São Paulo, 06 de Dezembro de 2016

/ Negócios

A valorização do dólar agora ameaça as exportações dos EUA
Imprimir

Em todo o planeta, a força do dólar elevou de 15% a 20% os preços dos produtos americanos e provoca temor entre os empresários, que buscam estratégias para garantir a lucratividade

Por Nelson D. Schwartz/ Fotos: Michael McElroy/The New York Times

A alta drástica do dólar nos últimos meses deixou Robert Stevenson (ao centro, na foto) e a Eastman Machine, a empresa de 127 anos de sua família em Buffalo, Nova York, sentindo o calor de ambos os lados do Atlântico.

Com a queda sensível do euro em relação ao dólar, os clientes europeus afirmam que não poderão mais comprar os equipamentos de corte da Eastman fabricados nos Estados Unidos sem descontos enormes. Os clientes americanos, por outro lado, também exigem preços mais baixos de Stevenson, já que os concorrentes com sede na Europa estão aproveitando o dólar forte, para baixar o preço das máquinas que exportam para os Estados Unidos sem prejudicar a lucratividade.

Em ambos os casos, Stevenson foi obrigado a ceder, cortando preços e sacrificando a margem de lucro para fechar negócios. "Não estamos ganhando quase nada, mas precisamos manter os clientes e a fábrica não pode parar. Isso não teria acontecido há alguns anos", afirmou. 

Na verdade, a alta drástica no valor do dólar ameaça prejudicar um dos principais responsáveis pela recuperação econômica dos EUA nos últimos anos: o aumento das exportações. Ao mesmo tempo, os decisores políticos do Banco Central americano também começam a se preocupar. Recentemente, Janet L. Yellen, a diretora do Banco Central, alertou para o fato de que o dólar forte provavelmente afetaria as exportações, "prejudicando consideravelmente os resultados do ano".

ALTA ATINGE TODOS OS SETORES

No dia 24 de março, a direção da McCormick & Co., fabricante de temperos, afirmou que o dólar forte prejudicaria a lucratividade nos próximos meses; outras marcas norte-americanas famosas como a Tiffany e a Oracle fizeram anúncios similares nos últimos tempos. Mais avisos desse tipo são esperados, à medida que as empresas apresentam o faturamento do primeiro trimestre de 2015.

Embora o euro tenha recuperado parte do valor nos últimos tempos, ele vale pouco menos de US$1,10. A moeda compartilhada por 19 países despencou de US$1,25 em dezembro do ano passado. Outras moedas de diferentes partes do mundo, incluindo a libra esterlina, o dólar australiano, o iene japonês e o real brasileiro seguiram trajetórias similares.

Em todo o planeta, a força do dólar leva o preço dos produtos americanos a um aumento de 15% a 20% para os clientes internacionais em relação ao mesmo período do ano passado – a menos que as empresas ajustem seus preços. Poucos economistas esperam uma queda no valor do dólar nos próximos tempos. Muitos acreditam que o euro e o dólar terão valor equiparado nos próximos meses, algo que não acontece desde 2003.

Contudo, as variações cambiais são uma boa desculpa para os executivos quando as empresas não corresponderem às rígidas expectativas de Wall Street."Todas as empresas vão dar um jeito de botar a culpa no dólar, mas há uma boa razão para isso. As moedas são a coisa mais difícil de entender no mundo, já que contam com tantas partes móveis", afirmou Scott Clemons, chefe de estratégias de investimento da Brown Brothers Harriman. 

PORTO SEGURO

As causas exatas variam de país para país, mas na maioria dos casos o dólar está subindo porque os Estados Unidos continuam a ser uma ilha de força em meio às crises da economia global. Outro fator importante é a expectativa de que o Banco Central aumente a taxa de juros ainda este ano, mas que o Banco Central  Europeu esteja tentando mantê-las baixas para estimular a economia do continente.

A perspectiva de queda na lucratividade, aliada à busca de locais mais seguros para os investidores – já que os conflitos continuam na Rússia e no Oriente Médio – atraem dinheiro de fora do país para investimentos em dólar, o que ajuda a elevar o valor da moeda.

Além dos problemas, essas mudanças também trazem alguns benefícios econômicos. Os produtos importados se tornam mais baratos para o consumidor norte- americano, limitando a ameaça da inflação e ajudando o Banco Central a ganhar tempo antes do aumento na taxa de juros. Da mesma maneira, viagens internacionais se tornam mais acessíveis para os turistas dos EUA.

Ainda assim, para muitas empresas que dependem de vendas internacionais e para executivos como Stevenson, o aumento no valor do dólar representou uma combinação de resignação e necessidade de adaptação.

No caso da Eastman Machine, a alta do dólar levou a muitos cortes, além da importação de um volume maior dos componentes utilizados nos produtos fabricados pelos 125 funcionários da Eastman, em Buffalo, ao invés de encomendá-los de empresas nacionais, além de transferir parte da fabricação para a outra planta da empresa em Xangai.

"Estamos comprando mais coisas de fora. Somos um microcosmo do que está acontecendo em inúmeras empresas norte-americanas. O custo disso é a perda de empregos no país, mas seria loucura agir de outra forma", afirmou Stevenson. Por exemplo, Stevenson planeja comprar um novo sistema de controle para sua empresa fabricado na Alemanha. Custando centenas de milhares de dólares a menos, a economia seria considerável.

LINHA DE PRODUÇÃO DA EASTMAN

 

 

E, embora as máquinas que a Eastman vende no mercado interno e na Europa continuem sendo fabricadas em Buffalo, afirmou Stevenson, a produção voltada para o mercado indiano está sendo transferida para a China para que os preços sejam mais competitivos."Não estou perdendo muitos negócios, mas a margem de lucro e os empregos nos EUA estão sob pressão."

Se os clientes europeus não esperassem preços mais baixos e a empresa não tivesse que transferir parte da produção para a China com o intuito de servir o mercado indiano, a Eastman teria entre 10 e 20 outros funcionários trabalhando atualmente em Buffalo.

"Isso não tem nada a ver com o salário. Somos muito competitivos em termos de produtividade. Mas o mercado indiano não para de crescer e somos forçados a produzir fora dos EUA para que continuemos competitivos por lá", acrescentou Stevenson. 

Com um mercado cambial cada vez mais volúvel nos próximos meses, muitos executivos admitem que não tem muito controle sobre tantas mudanças no cenário econômico global.

"Não é muito fácil mudar a produção no curto prazo, mesmo que tenhamos fábricas no mundo todo", afirmou o americano John Selldorff, diretor da francesa Legrand, fabricante de produtos elétricos e eletrônicos.

Algumas empresas utilizam estratégias complexas de hedge por meio de mercados futuros e outros instrumentos financeiros. Mas isso também tem um custo, afirmou Selldorff, acrescentando que prefere apostar naquilo que conhece bem – equipamentos elétricos – do que nas próximas mudanças do dólar.

"Nos mais de 12 anos em que trabalho aqui, essas coisas sempre vêm e vão. Essas são as tendências que precisamos aprender a navegar", afirmou. 



Pelo segundo ano consecutivo, a fatia da economia informal em relação ao Produto Interno Bruto (PIB, a soma de toda a riqueza gerada no País) deve crescer apenas 0,1 ponto porcentual

comentários

A moeda norte-americana subiu no dia em que executivos da Odebrecht assinaram o acordo de delação premiada

comentários

Ibovespa (índice das ações mais negociadas e de empresas de maior valor de mercado da bolsa) caiu 3,88%, fechando em 59.507 pontos

comentários