Inovação

Como profissionais criativos enxergam o futuro do trabalho


Com o declínio de empregos baseados em atividades repetitivas, criatividade e flexibilidade vão orientar a gestão de pessoal e de projetos


  Por Italo Rufino 30 de Julho de 2017 às 09:00

  | Repórter isrufino@dcomercio.com.br


O cenário que se desenha para o futuro deve contemplar, necessariamente, o impacto gerado pela ascensão da robótica e da inteligência artificial.

Ao lado de benefícios, um efeito colateral das tecnologias será a eliminação de empregos nos próximos anos. 

De acordo com recente estimativa da consultoria PwC, o corte de vagas atingirá 21% da força de trabalho no Japão, 30% no Reino Unido, 35% na Alemanha e 38% nos Estados Unidos.

Embora não haja estimativa para o Brasil, é bem provável que movimento semelhante será replicado por aqui.

Se empregos baseados em atividades repetitivas podem desaparecer devido à automação, o novo mundo do trabalho deverá valorizar a criatividade e o conhecimento.

Esse foi um dos temas debatidos no WGSN Futures, evento que reuniu especialistas em tendências e executivos de empresas que estão na vanguarda da inovação tecnológica e de comportamento.  

A série de debates sobre perspectivas do futuro foi organizada pela WGSN, consultoria global de tendências de moda, estilo de vida e análise de dados. Entre os clientes da marca estão empresas como Starbucks, Samsung, Adidas e Chrysler. 

Em 2017, o WGSN Futures acontece em seis cidades ao redor do mundo, entre elas Londres, Hong Kong e Nova York. 

DEBATE SOBRE O FUTURO DO TRABALHOU REUNIU EXECUTIVOS DO MERCADO DE PUBLICIDADE

“Teremos que aprender a lidar com o tempo livre que os robôs nos proporcionarão e aprender novas formas de trabalho”, disse Mario D’Andrea, presidente da filial brasileira da agência Dentsu, um dos participantes da edição brasileira, realizada na quinta-feira (27/07), na Escola Britânica de Artes Criativas, na capital paulista.

E como faremos isso? “Buscando novas visões e novos pontos de vista sobre as pessoas, com tecnologias que agilizam os processos, para criar negócios de valor.”

No ambiente que valoriza criatividade e conhecimento, as empresas terão que se preparar para uma cultura de trabalho flexível. Não, isso não tem a ver apenas com home-office ou jornadas maleáveis. 

Pense: se já é comum falar da necessidade de ter empatia com os consumidores, o mesmo conceito vale para as relações dentro da empresa. 

Então, esqueça a hierarquia de chefe e subordinado. As decisões devem ser descentralizadas. O que prevalece são as ideias, que podem emergir em todos os níveis. É isso poderá fomentar a criatividade e produtividade da equipe. 

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De acordo com André Ferraz, CEO InLocoMedia, desenvolvedora de tecnologias para publicidade, outro fator de peso é a transparência nas relações, que envolve o compartilhamento de informações do negócio.

Transparência também consiste em convidar o pessoal a cocriar o futuro do negócio, envolvendo as pessoas nas decisões.

“As empresas devem buscar missionários e não mercenários”, afirma Ferraz. 

CORAÇÕES E MENTES

De acordo com o publicitário Sergio Gordilho, copresidente agência Africa, o foco da criatividade também segue nesta direção. 

GORDILHO, DA AGÊNCIA ÁFRICA: CONSUMIDOR BUSCA EXPERIÊNCIA

Se no passado era instrumento para atingir resultados imediatos com mensagens ancoradas na racionalidade (demonstrar a funcionalidade de um produto para gerar vendas), hoje ela é voltada para compreender as percepções dos consumidores.

Tradicionalmente, as mensagens publicitárias enfatizavam sobretudo o desejo de posse. Entre as novas gerações, elas vêm sendo substituídas pelo desejo da experência, a oportunidade de acessar produtos e serviços.

É essa mudança que explica o sucesso de empresas como AirBnb, que possibilita aos jovens usufruir de um apartamento em cidades descoladas, como Barcelona – algo que, se fosse para comprar, exigiria enorme gasto financeiros. 

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A necessidade de criatividade na nova economia será maior devido outro fator, que envolve a comunicação das empresas: a desconfiança crescente dos consumidores. 

A razão disso são os escândalos políticos e corporativos, como o que abalou recentemente a credibilidade do setor automobilístico, no caso das fraudes em testes de emissão de poluentes, que ganhou as manchetes mundiais. 

Para recuperar a credibilidade, não basta somente contar boas histórias. É necessário impressionar, não apenas clientes e acionistas, mas toda a população.

Um exemplo ilustrativo foi a ação deflagrada pela Toyota no Japão, com cocriação da Dentsu, contemplando veículos elétricos de longa distância que chegarão ao mercado em 2020. 

Para superar o problema da baixa capilaridade de postos de recargas de bateria, a Toyota convidou os japoneses a vender energia elétrica de suas próprias residências para proprietários de carros elétricos. Num projeto piloto, sistemas de recarga foram instalados em residências de Tóquio. 

Numa tacada só a empresa resolveu a vida do motorista, criou uma maneira de gerar renda extra para a população e comunicou seu novo produto. 

CARROS ELÉTRICOS DA TOYOTA: CAMPANHAS DEVEM IMPRESSIONAR

IMAGENS: Thinkstock, e Bruno Nunes/Divulgação