São Paulo, 26 de Setembro de 2016

/ Inovação

"Buscamos uma ideia tão original que não tenha concorrentes a longo prazo"
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Criar mercado, abalar tradições e gerar muito dinheiro constituem a essência da inovação radical. Para alcançar este pote de ouro, o cientista Fernando Reinach criou e está à frente do Fundo Pitanga de capital de risco.

No dia 22 de dezembro, antevéspera do Natal, quando a maior parte das empresas do país já estava em marcha lenta, na sede do Fundo Pitanga, em São Paulo, trabalhava-se a pleno vapor. O biólogo Fernando Reinach, sócio-gestor do empreendimento, comandava uma pequena equipe nos últimos acertos para fechar o segundo negócio selecionado (e ainda mantido em segredo) para receber parte dos R$ 100 milhões que compõem o capital do fundo. 

Reinach é conhecido dos leitores pela coluna semanal de divulgação científica que assina no jornal O Estado de S.Paulo. Escritos em texto fluido e elegante, os artigos têm a capacidade de tornar dados indecifráveis para leigos em histórias atraentes sobre as maravilhas da ciência. No dia a dia, o cientista acumula a trajetória de pesquisador e professor de importantes instituições acadêmicas no Brasil  e no exterior com a carreira de executivo, exercida no Grupo Votorantim. A convite dos acionistas dessa empresa, ele criou, há dez anos, o primeiro fundo de capital de risco dedicado exclusivamente à criação de empresas revolucionárias. 

Anos depois, o gosto pela missão o levou a se tornar ele mesmo um investidor, associado a conhecidos empresários brasileiros. Diferentemente dos fundos de capital de risco atuantes no Brasil, o Pitanga escolheu um caminho árduo, o de apoiar apenas projetos de inovação radical capazes de causar uma disruptura no seu segmento ou setor. Para encontrar dois projetos promissores, avaliaram mais de 850 em quatro anos.  

Composto por nacos da fortuna pessoal de empresários como Pedro Passos, Luiz Seabra, Guilherme Leal, fundadores da Natura, Pedro Moreira Salles, do Itaú Unibanco, e Fernão Bracher, do Itaú BBA, entre outros, o fundo pretende repetir a fórmula que se tornou a marca de centros de desenvolvimento de tecnologia como o Vale do Silício – somar o talento e garra dos empreendedores ao expertise e prestígio dos investidores.

 

Danilo Halla, Igor Santiago, Ronaldo Silva e Leonardo Freitas, sócios da I.Systems, com Fernando Reinach (sentado)na sede do Fundo Pitanga/
Foto:Estadão Conteúdo

O primeiro investimento teve como alvo a I.Systems e o software desenvolvido por quatro univesitários da Unicamp. Simplificando a explicação, destina-se a melhorar a eficiência de linhas de produção de grandes fábricas, de uma maneira que pode levar à aposentadoria de sistemas vendidos pelos players mundiais.

Nessa entrevista, Fernando Reinach explica a importância da inovação radical para a criação de riqueza de um país e analisa porque ela ainda é tão rara no Brasil. 
 

O Fundo Pitanga escolheu investir em projetos de inovação radical. Por que?
Depois da experiência com o Fundo Amarilis que criei na Votorantim, quis implantar um modelo com  o espírito mais parecido com os fundos clássicos da Califórnia, apenas com capital particular. O venture capital destina-se a financiar, com capital privado, empreendimentos inovadores de alto risco com potencial de resultar em empresas grandes e de crescimento acelerado. A ideia interessou a um grupo de pessoas que conheço de vários lugares, com um histórico de terem fundado empresas do zero com muito sucesso, como a Natura e o Banco BBA. 

Quais os critérios para um projeto ser classificado como de inovação radical? Está sempre associado à ciência? 
Consideramos dois aspectos - modelo do negócio ou tecnologias que tragam uma vantagem competitiva muito grande a essa empresa. Inovação radical no modelo de negócio não depende de ciência. Quando a Amazon resolveu vender livro pela internet, representou um modelo de negócios totalmente novo para livrarias e conseguiu uma grande vantagem. Não há ciência envolvida, nenhuma tecnologia, mas um jeito diferente de fazer uma coisa. Na inovação radical pela  tecnologia, há um ponto de vista científico, como um novo remédio ou uma tecnologia que pode mudar o mundo, como é o caso da substituição da máquina de escrever pelo computador. 

