembro até agora, ele exibe preços de alguns dos mais importantes itens da loja.

O preço do aceto balsâmico (250 ml) subiu de R$ 18 para R$ 24; do sal rosa do Himalaia (390 g), de R$ 35 para R$ 42 e da salsa verde (250 g), de R$ 9 para R$ 12. “Estamos sem motivação para tocar os negócios”, sintetiza Nunes, do Rei do Bacalhau.

 



É o que prevê a FGV para setembro ao revisar para baixo o Índice de Preços ao Consumidor Semanal (IPC-S) da Fundação Getulio Vargas (FGV)

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