São Paulo, 07 de Dezembro de 2016

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Como operava o "clube vip" da corrupção na Petrobras
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O dinheiro das propinas era pago pelas empreiteiras a empresas indicadas pelo doleiro Alberto Youssef, por meio de offshores no Uruguai e na Suíça

 As nove principais empreiteiras investigadas na Operação Lava Jato formaram um "clube" para desviar recursos de obras públicas, segundo depoimentos dos delatores do esquema. Na Petrobrás, o cartel fraudou licitações e superfaturou contratos em pelo menos nove grandes empreendimentos, mediante o pagamento de suborno a dirigentes. O ex-diretor de Serviços Renato Duque, preso ontem, recebeu propinas de até R$ 60 milhões, conforme relataram os executivos da Toyo Setal Júlio Camargo e Augusto Mendonça de Ribeiro.

Aos investigadores, Mendonça disse que na obra de modernização da Refinaria Presidente Getúlio Vargas (Repar), por exemplo, ele negociou o pagamento de propina diretamente com Duque. Segundo ele, já existia um entendimento entre o então diretor de Serviços e Ricardo Pessoa (presidente da UTC) de que todos os contratos do "clube" deveriam ter contribuições.

"O declarante negociou propina diretamente com Duque e acertou pagar a quantia de R$ 50 milhões a R$ 60 milhões, o que foi feito entre 2008 e 2011. Duque tinha um gerente que, agindo em seu nome, foi quem mais tratou com o declarante, chamado Pedro Barusco", descreve o Ministério Público Federal em seu relatório. Autoridades da Suíça bloquearam US$ 20 milhões em nome de Barusco.


Duque recebeu propinas de até R$ 60 milhões, segundo os delatores

No pedido de prisão enviado Justiça, o Ministério Público diz que houve repasses do "clube" ao ex-diretor nas obras, além da Repar, do Complexo Petroquímico do Rio de Janeiro (Comperj), dos gasodutos Urucu-Manaus e de Cabiúnas, de sondas de perfuração, além das refinarias de Paulínia (SP), Abreu e Lima (PE) e Henrique Lage (SP). O "clube" ainda mantém contratos de R$ 4,2 bilhões em vigor com a Petrobrás. "Caso seja pago o percentual de 3% de propina em todos eles, o valor do desvio de recursos atualmente acontecendo será de aproximadamente R$ 120 milhões", destacam os procuradores encarregados da investigação.

O cartel das empreiteiras frauda
contratos desde a década de 1990

Segundo os dois delatores, o dinheiro das propinas era pago pelas empreiteiras, via offshores em países no Uruguai e a Suíça, a empresas indicadas pelo doleiro Alberto Youssef, apontado como o responsável pela lavagem dos recursos desviados. Em seguida, eram repassados ao ex-diretor ou ao gerente Pedro Barusco, seu subordinado na Petrobrás. Não raro, os pagamentos eram feitos em espécie.

Nos depoimentos, os delatores do esquema - que esperam ter suas penas reduzidas após a colaboração com a Justiça - disseram que o cartel das empreiteiras funciona ao menos desde os anos de 1990 fraudando contratos. Entre elas, havia um grupo de VIPs, supostamente formado por Odebrecht, UTC, Camargo Correa, Andrade Gutierrez e OAS, que tinha maior poder de "persuasão" para ficar com os melhores contratos.

"Com esse poder de persuasão, o clube Vip garantiu a refinaria Rnest (Abreu e Lima) só para eles", disse Augusto Mendonça aos investigadores.

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CERVERÓ IMPLICADO

O executivo de empreiteira Júlio Camargo, um dos delatores da Operação Lava Jato, revelou que o homem apontado como operador do PMDB no esquema de corrupção na Petrobras, Fernando Antonio Falcão Soares, o Fernando Baiano, agia em nome e “em confiança” de Nestor Cerveró, ex-diretor de Internacional da estatal. Indicado pelos peemedebistas ao cargo em 2005, Cerveró é protagonista do emblemático caso da compra da refinaria de Pasadena, nos EUA, que causou prejuízo de US$ 792 milhões à estatal, segundo o Tribunal de Contas da União.


Ex-diretor internacional da Petrobrás, Cerveró está sendo agora investigado


“Fernando Soares mantinha um compromisso de confiança com o diretor de Internacional Nestor Cerveró”, afirmou Camargo, delator da área empresarial da Lava Jato, ao citar uma cobrança de propina feita em uma intermediação de aquisição de sondas de perfuração para a Petrobras.

O ex-diretor de Internacional da Petrobras é agora o foco das investigações . Cerveró esteve no centro do caso Petrobras quando a presidente Dilma Rousseff afirmou em março que aprovou a compra de Pasadena - em 2006, quando presidia o Conselho de Administração da estatal - com base em um parecer falho elaborado por ele.

O Ministério Público Federal sustenta que Baiano, “em razão de sua proximidade com Nestor Cerveró, intercedia ilegalmente, já que de outro modo não se obteria a contratação, em favor de terceiros para que a Petrobras firmasse com eles contratos que dependiam da área internacional”.

O Ministério Público Federal, que atua na investigação da Lava Jato, faz referência ao contrato de compra das sondas de perfuração e afirma que houve cobrança de “propina e, ao que tudo indica, repassado parte do valor para a Diretoria de Internacional”.

NO EXTERIOR

Júlio Camargo, que atuava pela Toyo Setal - uma das 13 empresas acusadas de cartel na Petrobras - indicou aos investigadores o roteiro da propina, inclusive nomes de instituições financeiras, onde estão sediadas e valores depositados nas “inúmeras contas” que Baiano mantinha no exterior. Uma delas, na Suiça, aberta em nome da offshore Harley, cujo domínio econômico está em nome do operador do PMDB.

O executivo citou ainda o pagamento feito por ele para Baiano por meio de uma conta que tinha no banco Winterbothan, no Uruguai. O delator da Toyo Setal sugeriu que Cerveró era um dos beneficiários e disse que os extratos bancários da conta poderão confirmar o fato - numa delação premiada, mais do que fazer acusações, o importante é provar o que se diz a fim de que o delator tenha o benefício da redução de pena.

Camargo, em sua delação, deu detalhes de empresas abertas pelo operador do PMDB no exterior. Um caso foi o pagamento de US$ 8 milhões para Baiano em duas empresas registradas em seu nome - a Techinis Engenharia e Consultoria recebeu depósito de R$ 700 mil; a Hawk Eyes Administração de Bens, R$ 2,6 milhões. Outras transferências foram realizadas.

Além de Camargo, um executivo da Toyo, Augusto Mendonça de Ribeiro Neto, afirmou também em delação premiada que o ex-diretor de Serviços e Engenharia Renato Duque recebeu propina referente às obras das refinarias Repav (São José dos Campos), Repar (Paraná) e Replan (Paulínia, SP), no complexo petroquímico Comperj (RJ) e nos gasodutos Cabiúnas e Gasoduto Urucu Manaus.

Segundo os investigadores, os executivos narraram “todo o esquema de cartelização, lavagem e pagamento de vantagens indevidas a agentes públicos, confirmando não só a participação de Alberto Youssef e Paulo Roberto Costa, mas das demais empreiteiras e ainda o envolvimento de Renato Duque, diretor de Serviços da Petrobras, e Fernando Soares, vulgo Fernando Baiano, outro operador encarregado de lavagem e distribuição de valores a agentes públicos”.

“É inquestionável a ativa participação de Renato Duque, Pedro Barusco e Fernando Soares nos fatos criminosos em apuração”, afirma a Procuradoria



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