Finanças

Crédito às famílias supera o concedido às empresas


É a primeira vez que isso acontece. Companhias pararam de buscar ou não conseguem aprovação dos bancos


  Por Estadão Conteúdo 01 de Março de 2017 às 09:31

  | Agência de notícias do Grupo Estado


Pela primeira vez na história, a participação das empresas na carteira de crédito do país ficou menor que o das famílias brasileiras.

A mudança no mix de empréstimos e financiamentos no sistema bancário foi provocada por dois fatores diferentes.

De um lado, estão as empresas com elevada capacidade ociosa que pararam de buscar crédito no mercado. Do outro, estão as companhias inadimplentes, que precisam se financiar - ou rolar dívidas - e não conseguem aprovação dos bancos.

Levantamento feito pelo pesquisador do Ibre/FGV e professor do Instituto Brasiliense de Direito Público, José Roberto Afonso, com dados do Banco Central (BC), mostra que a inversão das posições ocorreu pela primeira vez em dezembro e se manteve em janeiro.

No último mês de janeiro, 50,93% da carteira total de crédito referia-se a empréstimos e financiamentos para pessoa física e 49,07%, para empresas. Em janeiro de 2016, esses porcentuais eram de 47,38% e 52,62%, respectivamente.

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"Esse é um resultado muito estranho, fere a história e a lógica, já que o estoque de financiamentos para empresas nunca tinha sido superado pelo de pessoa física", destaca Afonso, atribuindo a mudança à pior recessão atravessada pelo país.

"O crédito para pessoa jurídica decresceu, literalmente derreteu, caindo muitos pontos do PIB em um período muito curto."

Em janeiro, o estoque total de crédito - para pessoa física e empresas - havia recuado para o menor nível desde abril de 2015. Mas para pessoa jurídica foi ainda pior: caiu para patamares de julho de 2014.

Enquanto isso, o estoque de crédito para as famílias brasileiras só aumentou - o que também não pode ser interpretado como uma boa notícia.

O economista Roberto Luis Troster explica que parte dessa alta é efeito da taxa de juros mais alta para o consumidor e também de uma estratégia usada por donos de empresas em dificuldades, que buscam crédito como pessoa física para usar nos negócios.

No mercado, a avaliação é de que, enquanto o governo não desatar o nó do crédito, a economia não vai se recuperar.

"Não dá para pensar em retomada se a carteira de crédito para pessoa jurídica não voltar a crescer", afirma o economista da Serasa Experian, Luiz Rabi. Ele destaca que 2016 bateu recorde de empresas negativadas (inadimplentes): 4,8 milhões.

"Isso representa 50% de todas as empresas do país."

Para os economistas, o recuo da carteira de crédito revela a intensidade da crise. Alguns vão além e afirmam que explica até mesmo a baixa arrecadação tributária no último ano.

"Não pagar imposto é a forma mais rápida, fácil e, talvez, até barata de acesso a crédito no Brasil", afirma Afonso, responsável pelo levantamento.

INDÚSTRIA

A dificuldade das empresas em conseguir crédito no mercado também é retratada em uma pesquisa feita pela Federação das Indústrias do Estado de São Paulo (Fiesp).

De um total de 430 indústrias de pequeno a grande porte, quase metade tentou contratar ou renovar alguma linha de crédito. Dessas, 11,7% tiveram o pedido recusado e 25,4% conseguiram menos de 60% do valor solicitado.

"As condições de crédito continuam muito ruins e, para a indústria, são piores. As empresas estão em grandes dificuldades, conhecidas pelos bancos", diz Paulo Francini, diretor do Departamento de Pesquisas e Estudos Econômicos da Fiesp.

De acordo com a pesquisa, a situação foi pior entre aquelas empresas que buscaram crédito para pagar dívidas. Nesse grupo, 19,1% não tiveram o empréstimo aprovado.

Para quem buscou linha de crédito para capital de giro, 11,6% não tiveram o crédito aprovado. Os motivos para a recusa dos bancos variou de garantias insuficientes ao elevado endividamento.

Mesmo para quem teve o empréstimo aprovado, as situações foram muito piores do que as do ano anterior. Algumas não aceitaram o crédito por causa do elevado custo e prazo curto.

Entre as empresas que tiveram o crédito recusado pelas instituições financeiras, o resultado foi o atraso ou renegociação com pagamento de fornecedores, cancelamento (ou redução) de investimentos e redução do quadro de funcionários.

"É uma situação crítica que provoca um círculo vicioso. A elevação das margens e dos juros provocam inadimplência, que influencia na formação da taxa cobrada no mercado."

De acordo com ele, diante da dificuldade de se financiar, uma das primeiras medidas adotadas pelas empresas é o atraso no pagamento de tributos.

"A empresa não pode deixar de pagar funcionário porque senão a atividade para. O mesmo ocorre com fornecedores, que deixam de entregar a matéria-prima, por exemplo." Francini lembra que nos últimos três anos, o setor perdeu 500 mil empregos.

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