São Paulo, 28 de Setembro de 2016

/ Finanças

Você sabe se o retorno de suas aplicações bate a inflação?
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A inflação de 2014 atingiu 6,41%. Essa taxa tende a demorar a diminuir. É o momento de avaliar se as aplicações financeiras oferecem ganho real e de tentar proteger o lucro da empresa

Quem viveu os tempos de hiperinflação sabe o quanto ela corrói o poder de compra do dinheiro. Os tempos mudaram mas, nos últimos cinco anos consecutivos, a inflação tem se mostrado resistente e acima do centro da meta de 4,5% ao ano.

Em 2014, a inflação oficial foi de 6,41%, de acordo com o IPCA (Índice de Preços ao Consumidor Amplo), apurado pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE).

Em nota, Alexandre Tombini, presidente do Banco Central, disse que embora a inflação tenha a tendência de mostrar resistência no curto prazo, a autoridade monetária irá fazer o que for necessário para que este ano o indicador entre em longo período de declínio, que o levará à meta de 4,5% em 2016. 

Ao longo desse processo de ajuste, os pequenos poupadores devem parar para fazer uma continha básica: a do ganho real.

Em outras palavras, é descobrir qual é a rentabilidade real das aplicações, ou seja, sua taxa efetiva de retorno se a inflação for descontada do rendimento bruto. Como nesta fórmula:

 

Para se ter uma ideia, o retorno médio bruto dos fundos de renda fixa foi de 11,51% em 2014, segundo balanço da Anbima (Associação Brasileira das Entidades dos Mercados Financeiro e de Capitais). Se descontarmos a inflação do ano passado, a rentabilidade real desse tipo de aplicação foi de 4,79%.

No caso dos fundos, é sempre bom lembrar que o poupador terá de descontar do ganho real a taxa de administração e os impostos para, então, saber quanto efetivamente teve de retorno.

A caderneta de poupança encerrou 2014 com rendimento bruto de 7,08%, mas o ganho real que foi para o bolso do aplicador foi bem menor, de apenas 0,63% no ano. 

Segundo o professor de matemática financeira do Insper e da Fundação Instituto de Pesquisas Contábeis, Atuariais e Financeiras (Fipecafi), José Dutra Vieira Sobrinho, o rendimento real da poupança foi um pouco melhor em 2014, se comparado aos 0,43% de 2013.

O resultado, explica, foi favorecido pela elevação da TR (Taxa Referencial), que é calculada diariamente e tem como um dos fatores de sua composição a taxa básica de juros (Selic). Isso porque a remuneração da poupança é fixa em 0,5% ao mês, ou 6,17% ao ano, mais a variação da TR. 

“Se a inflação continuar no patamar de 6,5% e houver mais aumentos na Selic, a poupança continua oferecendo rendimento real. Mas, se o juro continuar subindo, a caderneta perde a atratividade em relação aos fundos de investimentos. Esse raciocínio, porém, depende do valor da taxa de administração do fundo”, afirma Vieira Sobrinho. 

Embora os fundos possam apresentar uma boa rentabilidade no cenário de juros altos, é preciso pegar o rendimento real deles e descontar a taxa de administração e os impostos. O professor diz que é fundamental perguntar isso antes de aplicar. 

“Só vale a pena se a taxa for de 1% a 2%. Fui calcular o rendimento líquido (livre de inflação, taxas e impostos) do meu fundo de previdência privada nos últimos três anos e descobri que o ganho real era de pouco mais de 0,5% ao ano. Isso porque a taxa de administração era alta, de 3,2%. Estava perdendo da poupança e não sabia”, conta o matemático.

 

 

AVALIE AS APLICAÇÕES

A avaliação do ganho real deve ser feita com o olhar voltado para este ano. A dica de especialistas é observar o rendimento de aplicações de renda fixa que estão na cesta de investimentos, sejam elas prefixadas (cujo rendimento é definido na contratação da aplicação) ou pós-fixadas, que são aquelas que pagam a variação da Selic ou do CDI (Certificado de Depósito Interbancário, uma taxa praticada entre bancos).

