São Paulo, 25 de Setembro de 2016

/ Inovação

Uma fantástica fábrica de invenções da era da Internet
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Com a Quirky, o jovem Ben Kaufman (na foto, testando um invento) criou um modelo de negócios que é um híbrido entre os mundos digital e físico. É uma rede social, um mercado on-line, faz o design industrial, manufatura e marketing de seus produtos.

Por Steve Lohr e Sasha Maslov (fotos)

No campo das invenções, a de Jake Zien foi uma sacada esperta, mais do que uma descoberta criativa: a irritação é a mãe de sua invenção.

Ele achava os filtros de linha normais enlouquecedores porque uma tomada normalmente bloqueava as adjacentes. Por isso, depois de seu último ano no colégio, enquanto participava de um programa de verão na Escola de Design de Rhode Island, desenhou um dispositivo ajustável que resolvia o problema.

Mas o conceito do seu produto – uma descrição breve, desenhos e uma maquete imperfeita – não o levaram a lugar algum até que estivesse no último ano da faculdade. Zien mandou versões digitais de seus desenhos para uma startup chamada Quirky.

Os designers e engenheiros da Quirky deixaram o conceito mais refinado. "Eles o transformaram em uma solução muito mais elegante", afirma.

A Quirky também lidou com as questões de produção e marketing, garantiu a patente e colocou Zien como o inventor principal. Um ano depois, em 2011, o filtro de linha ajustável parecido com uma cobra, o Pivot Power, estava chegando às prateleiras das lojas. 

Zien, de 25 anos, hoje ganha alguns centavos de dólar para cada Pivot Power vendido. Trabalhando como designer de software em Nova York, ele já conseguiu mais de 700 mil dólares e esse número continua a aumentar.

ZIEN, INVENTOR DO PIVOT POWER


A EMPRESA FAZ-TUDO

Seu filtro de linha flexível é o maior sucesso até agora da Quirky, startup fundada em 2009. A empresa, que tem sede em Nova York, é uma cria curiosa da era da internet, um híbrido entre os mundos digital e físico. É uma rede social, um mercado on-line, faz o design industrial, manufatura e marketing de seus produtos.

Ben Kaufman, de 28 anos, fundador e presidente da empresa, a chama de "uma máquina moderna de invenções", cuja missão é comercializar ideias de produtos.

A Quirky é um exemplo de que o renascimento do pequeno inventor na era digital não só é possível como já está acontecendo. A companhia fala com uma comunidade on-line de um milhão de usuário registrados. Mais de 400 produtos gerados pela Quirky chegaram ao mercado até agora. 

A empresa também é um laboratório para testar até onde um modelo de inovação e de desenvolvimento de produtos baseado na contribuição externa pode chegar. O maior objetivo da Quirky, insiste Kaufman, é criar um mecanismo para acelerar o processo de identificar e desenvolver novas ideias para todos os tipos de produtos.

QG DA EMPRESA EM NOVA YORK

"Gostaria que a Quirky fosse uma utilidade pública como a eletricidade", afirma. Os investidores estão apostando que a Quirky pode chegar a se tornar uma empresa de tamanho considerável.

A companhia já levantou US$ 185 milhões até agora. A General Electric, maior fabricante de produtos dos Estados Unidos, apostou 30 milhões de dólares nela, como parte de uma parceria para testar modelos mais rápidos de produção. O resto do dinheiro veio principalmente de empresas de capital de risco. 

INVENTOS

Para atingir seus objetivos ambiciosos, no entanto, a Quirky precisa ir além da fabricação de produtos pouco importantes, como o Pivot Power. Outros inventos populares são um equipamento para separar as claras dos ovos, uma peça de plástico que, quando colocada em um limão, se transforma em um vaporizador e um saca-rolha que corta a folha metálica da garrafa de vinho e se transforma em um tubo de servir. Espertos, talvez, mas não essenciais para um futuro conectado.

Isso está começando a mudar. A Quirky está indo atrás da tão falada visão da casa inteligente, ou do consumidor da internet das coisas. A estratégia e o tempo são guiados em parte por sua comunidade de inventores. 

 

NATHAN FIRTH, INVENTOR DE UM APP DE SMARTPHONE PARA ABRIR PORTAS DE GARAGENS

Grandes empresas – não apenas inventores solitários – vão cada vez mais fazer parte do futuro da Quirky. A empresa diz que um punhado de companhias já está fazendo fila para se juntar a seu novo programa de parcerias corporativas, que se aproveita da experiência da Quirky com a GE.

Apesar de ainda não ter identificado essas empresas, entre os novos parceiros estarão companhias grandes que produzem brinquedos, equipamentos de áudio e de cozinha. Os produtos criados vão trazer um slogan "Powered by Quirky" ("Desenvolvido pela Quirky"), mas serão vendidos pelas marcas das grandes empresas.