A inovação radical em tecnologia buscada pelo Fundo Pitanga tem origem na universidade? 
O que procuramos não deriva apenas da universidade, pode surgir de qualquer pessoa que tenha uma  ideia, que perceba uma necessidade e cria um produto para atendê-la. Queremos uma ideia que seja tão original que esta originalidade vai  garantir que o negócio não tenha concorrência por muito tempo - ou porque tem patente ou porque é tão nova que ninguém conseguirá copiá-la tão cedo. Isto acontece com a Genentech (NR - laboratório americano de biologia molecular), que desenvolveu uma série de medicamentes inovadores cujas patentes garantem a ela um  monopólio de 20 anos. Se a ideia revolucionária ocorreu do ponto de vista do modelo de negócios, como a Amazon, até as pessoas perceberem o que ela estava fazendo, já tinha virado a maior livraria virtual do mundo. Nos dois casos, há  um tempo grande para desenvolver a empresa sem a preocupação com a concorrência. Procuramos coisas muito disruptivas. Aquilo que tem pouca barreira de entrada, que todo mundo vai copiar, não nos interessa.

O surgimento do Fundo é um fato isolado ou há uma tendência de investir em inovação radical no Brasil?
Há poucos fundos formados apenas por pessoas físicas, sem  dinheiro do BNDES e da Finep. No entanto, empresários se unirem para criar coisas do zero não é novidade no Brasil, só não era chamado de inovação radical. Por exemplo, quando a família Moreira Salles criou a CBMM (NR: mineradora fundada em 1955 em Minas Gerais) para explorar nióbio, a tecnologia era desconheida. Eles localizaram a mina, desenvolveram a tecnologia e se tornaram líderes mundiais desse setor, em uma iniciativa totalmente inovadora. O desenvolvimento do Centro-Oeste é um fato único no mundo e foi feito por brasileiros. Na época, havia a crença de que o Cerrado não dava nada.

O Pitanga analisou 850 projetos para chegar a dois. O que prepondera entre os projetos apresentados ao fundo – inovação no modelo de negócios ou na tecnologia? 
Do que chega, uma minoria vem da universidade. Menos de 10%. A grande maioria do que recebemos não é inovação radical. O que enche nosso pipeline são ideias de sites. Olhamos tudo o que recebemos. Podemos dizer um “não” muito rapidamente, mas nunca falamos "não vou nem olhar". 

Você lamenta que a universidade não tenha mandado mais projetos? Isto é um mau sinal?
Há duas interpretações possíveis para ter tão poucos projetos da universidade brasileira. Existe muita inovação radical na academia, mas eles nem sabem que podem transformar isto numa empresa. O pesquisador está preocupadado com o paper que vai escrever ou com a promoção na vida acadêmica. Se este for o caso, o Brasil está desperdiçando um potencial enorme que não está virando empresa nem riqueza. A outra  interpetação é que a ciência brasileira é  menos criativa e menos inovadora que em outros países. Não tem inovação porque não tem. São duas verdades e estamos no meio. Há muita desinformação. Falta no Brasil a cultura de 'vou fazer o doutoramento, descobrir um negócio bacana, criar uma empresa e virar empresário”. Não está no radar do jovem universitário.

Do ponto de vista de um fundo de capital de risco, qual a diferença entre o pesquisador brasileiro e o americano?
A ciência americana é mais forte, não há dúvida. Mas o jovem americano sabe que tem dois caminhos a partir de um doutoramento ou de uma pesquisa universitária. Se alguém perguntar a um jovem em Stanford, Harvard ou  MIT “o que faria se descobrisse uma coisa muito importante - preferiria publicar um trabalho cientifico ou tentar transformar a ideia em uma empresa e fazer muito dinheiro?" Acredito que a resposta seria “claro, posso pedir ajuda a um fundo de venture capital". No Brasil, a resposta seria diferente: “Acho que prefiro colocar o paper numa revista importante e ter a chance de ser contratado por uma boa universidade”.  Falta essa pessoa que entra na ciência pensando em aplicar a tecnologia que criou ou que escolhe um projeto com chance maior de virar uma empresa.

Existe um preconceito contra a ciência aplicada no Brasil?
Existe e tem sua origem no que aconteceu durante a ditadura. A universidade se tornou durante todo o período um ponto de resistência para tentar manter a liberdade de pensamento num ambiente muito opressor. Isto fez com que se fechasse para se proteger. Ficou quase um pecado ter relações com o setor privado e ganhar dinheiro. 