“O que se deve buscar são oportunidades de superar a inflação. Se o ganho real for de cerca de 0,50% ou menor talvez não compense deixar de consumir para guardar o dinheiro”, afirma Michael Viriato, coordenador do Laboratório de Finanças do Insper. 

Ele diz que o pequeno investidor pode avaliar alternativas que rendem de 90% a 100% do CDI para superar a poupança.

“Nesse cenário, o CDB, as Letras de Crédito Imobiliário (LCIs) e as Letras de Crédito do Agronegócio (LCAs) são boas alternativas, mas com o aumento da procura, houve diminuição da oferta”, comenta. Uma estratégia é pesquisar bem junto a corretoras e não se limitar às opções dentro de grandes bancos.

 

Mauro Calil

 

Mauro Calil, especialista em investimentos do banco Ourinvest, diz que a aplicação em fundo de renda fixa pode ser uma boa estratégia apenas para quem quer sair da poupança e ter um retorno maior.

Mesmo assim, é preciso calcular o peso das taxas na rentabilidade. Ele diz que, neste caso, pode ser considerado o fundo com liquidez diária, ou seja, que oferece rendimento até a data de resgate, enquanto a poupança só devolve retorno na data de aniversário da aplicação. 

Calil recomenda pesquisar aplicações de renda fixa pós-fixadas com resgate em até 24 meses, que é o período no qual ele estima que a trajetória de juros permaneça alta. 

“Para o vencimento após esse prazo, é possível buscar uma aplicação prefixada. Quem tem disponibilidade para deixar o recurso em uma aplicação por três anos, sem resgate, pode obter uma taxa de retorno bruto de 14% ao ano”, afirma. 

Para o poupador que já acumulou R$ 10 mil e não precisa movimentar o dinheiro no curto prazo, Calil sugere que pesquise as Letras de Câmbio, que são títulos de dívidas de financeiras que fornecem crédito para a atividade produtiva (as empresas) e pessoas físicas.

Na prática, é como emprestar dinheiro para a financeira. É a mesma lógica de um CDB (Certificado de Depósito Bancário), que é o empréstimo do dinheiro da pessoa física ao banco. Ele diz que o valor mínimo de entrada nesse tipo de aplicação é de, em média, R$ 10 mil. 

Calil explica que é uma aplicação que também é assegurada pelo Fundo Garantidor de Créditos (FGC) em até R$ 250 mil por CPF, assim como é a caderneta de poupança. A tributação das Letras de Câmbio segue a regra do CDB, ou seja, é regressiva e vai de 22,5% a 15% sobre os rendimentos, de acordo com o prazo da aplicação até o resgate.  

A INFLAÇÃO E O CAIXA DA EMPRESA

A taxa Selic, hoje em 11,75% ao ano, favoreceu a renda fixa e tende a continuar em um patamar alto neste ano para combater a inflação. Mas, mesmo assim, a estimativa para o índice de preços não é animadora.

A pesquisa Focus, feita com analistas de mercado pelo Banco Central (BC), mostra que a expectativa é que a inflação encerre 2015 em 6,56%, acima do teto da meta de 6,50% estipulado pelo Comitê de Política Monetária (Copom), do BC.

Para os pequenos empresários, o conselho de Silvio Paixão, professor da Fipecafi (Fundação Instituto de Pesquisas Contábeis, Atuariais e Financeiras), é olhar menos para o aumento do faturamento em consequência da inflação e mais na manutenção do lucro em relação ao patrimônio líquido. 

Em outras palavras, precisará pensar no crescimento sempre ponderando dois fatores, como a receita de vendas e os custos.

“Assim, pode escolher uma posição. Ou busca aumentar o faturamento mesmo que isso aumente seus custos. Ou privilegia a liquidez segurando as despesas, sem aumentar o faturamento, para preservar o lucro”, afirma Paixão. 

Segundo ele, as pressões que a inflação deve trazer aos pequenos empresários neste ano estarão no custo da energia, no da água (por causa da escassez) e nos preços de matéria-prima e insumos. 

O professor ainda lembra que o fluxo de caixa será o rei de 2015 e, junto com ele, os bons clientes da empresa. Ambos têm de ser preservados. “Por isso, é bom olhar para o conjunto de clientes e definir preços, pensando em balanceá-los para manter os bons fregueses”, diz. 

 



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