São Paulo, 27 de Setembro de 2016

/ Finanças

Os custos de empréstimos são os maiores desde março de 2011
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Os juros do crédito subiram nas linhas de financiamento voltadas a pessoas físicas e empresas e refletem o aumento da taxa Selic

O ritmo de alta da taxa básica de juros Selic já chegou ao crédito. A taxa de juros média dos financiamentos para o consumidor foi a maior em quatro anos, segundo levantamento do Banco Central (BC).

As empresas, por sua vez, também tiveram aumento de custos e menos liberações de crédito para o capital de giro pelo BNDES (Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social).

Segundo o BC, a taxa média de juros nas linhas de crédito com recursos livres (captados por bancos) subiu de 39,1% ao ano em janeiro para 40,6% ao ano em fevereiro. Isso corresponde, ao mês, a uma elevação da taxa média de 2,79% para 2,88%.

O patamar de fevereiro é o maior da série histórica iniciada em março de 2011. 

Quando o BC separa as estatísticas por perfil de tomador e de linha de crédito, o custo do crédito ficou mais pesado para o consumidor. 

A taxa média do crédito para a pessoa física passou de 52% em janeiro para 54,3% em fevereiro, também recorde na série iniciada em março de 2011. A elevação foi de 2,3 pontos percentuais (p.p.).

Já para as empresas, os juros subiram menos, ou 0,90 p.p., e passaram de 25,2% ao ano para 26,1% ao ano no mesmo período. 

André Perfeito, economista-chefe da Gradual Investimentos, diz que o aumento na taxa Selic está se traduzindo em juros mais elevados para a obtenção de crédito. 

"Possivelmente tem também uma postura mais cautelosa dos bancos, com elevação do spread [diferença entre o custo de captação e empréstimo] bancário médio, a fim de evitar eventuais perdas", diz. 

Para o economista, a quase estabilidade na taxa de inadimplência no crédito livre no segundo mês do ano, que foi de 4,4%, em relação aos 4,5% de janeiro é uma boa notícia e reflete que os tomadores de crédito, especialmente os consumidores, estão mais cautelosos em se endividar, com receio de perda de emprego, dada a perspectiva de recessão econômica este ano.

No mês passado, a inadimplência das empresas permaneceu estável em 3,5% e a dos consumidores, em 5,4%. Os dados não mostram alterações no índice de calotes nas linhas de crédito com recursos livres e direcionados (subsidiados pelo governo).

Perfeito diz que se a taxa de desemprego avançar de forma mais significativa, o índice de inadimplência pode começar a subir. 

"O consumidor está mais cauteloso do que inicialmente se pensava. Isso não quer dizer que não poderá ter elevação da inadimplência. Talvez isso fique mais claro no segundo semestre, quando o desemprego pode subir mais", afirma.

Por outro lado, o endividamento das famílias brasileiras começou 2015 em alta. Segundo o BC, essa relação passou de 46,21% em dezembro para 46,35% em janeiro, a taxa mais elevada desde outubro de 2014. A instituição começou a fazer o levantamento em janeiro de 2005.

O cálculo do endividamento leva em consideração o total das dívidas dividido pela renda no período de 12 meses. A instituição utiliza os dados da PNAD (Pesquisa Nacional de Amostragem Domiciliar) e da PME (Pesquisa Mensal de Emprego), ambas do IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística). Além disso, também leva em consideração informações relativas aos cartões de crédito.

CHEQUE ESPECIAL E ROTATIVO

Uma linha de alto custo que também teve a taxa ajustada para cima foi a do rotativo (pagamento mínimo) do cartão de crédito. Os juros médios dessa modalidade subiram de 334,6% ao ano em janeiro para 342,2% ao ano em fevereiro. 

Na prática, isso significa cobrar juro de 0,4138% ao dia. Se um consumidor estivesse devendo R$ 1 mil no começo do mês, ao final já deveria R$ 1.127.

No caso do crédito parcelado do cartão de crédito, o juro subiu de 106,3% ao ano para 112,6% ao ano de janeiro para fevereiro. 

Outro destaque foi o cheque especial para o consumidor, cuja taxa subiu de 209% ao ano em janeiro para 214,2% ao ano em fevereiro. Assim, o juro mensal passou de 9,86% para 10%.  

O custo do crédito pessoal passou de 46,6% ao ano em janeiro para 47% ao ano em fevereiro. Ao mês, a taxa média passou a ser de 3,26% em fevereiro ante 3,24% em janeiro. 

Até no crédito consignado, o qual o banco tem garantia em caso de inadimplência, houve elevação. A taxa passou de 26,4% ao ano para 26,8% ao ano, de janeiro para fevereiro. Assim, os juros médios mensais passaram de 1,97% para 1,99%. 

O consumidor que busca crédito para a compra de automóvel também está pagando mais. A taxa anual passou de 23,8% para 24,8% de um mês para outro. 

Mesmo na taxa média de juros do crédito total, ou seja, incluindo os recursos direcionados, houve elevação na taxa de juros média, que passou de 24,9% em janeiro para 25,6% em fevereiro.

REDUÇÃO DE CAPITAL DE GIRO NO BNDES 

Os financiamentos do BNDES (Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social) para empresas cresceram 0,8% de janeiro para fevereiro deste ano, somando um total de R$ 599,302 bilhões. No primeiro bimestre, a expansão foi de 0,7% e, em 12 meses, de 14,2%.

Tulio Maciel, chefe do Departamento Econômico do BC, ressaltou que a carteira do BNDES praticamente determina a evolução do mercado de crédito direcionado para as empresas, que atingiu R$ 815,063 bilhões no mês passado. 

Em fevereiro sobre janeiro, houve queda de 5,2% nas linhas de capital de giro, mas alta de 1% no financiamento ao investimento e de 1,8% nas modalidades para o setor rural por parte do banco de desenvolvimento.

"A queda de capital de giro está associada ao menor ritmo de expansão da economia", disse Maciel, ressaltando que esse segmento é a modalidade que representa quase 50% do crédito das empresas. Para pessoas físicas, o crédito do BNDES avançou 1,7% no mês passado.

O BC projeta uma expansão menor do crédito total neste ano, de 11% e não mais de 12% como previa em dezembro. A estimativa para 2015 se aproxima dos resultados do ano passado, quando o crédito cresceu 11,3%.

"A evolução das carteiras até agora e as percepções sobre a atividade econômica e o próprio mercado de crédito justificam a baixa", diz Maciel.

De acordo com o BC, a expansão do crédito dos bancos privados nacionais em 2015 deve ser menor do que o imaginado inicialmente. A projeção é que o segmento terá alta de 7% no crédito este ano, ante estimativa anterior de 9%. Em 2014, o crédito dos bancos privados nacionais cresceu 6,4%. 

O BC manteve a projeção de crescimento de 14% para o crédito dos bancos públicos em 2015, e também de 7% para os bancos privados estrangeiros. 

Para Everton Gonçalves, assessor econômico da ABBC (Associação Brasileira de Bancos), a modalidade de crédito que deverá continuar 'apanhando' mais no mercado é a destinada a compras de veículos.

De acordo com o BC, o crédito para compra de veículos caiu 1% em fevereiro e já acumula no bimestre queda de 1,2% ao passo que o crédito para habitação pessoa física cresceu 1,2%, serviços 0,2%, indústria 0,8% e agropecuária 0,9%.

* Atualizado em 19:50



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