São Paulo, 09 de Dezembro de 2016

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Captação de empresas e de fundos de investimentos cai no primeiro trimestre
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Balanços da Anbima mostram que a instabilidade na economia fizeram investidores resgatarem recursos de fundos de investimentos

O primeiro trimestre foi marcado por um cenário de instabilidade, que fez os investidores sacarem recursos dos fundos de investimento e, na outra ponta, as empresas captarem menos recursos por meio do mercado de capitais. 

Parte desse movimento veio do lado externo, com a valorização do dólar atrelada à expectativa de que a alta dos juros nos Estados Unidos ocorreria mais rapidamente, que depois foi adiada para o fim deste ano. Internamente, a inflação ainda está resistente, e ao mesmo tempo com aumentos de impostos e de juros como parte do ajuste fiscal. 

Tudo isso deixou o mercado mais cauteloso. Para a empresa que precisa captar por meio de debêntures, notas promissórias, no mercado de capitais, o ambiente também não foi favorável, e foi agravado pelos escândalos de corrupção na Petrobras, que abalaram a confiança em papéis de empresas dos setores de construção e de óleo e gás. 

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O reflexo do cenário na indústria de fundos foi a queda na captação líquida, que é a diferença entre aplicações e resgates. Neste primeiro trimestre, ela ficou negativa em R$ 2,67 bilhões, segundo dados da Anbima (Associação Brasileiras das Entidades dos Mercados Financeiro e de Capitais). 

Esse foi o menor resultado para um primeiro trimestre desde inicio da série histórica, em 2002. "A explicação é que o cenário no começo do ano foi difícil, volátil e com muitos acontecimentos, como a desvalorização do real", diz Luciane Ribeiro, diretora da Anbima. 

As maiores retiradas foram efetuadas por empresas, representadas pelo segmento Corporate, com resgate de R$ 10,66 bilhões até fevereiro. Em seguida, os clientes do segmento Private, que sacaram R$ 3,54 bilhões no mesmo período.  

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Luciane avalia que os saques maiores das empresas podem ser explicados pelos compromissos do início do ano, como impostos e pagamento de dívidas. "Dada a insegurança e o cenário econômico adverso, as empresas estão adotando o comportamento de liquidar as dívidas, até mesmo porque o custo do crédito subiu e não é vantajoso rolar", diz Luciane. 

De forma geral, não só na indústria de fundos mas na caderneta de poupança a captação também ficou negativa em março, quando os resgates foram superiores às aplicações em R$ 11,4 bilhões, o pior desempenho mensal da história, segundo o Banco Central. Para se ter uma ideia, em 1999 os resgates no acumulado do ano eram de R$ 8,7 bilhões, superiores às aplicações. 

"É difícil mapear para onde estão indo os recursos de empresas e consumidores. Acredito que ambos devem estar usando os recursos para o pagamento de dívidas e de despesas, que também subiram por causa da inflação elevada. Outra parte pode estar indo para investimentos no exterior", afirma a diretora.

Por categoria de fundo, a maior saída foi dos multimercados, com saques de R$ 18,56 bilhões no primeiro trimestre, seguido de R$ 5,17 bilhões de fundos de ações. Por outro lado, os fundos que mais receberam aplicações foram os de curto prazo, com R$ 9,32 bilhões e de Previdência com R$ 6,85 bilhões. 

O fundo referenciado DI recebeu R$ 5,28 bilhões em aplicações, movimento que está em linha com a postura mais conservadora dos poupadores neste período de juros altos e de busca por liquidez (possibilidade de resgate sem perda do valor). 

Em termos de rentabilidade, os destaques, segundo a Anbima, foram os fundos de renda fixa índices, que tem em sua composição títulos atrelados à inflação, e ofereceram retorno de 3,54% no trimestre. 

Os fundos de renda fixa renderam 3,16% no trimestre e os referenciados DI, 2,85%. 

No curto e longo prazo, a maior rentabilidade foi a do fundo multimercado macro, com 8,72% no período. "Refletiu estratégias de longo prazo certeiras, com exposição ao dólar e alguns setores da bolsa que podem ter contribuído para esse movimento", diz Luciane. 

Os fundos de ações iniciaram o ano com um cenário adverso e quem mais perdeu foram os que acompanham pequenas empresas, do tipo small caps, que tiveram queda de 3,82% no trimestre. Já os fundos Ibovespa Ativo, que buscam superar o índice da bolsa de valores, renderam 3,71%. 

A expectativa de Luciane é que a melhora do cenário macroeconômico traga de volta o fluxo de recursos para os fundos. "Somos atrativos em taxas de juros real e nominal e com capacidade de atrair recursos no Brasil e no exterior. Alguns sinais apareceram nas últimas semanas, com o real se valorizando. Estamos confiantes no trabalho do governo para atingir a meta de superávit. Até o fim do ano estamos otimistas com o cenário econômico e o retorno do fluxo para os fundos", diz. 

EMPRESAS CAPTAM MENOS

Balanço da Anbima mostra que a captação de empresas brasileiras neste primeiro trimestre foi de R$ 10,1 bilhões, o pior dos últimos sete anos, na comparação com igual período dos anos anteriores. 

As operações foram concentradas na renda fixa, com destaque para as emissões de debêntures (títulos de dívidas de empresas), que responderam por 81,5% das emissões. O mês de março foi o quinto mês consecutivo sem operações de captação das empresas na bolsa de valores. 

Segundo a entidade, as debêntures movimentaram R$ 8,2 bilhões nos primeiros três meses do ano, enquanto as notas promissórias responderam pela captação de R$ 1,2 bilhão. Por causa das incertezas na economia, os prazos têm sido reduzidos. Houve aumento de participação de debêntures de até três anos para 51,4% do total de operações, participação que era de 38,2% no ano passado. 

Para Carolina Lacerda, diretora da Anbima, o problema é que o mercado espera algum evento que traga otimismo para a economia. "O cenário de alta de juros faz as empresas captarem recursos em prazos mais curtos e limitarem os planos de investimentos para o mínimo necessário", diz. 

Segundo ela, o mercado espera o balanço auditado da Petrobras para destravar os financiamentos necessários para a companhia. Na avaliação de Carolina, isso ajudará as outras empresas do setor de óleo e gás e de construção civil, que acabaram sendo associadas ao escândalo da Petrobras, a captar também.

Uma tendência que ela aponta para este ano é de crescimento das captações por meio de notas promissórias e debêntures, já que os empréstimos dos bancos privados estão mais restritos e há também a intenção do governo de reduzir os subsídios das operações por meio do BNDES (Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social).



Os fundos registraram captações líquidas de R$ 89,7 bilhões no acumulado do ano até novembro, de acordo com informações da Anbima

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