Gestão

As lições de Richard Branson


No evento NRF Big Show ele falou sobre empreendedorismo, a história de suas empresas e de iniciativas sociais – além de destacar a importância do humor e do otimismo


  Por Sérgio Teixeira Jr. 18 de Janeiro de 2017 às 08:00

  | Jornalista especializado em tecnologia e negócios, vive em Nova York (EUA)


O britânico Sir Richard Branson, um dos maiores ícones dos negócios do mundo, foi o destaque do segundo dia do Big Show, o evento anual da associação dos varejistas americanos. 

Fundador do Virgin Group, conglomerado que controla mais de 400 empresas, Branson, 66, conversou com Kip Tindell, fundador e presidente do conselho de administração da rede varejista americana The Container Store.

Branson falou sobre empreendedorismo, a história de suas empresas e suas iniciativas sociais – além de destacar a importância do humor e do otimismo. Leia os principais trechos da conversa.

A FORÇA DA MARCA VIRGIN

Um dos nossos principais desafios é criar fidelidade e manter a marca jovem. Sempre que entramos em um novo negócio, tentamos nos certificar de que será um acréscimo à marca, e ela não causará danos. E precisamos sempre ser divertidos, ter uma veia irreverente. 

OS FRACASSOS

Bem, certa vez tentei entrar no mercado dos casamentos, mas logo descobrimos que não há muitas Virgin Brides [nome da empresa, que em inglês significa “noivas virgens”] (risos).

É claro que a rede de lojas de discos não existe mais. Simplesmente decidimos que não fazia mais sentido estar no varejo [depois da revolução da música digital]. E olhamos para o que estava vendendo bem nas lojas. Vamos começar a vender celulares.

Também era o começo da grande onda dos videogames. E essas empresas vieram a ser muito maiores que o negócio que as originou. Foi assim também com a gravadora, que foi vendida por US$ 1 bilhão. Quem atua no varejo não deve pensar em si como varejista, mas sim como empreendedor.

A EMPRESA AÉREA

Certa vez, estava em Porto Rico e queria encontrar minha mulher, que não via havia três semanas. Ela estava nas Ilhas Virgens Britânicas. No aeroporto, soube que o voo foi cancelado. Procurei uma empresa de aluguel e contratei um avião.

Aí, achei uma lousa e escrevi: voos para as Ilhas Virgens. Foi assim que nasceu a empresa. Fizemos muitas inovações, como telas nas costas do assento da frente e bares em que os clientes podem beber em pé. Hoje isso pode ser encontrado em várias empresas.

O HUMOR

Lançamos a Virgin Air com apenas um avião, contra 300 da British Airways. Sobrevivemos sendo melhores que eles e oferecendo um produto de melhor qualidade – e sendo engraçado.

[Em 2012, a British Airways estava patrocinando a roda gigante London Eye, uma das grandes atrações turísticas de Londres, e enfrentava problemas para erguer o enorme brinquedo. Para chamar a atenção para sua empresa, Branson decidiu contratar um dirigível para sobrevoar a região da London Eye, com a seguinte mensagem: “British Airways can’t get it up” (algo como “o negócio da British Airways não sobe mais”).]

Estávamos na capa de todos os jornais no dia seguinte.

AS VIAGENS ESPACIAIS

Assim que tive a ideia, registrei o nome Virgin Galactic e Virgin Intergalactic, porque sou otimista (risos). E comecei a procurar os gênios capazes de construir essas naves espaciais.

Sofremos um revés importante há dois anos [em 2014, uma das naves da empresa se desintegrou em pleno ar num voo de testes, matando o co-piloto e ferindo com gravidade o piloto]. 

Sempre sonhei em ir ao espaço. As viagens têm de ter preço acessível e têm de ter passagem de volta (risos). Temos 600 engenheiros trabalhando nesse problema e em projetos como aviões mais rápidos que o Concorde.

Também tentamos resolver questões como baratear o envio de satélites para o espaço, o que ajudaria a conectar bilhões de pessoas.

O projeto já dura 12 difíceis anos. Mas todas as pessoas continuam acreditando no projeto e em algum momento deste ano a nave vai para o espaço. Espero logo estar a bordo dela. 

O PAPEL DAS MULHERES

Acho que temos de fazer algo, mesmo que seja contra a vontade das mulheres. Os governos deveriam obrigar as empresas a ter 40% ou 50% dos postos nos conselhos de administração ocupados por mulheres, como na Escandinávia [Branson se referia na realidade à Noruega, que passou uma lei em 2015 estabelecendo cotas para a participação de mulheres nos conselhos de administração].

O TRABALHO SOCIAL

Antigamente, só o lucro e os acionistas importavam para as empresas. Mas cada vez mais as companhias querem ter um propósito maior. Se mais empresas adotarem um problema, a maioria deles poderia ser resolvido.

As empresas têm de ser mais do que máquinas de fazer dinheiro. Gosto de dar o exemplo do círculo. Imagine que você está no meio de um círculo. Você cuida de você. Depois, o círculo cresce, e passa a incluir sua família, seus vizinhos etc.

Mas sou otimista. Ler o noticiário é deprimente, mas nos últimos 50 anos o mundo melhorou muito. É possível que em 2030 a maioria das pessoas tenha um salário mais que suficiente para sobreviver, as pessoas estarão conectadas e as crianças não morrerão antes do tempo.

FOTO: Divulgação/NRF