"O primeiro investidor é sempre o governo porque é um investimento sem retorno" 

 

Como este sistema deveria funcionar?
Para a sociedade em geral, a universidade tem que se pagar. E tem dois jeitos de retribuir aos contribuinte o ICMS que sustenta a universidade pública: formar gente de alto nivel que vai ser importante para o país no futuro e criar tecnologias que vão gerar riqueza para o país. Se olhar Stanford, Harvard e MIT, é possível ver a contribuição que dão ao PIB da Califórnia e dos Estados Unidos. O Google, por exemplo, é resultado de um trabalho de pesquisa de um curso de computação. A HP a mesma coisa. É possível mapear na riqueza dos Estados Unidos a parte que se originou em universidade. AUSP tem dificuldade em fazer isso. Se pedir que eles indiquem dez empresas grandes no Brasil cuja origem foi desenvolvida na universidade, não vão achar. Esta parte do papel da universidade não está sendo cumprida. Para cumprir precisaria haver muitas pessoas procurando fundos como o Pitanga e muitos Fundos Pitanga financiando estas ideias.

A situação tende a mudar?
Nos Estados Unidos, o orçamento das univesidades nunca é cortado porque a população tem uma percepção clara da quantidade de riqueza e dos benefícios que elas geram para o país. No Brasil, elas nem geram essa quantidade nem são percebidas assim pela população. A USP corre o risco de que caia a ficha da população. Além de não conseguirem colocar seus filhos para estudar lá, ainda estão pagando a escola dos filhos dos mais ricos com o ICMS cobrado na cerveja, por exemplo. É como se costruíssem uma segunda estrada entre São Paulo e Rio que não vai pagar pedágio, mas onde só pode andar carro importado.

Os fundos de capital de risco conseguem sozinhos incentivar a inovação radical ou não dá para prescindir da presença do governo?
O mercado de capitais não entra na ciência porque é uma atividade arriscada demais. O primeiro investidor sempre é o governo porque é um investimento sem retorno. A tecnologia surgida dessas pesquisas é que tem potencial para gerar uma empresa e é aí que entra o mercado de capitais. O capital de risco é privado. Nos Estados Unidos, todos os fundos de pensão aplicam neste tipo de investimento. Apesar de ser de alto risco, tem potencial de gerar mais riqueza que qualquer outro aplicação. Trata-se de um círculo virtuoso - tem que ter uma ciência, esta ciência vai formar jovens, que vão contribuir para o país indo para o mercado de trabalho ou desenvolvendo  tecnologia que vai gerar empresas e estas empresas vão pagar ICMS  que vai financiar a universidade. 

A legislação brasileira influencia o desenvolvimento da inovação radical?
O grande problema causado pela legislação tributária é que estas empresas passam muitos anos sem ter faturamento ou lucro e são cobradas  como uma empresa normal que têm lucro no primeiro dia. Quando um fundo de venture capital investe, além de financiar o empreendedor, precisa financiar os impostos da empresa. Fora isso, temos todas as dificuldadades burocráticas vividas por qualquer empresa brasileira normal.

Pensando no aprendizado de investidor, que ensinamentos você passaria para outros financiadores?
Capital de risco, como o nome diz, é o investimento mais arriscado que existe e por isso o investidor não deve colocar mais de 1% do seu patrimônio. A chance de dar errado é total. O problema  é que a imprensa só fala dos casos de sucesso e  todo mundo acha que é moleza. Incentiva um sujeito a vender o único apartamento que tem para colocar no site do primo. Nos Estados Unidos, 90% desses projetos  quebram. O mais importante é entender o quanto pode colocar do próprio dinheiro e apostar em muitas empresas ao mesmo tempo. 

Como funciona o relacionamento entre os investidores e os empreendedores? 
A empresa financiada tem um conselho de administração como qualquer empresa, formado pelos acionistas. No Fundo Pitanga, os conselheiro não são passivos. Ensinamos, abrimos portas, ajudamos a fazer contatos que façam a empresa crescer. A ideia é colocar, além do  dinheiro, expertise e o nome dos investidores para ajudá-la.  A pressão é enorme. Quanto maior a incerteza, maior a pressão. Numa empresa iniciante, se o empreendedor não colocar a alma, não vai dar certo. 



A fundação está em busca de ideias inovadoras. Os interessados têm prazo até 31 de outubro para apresentar propostas

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