Gestão

Mais polêmica à vista nos planos para a cultura em São Paulo


Do carnaval à Virada Cultural, André Sturm, secretário de Cultura, explica como será viabilizada a proposta de diminuir o impacto dos eventos públicos sobre os moradores e empresas


  Por Wladimir Miranda 21 de Março de 2017 às 13:00

  | Repórter vmiranda@dcomercio.com.br


Se o Carnaval foi um prenúncio das desavenças entre a Prefeitura de São Paulo e parte dos moradores, muito mais vem por aí.

Em entrevista ao Diário do Comércio, André Sturm, o secretário de Cultura da gestão Doria, antecipou algumas das medidas que vêm sendo idealizadas para os equipamentos e o calendário da cultura paulistana

Os números do carnaval deste ano impressionam. Nos 381 blocos de rua, o número de turistas passou de 3% para 10% do público.

No Anhembi, 79,4% do público era de paulistanos e 20%, turistas; no ano passado, a proporção era 92,3% de paulistanos para 7,7% de outras cidades. A cidade entrou no topo da agenda da folia nacional.

A satisfação com os resultados do carnaval de 2017 não impede que mudanças fortes ocorram para a festa de 2018, cujo planejamento começa agora.

O grande desafio, segundo Sturm, será conciliar quem gosta de desfilar nos blocos de rua com o sossego dos moradores do entorno da folia, como acontece no centro da Capital. Em especial na Praça Roosevelt. 

“A praça é uma área residencial. Não pode haver um grande afluxo de pessoas até altas horas da noite. Os moradores reclamam, e com razão”, afirma ele.

CREDENCIAIS

O novo secretário não foge de empreitadas difíceis. Tem no currículo a reinvenção do Museu da Imagem e do Som (MIS), na avenida Europa, sob sua direção entre 2011 e 2014 e a ressurreição do antigo Cine Belas Artes, na rua da Consolação. 

Formado em administração de empresas, filho de pais alemães, cineasta, fundador da Pandora Filmes e ex-funcionário da Secretaria Estadual da Cultura, Sturm ganhou notoriedade ao conseguir a reabertura do Belas Artes, o mais querido cinema de São Paulo.

Após negociações com o proprietário, movimento cultural, prefeitura e Governo Federal, conseguiu patrocínio para reabrir as salas em 2014.

No MIS, sob sua gestão, mostras sobre Tim Burton, David Bowie, Stanley Kubrick e Castelo Rá-Tim-Bum viraram um grande sucesso de público e o espaço se tornou referência na capital.

“Quando assumi o museu, o espaço recebia 50 mil pessoas por mês. Em 2014, este número havia subido para 600 mil”, disse o secretário.
 
VIRADA CULTURAL

Evento criado para levar a população para o Centro, a Virada Cultural corre o risco de ser parcialmente despejada de seu território tradicional. O secretário já tem planos em relação ao evento. 

“Não queremos aglomerações no centro”, explica. Os grandes palcos com artistas estrelados que dominavam as praças da Luz, República e Sé, serão transferidos para áreas distantes da região central. 

“A Virada Cultural continuará existindo e muito forte no centro. No entanto, com atividades em locais que devem ser melhor aproveitados, como o Teatro Municipal e a Biblioteca Mário de Andrade.”

A secretaria trabalha com a ideia de realizar os grandes shows no Autódromo de Interlagos.

“As ruas do centro serão palco para performances de artistas menos conhecidos”, disse Sturn. Também estão nos planos fazer parcerias com as salas de teatro dos grupos Parlapatões e Satyros, na Praça Roosevelt.

TEATRO MUNICIPAL

A diversidade nos palcos e poltronas do Teatro Municipal já ocorreu no passado. A nova gestão pretende implementar uma programação intensa e variada, de acordo com o secretário, com preços populares e ampla divulgação.

“Muita gente não sabe da programação do Municipal. E muitas pessoas conhecem a programação, mas acham que não é para elas. Vamos mudar isto, com ingressos a preços populares”, promete.

BIBLIOTECA MÁRIO DE ANDRADE

A Biblioteca Mário de Andrade, no centro, terá atenção especial de Sturm. Na gestão Fernando Haddad, o local passou a funcionar 24 horas.

O novo secretário dá sinais de que a biblioteca não vai mais funcionar durante a madrugada.

“A frequência é muito baixa. E o gasto para ficar aberta durante a madrugada é alto”, afirma. Ele planeja introduzir na cidade o projeto Bibliotecas Vivas para trazer mais dinamismo às bibliotecas e fazer com que se tornem equipamentos culturais integrados às suas regiões e opções efetivas de cultura para a população que mora ao redor.

Existem 54 bibliotecas em São Paulo. O projeto prevê que nelas aconteçam espetáculos teatrais, musicais e que os frequentadores tenham Wi-Fi à disposição.

PRIVATIZAÇÕES

Durante a campanha eleitoral e até mesmo no início de sua gestão, o prefeito João Doria disse que iria privatizar espaços como os parques, o Autódromo de Interlagos, o Estádio do Pacaembu e até os cemitérios da cidade. Na Cultura, André Sturm avisa que “nada será privatizado”.