A estratégia de trazer parceiros corporativos tem a intenção de permitir que a Quirky foque nos talentos do design enquanto se beneficia dos poderes de marketing e produção das grandes empresas. Porém, há um potencial confronto de culturas. As grandes empresas querem as dicas de inovação da Quirky, que encontrarão uma cultura corporativa cuja essência é definida por Kaufman como "um completo descaso pela maneira como as coisas deveriam ser feitas".

UMA EPIFANIA

Quando ainda estava no colégio, Kaufman persuadiu seus pais a fazerem uma nova hipoteca de US4 185 mil dólares por sua casa para financiar sua primeira aventura empresarial, fazer acessórios para o iPod da Apple. 

O empréstimo dos pais veio sob uma condição: que ele fosse para a faculdade. Ele entrou no Champlain College, em Burlington, Vermont, mas saiu no primeiro ano. Foi trabalhar em sua startup, chamada Mophie. Ela fazia produtos como uma faixa de plástico para segurar o iPod Nano que podia dividir o áudio para que duas pessoas pudessem ouvir o som ao mesmo tempo. A invenção ganhou o prêmio Best Show na convenção Macworld de 2006.

Em vez de apenas tentar repetir o que conseguira no ano anterior, Kaufman decidiu fazer uma coisa totalmente diferente. Ele e seu time apareceram na Macworld de San Francisco, montaram um estande e pediram às pessoas que estavam lá para inventar a linha de produtos 2007 da empresa.

Entregaram blocos e canetas e encorajaram a multidão da Macworld – fanáticos por produtos da Apple – a desenhar suas ideias e entregar seus rascunhos. Os projetos vencedores foram selecionados e, no final dos quatro dias de feira, eles usaram uma impressora 3D para fazer os protótipos. 

Essa experiência, Kaufman relembra, foi "absolutamente transformadora". Ele ficou impressionado, explica, pelo poder de ver "uma comunidade de gente apaixonada trabalhando para criar e inventar o futuro".
Dois anos depois, ele criou a Quirky.

A SABEDORIA DAS MULTIDÕES

"Pessoal, são sete da noite de quinta-feira e vocês estão assistindo à avaliação de produtos da Quirky", disse Kaufman ao microfone, parado atrás de um púlpito, em um palco iluminado. "Desistam." 

Um caloroso aplauso veio das cerca de 100 pessoas juntas na sede da empresa. Muitos outros seguidores da Quirky nos Estados Unidos e em vários países estavam assistindo ao evento transmitido pela web. 

Essa foi em dezembro, mas as sessões de avaliação acontecem todas as quintas-feiras.

 

SESSÃO DE AVALIAÇÃO NA QUIRKY: O EVENTO É TRANSMITIDO PELA WEB

O primeiro passo do processo é automatizado. Algoritmos de software procuram os envios on-line dos inventores atrás de produtos que estão fora dos limites da Quirky, como armas, bombas, remédios e comida. Depois, a comunidade de inventores da empresa entra em um plebiscito virtual, votando a favor ou contra as ideias. 

Então, os classificadores e gerentes de produto estudam as ideias mais populares. Eles procuram saber, entre outros critérios, se a categoria do produto está entre os assuntos da moda na rede social de seu inventor, no estilo do Twitter. 

A cada semana, menos de 10 ideias são apresentadas nos eventos de quinta-feira, e cerca da metade consegue ir em frente. Quando uma ideia de produto é aprovada, Kaufman diz: "Parabéns, você é um inventor da Quirky".

Na verdade, ainda há um longo caminho pela frente. Cerca de uma em cada cinco ideias aprovadas na avaliação semanal chega ao mercado, quando os produtos da Quirky são vendidos nas grandes cadeias. 
O que a empresa faz por muitos inventores é transformar em realidade o sonho de ter seu produto disponível nas prateleiras das lojas. 

Existem poucos inventores da Quirky, como Zien, que ganharam muito dinheiro, mas, para a maioria, a grande satisfação é se tornar parte do mundo das ideias que chegam a se transformar em produtos. E o reconhecimento: o nome do inventor aparece na embalagem de sua invenção.

AUMENTANDO A BASE

A Quirky, que tem 300 funcionários, está crescendo rapidamente. A empresa é de capital fechado e não publica seus relatórios financeiros, mas Kaufman diz que o lucro mais do que dobrou em 2014, chegando a 100 milhões de dólares. 

Até onde a Quirky ainda pode chegar vai depender do ritmo em que a casa inteligente se desenvolve. Algum dia, nossos lares vão ser mais seguros e mais eficientes em termos de consumo de energia, já que equipamentos como lâmpadas, portas, persianas, aquecedores de água e regadores automáticos de jardim serão capazes de se comunicar, responder e aprender a partir dos comandos digitais dos usuários. Está começando a acontecer, mas bem devagar. 
 



A fundação está em busca de ideias inovadoras. Os interessados têm prazo até 31 de outubro para apresentar propostas

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