Gestão

Petrobras é rebaixada e nota de crédito do Brasil está sob ameaça


Perda do grau de investimento da petroleira coloca equipe econômica em estado de alerta


  Por Estadão Conteúdo 25 de Fevereiro de 2015 às 00:00

  | Agência de notícias do Grupo Estado


O rebaixamento da nota de crédito da Petrobras pela agência Moody’s caiu como um balde de água fria na equipe econômica do governo Dilma Rousseff. O grupo, formado pelos ministros da Fazenda, Joaquim Levy, e do Planejamento, Nelson Babosa, além do presidente do Banco Central, Alexandre Tombini, vem se esforçando desde o fim do ano passado para melhorar o quadro das contas públicas brasileiras, aumentando a transparência e melhorando a comunicação com o mercado. 

Mas na noite desta terça-feira (24/2) o que havia era uma sensação de receio de que o rebaixamento da estatal acabasse "contaminando" a nota de crédito dos títulos brasileiros. O ministro do Planejamento, Nelson Barbosa, evitou comentar sobre a perda do grau de investimento da Petrobrás, "Assuntos da Petrobras só a Petrobras comenta", limitou-se a dizer. 

Após o anúncio, foi definido que o melhor era discutir alternativas para evitar este eventual contágio. Nesta quarta-feira (25/2), os ministros da equipe econômica devem se reunir com a presidente Dilma para fazer uma avaliação da perda do grau de investimento da Petrobras e definir uma estratégia de trabalho.

Para os próximos dias, o governo prepara medidas fiscais, como a unificação e simplificação do PIS e da Cofins, e também um corte profundo de despesas federais no Orçamento. As medidas são esperadas pelas agências de rating e pelo mercado para melhorar o quadro fiscal do governo federal e também o ambiente de negócios no País, que está há quatro anos consecutivos com crescimento muito fraco da economia.

Nelson Barbosa, ministro do Planejamento, optou por não se posicionar. Foto: AE

Na visão do Bank of America (BofA) Merrill Lynch, a decisão da Moody’s aumenta a pressão sobre a classificação do Brasil. O rating soberano do País na agência está em Baa2, com perspectiva de possível rebaixamento, e poderia ser reduzido em um nível sem que o Brasil perdesse o grau de investimento.  Tal revisão, segundo os analistas Anne Milne, David Beker e Juan Andres Duzevic, se mostra "mais provável" neste momento.

MOODY’S ESPERA BALANÇO AUDITADO ATÉ 30 DE ABRIL

A agência de classificação de risco Moody's rebaixou o rating de crédito corporativo da Petrobras em dois graus, de Baa3 para Ba2, além de cortar todas as outras notas da empresa. Com o resultado, a Petrobras perde o grau de investimento da agência.  

Isso significa que a agência já não considera a estatal uma boa pagadora de seus débitos, o que complica ainda mais a situação da companhia, que é a petroleira mais endividada do mundo. Sem o grau de investimento, o acesso a novos financiamentos fica mais difícil e a empresa pode ter de pagar juros maiores do que os que conseguia até agora.

O rebaixamento para grau especulativo reflete maior preocupação com as investigações de corrupção, assim como pressões de liquidez que podem acontecer em razão do atraso na entrega do balanço auditado. 

A agência ainda acredita que a Petrobras terá dificuldade em reduzir significativamente sua elevada dívida nos próximos anos. "Os ratings da Petrobras permanecem em revisão para rebaixamento por causa da pressão sobre a liquidez que pode acontecer caso a empresa não consiga entregar o balanço em tempo. A empresa precisa fornecer o balanço anual auditado até 30 de abril de 2015. Maiores atrasos trazem o risco de que os credores possam tomar ações que resultem na declaração de um default técnico", diz o comunicado da Moody’s.

Embora a estatal deva gerar mais caixa este ano do que em 2014, a agência de rating acredita que isso não deve ser suficiente para cobrir todas as suas despesas, resultando em mais um ano de geração de caixa negativo. "Caso a empresa consiga resolver seus problemas de liquidez no curto prazo, os ratings podem ser elevados", diz a Moody’s. Ainda assim, provavelmente a empresa não voltaria ao grau de investimento "porque deve continuar a enfrentar tensões relacionadas às investigações de corrupção e seu alto nível de endividamento".

A estatal ressalta, em comunicado, que "não possui covenants (obrigação de fazer) relacionados ao rebaixamento de rating por parte das agências classificadoras de risco ou relacionados a rating abaixo da classificação 'grau de investimento'. No comunicado, a Petrobras destaca que a Moody’s afirmou que continuará monitorando o desenvolvimento das investigações e o progresso da companhia em relação à publicação de suas demonstrações contábeis auditadas. "A agência considera em seu rating a possibilidade de suporte financeiro do governo federal à companhia, se necessário, e alerta que o rating da Petrobras poderá ser sensível a mudanças na classificação de risco do governo brasileiro", diz a estatal.

JUROS EM ALTA

Como esperado, o mercado de juros teve uma abertura tensa diante da decisão da Moody’s. Pela manhã, porém, as taxas futuras desaceleravam o ritmo de alta inicial, em linha com o movimento do dólar.

Todos os títulos de dívida da Petrobras negociados na manhã desta quarta-feira (25/2), no mercado secundário em Frankfurt, registram queda. Alguns papéis já são negociados abaixo de 80% do valor de face. Isso indica movimento dos investidores de tentar se desfazer dos bônus da brasileira.

Com esse fenômeno, o retorno oferecido pelo papel, o chamado yield, sobe e já supera 9% em alguns vencimentos. A Petrobras tem 31 diferentes vencimentos de títulos de dívida, os chamados "bonds", listados no mercado secundário de papéis corporativos da Alemanha – destes, 20 já tinham sido negociados pela manhã.