São Paulo, 24 de Setembro de 2016

/ Inovação

Obstáculos legais ameaçam empresas que rompem com modelos tradicionais
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Empresas como Airbnb viveram crescimento rápido e começam a bater de frente com órgãos reguladores

Uma das empresas mais conhecidas do grupo é o Airbnb, serviço online que possibilita aos usuários alugarem seus apartamentos ou quartos vagos para desconhecidos. Nathan Blecharczyk, de 31 anos,  é  cofundador do Airbnb – além de um dos bilionários mais jovens do mundo. Como afirma Blecharczyk, a ideia do Airbnb surgiu em 2007, depois que ele saiu do apartamento que dividia em San Francisco com os amigos Brian Chesky e Joe Gebbia. Ao constatar que todos os hotéis da cidade estavam cheios devido a um evento de design que seria realizado, Chesky e Gebbia decidiram oferecer o quarto livre para alguns viajantes necessitados como forma de cobrir o valor do aluguel. A dupla faturou mil dólares em apenas um fim de semana. Alguns meses depois, os três amigos se uniram. Foi então que surgiu o Airbnb.

Desde então, a empresa se tornou um enorme sucesso. De acordo com Blecharczyk, o Airbnb conta com 800.000 "propriedades" em 192 países, em um total de 35 mil cidades, fornecendo serviços para um milhão de pessoas a cada mês. Em abril passado, a empresa estava avaliada em torno de US$ 10 bilhões.


À esquerda, Joe Gebbio, Nathan Blecharczyk no meio e Brian Chesky, à direita, fundadores do Airbnb

O Airbnb, porém, encontrou um obstáculo significativo em Nova York: a senadora estadual Liz Krueger. Há alguns anos, Krueger começou a receber inúmeras reclamações a respeito do serviço de seus eleitores no East Side de Manhattan. "Havia reclamações de vizinhos que eram barulhentos demais, de festas de arromba sendo realizadas no meio da noite", disse a Dubner. "E quando iam até a porta para dizer que aquele era um prédio particular e pedir para abaixar o som, davam de cara com um bando de turistas se divertindo".

Krueger defendeu em 2010 uma lei que viria a ser conhecida como "Lei dos Hotéis Ilegais", que tornou muito mais difícil para os nova-iorquinos alugarem legalmente seus quartos pelo Airbnb.

Blecharczyk argumenta que legisladores como Krueger precisam reconhecer a realidade do Airbnb, que ele estima gerar US$ 768 milhões de dólares em atividades todos os anos em Nova York: "Não estamos dizendo que não devem haver regras, mas que as coisas evoluíram e é importante observá-las por um novo ângulo".

Embora afirme não ser contrária ao turismo, Krueger argumenta que as leis atuais não são rígidas o bastante: "Quero um controle mais estrito, talvez com multas e penalidades mais altas. Fico muito frustrada com o fato de que o tipo de lei de que precisamos tenha que ser federal, já que o estado deve responder às leis federais no que diz respeito aos negócios online. Algumas pessoas parecem acreditar que, se você tem um modelo de negócios que utiliza a internet, ele se torna mágico e intocável. É um negócio como qualquer outro. E há uma boa razão para que o governo regulamente as empresas, não importa se ela está em um lugar físico, ou na nuvem".

Inspirado pelo Airbnb, o empreendedor Guy Michlin foi um dos fundadores do EatWith, em Tel Aviv, Israel, em 2012, como uma espécie de Airbnb para o jantar, permitindo que cozinheiros transformem suas casas em pequenos restaurantes. Atualmente com sede em San Francisco, o EatWith ainda não se chocou com os reguladores, mas Michlin está se preparando para o inevitável. "Não tenho dúvidas de que isso vá acontecer", afirmou a Dubner. "Creio que às vezes – ou muitas vezes – os reguladores estão um pouco atrasados em relação à tecnologia".

O Lyft, empresa de compartilhamento de caronas parecida com o Uber, enfrentou uma série de confrontos com os reguladores estaduais dos EUA. "Eles interpretam as leis de determinada maneira e estão tentando fazer o trabalho deles", disse John Zimmer, um dos fundadores e presidente da empresa. "E nós interpretamos as leis de outra forma e estamos tentando inovar. Infelizmente, essas duas coisas não se encaixam".

Recentemente, o Lyft bateu de frente com os reguladores do estado de Nova York, incluindo o procurador geral Eric Schneiderman, em relação ao estabelecimento dos serviços da empresa em Rochester, Buffalo e Nova York. À medida que a procuradoria geral se preparava para entrar na justiça para impedir que o Lyft começasse a prestar serviços em Nova York, sob o argumento de que a empresa violava as leis locais em relação à operação de táxis, o chefe dos assessores de Schneiderman, Micah Lasher, tuitou dizendo que o Lyft e Zimmer eram "não apenas 'problemáticos', mas pessoalmente desonestos".

É fácil concluir que os reguladores estaduais estejam atacando essas empresas em grande parte para proteger os interesses de setores bem estabelecidos como o hoteleiro e dos táxis. Contudo, Lasher diz que esse não é o caso e que a procuradoria não é contrária à inovação e à competição, mas que está tomando conta do público: "Uma das maiores questões é o problema dos impactos externos. Em outras palavras, se seu vizinho está usando o apartamento ao lado como quarto de hotel, ele não é o único a correr o risco de ter seu apartamento destruído, ele também tem um impacto sobre mim. Da mesma forma, no caso do Lyft, se um desses motoristas se envolve em um acidente de trânsito e não tem o seguro apropriado, isso pode trazer um impacto e tanto para um punhado de gente que não tinha nada a ver com aquilo".

Dubner conversou com o economista de Stanford, Jonathan Levin, especialista em mercados online, para saber o que ele acha da economia de compartilhamento. Para Levin, o tipo de mudança rápida e muitas vezes caótica trazido por tecnologias como o Airbnb e o Lyft não é nem um pouco estranho para uma economia tão inovadora quanto a dos Estados Unidos. "Se você pensar a respeito das coisas no último século, o PIB norte-americano dobrou de tamanho a cada período aproximado de 30 anos", afirmou. "E isso significa que houve uma mudança e tanto na vida de praticamente todo mundo. Na vida dos meus pais, dos meus avós e na minha. Boa parte dessa mudança acarretou no fim de velhos setores e no surgimento de novos".

No que diz respeito a serviços como o Uber e o Lyft, afirmou Levin, “Acredito que a ameaça mais profunda para o emprego dos taxistas no longo prazo muito provavelmente se trata dos carros autônomos. Em 20 anos, é bem capaz que as pessoas já não precisem mais dirigir".

The New York Times News Service/Syndicate

 



Fundada por Filipe Ferreira (foto), a empresa criou um sistema de compartilhamento de rede de internet que remunera os usuários

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