São Paulo, 25 de Setembro de 2016

/ Finanças

Cada vez mais a Geração Y tem sido atraída pela Bolsa de Valores
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Propensão a riscos e pressa no retorno levam jovens entre 18 e 30 anos a investirem seus ganhos no mercado de ações

Foto: Paulo Pampolin / Hype

Como a Geração Y pensa em investimentos? Para os jovens entre 18 e 30 anos (também chamados millenials), imediatistas, individualistas e ultraconectados, a ideia é crescer profissionalmente rápido e, claro, ganhar muito dinheiro no curto prazo. Na mesma velocidade em que acessam o Facebook, ouvem música no iPod e, entre um selfie e outro, podem ter uma boa ideia e até criar uma startup, muitos desses jovens chegam ao mercado de trabalho ganhando muito dinheiro.

Mais propensos ao risco, em buscar informações em tempo real e à rentabilidade no curto prazo, esse público "ansioso" tem sido cada vez mais atraído pela bolsa de valores, onde as aplicações e o retorno podem ser acessados com um clique. Por sua vez, corretoras de valores também têm apostado bastante nesse filão, com home brokers online ou cursos e palestras voltados à educação financeira e de formação de investidores.

"Atraímos esse público jovem porque nossa base de corretagem é feita pela internet, com forte atuação nas redes sociais – o que faz com que acessem as informações de maneira mais fácil", explica Monica Sacarelli, diretora da Rico Investimentos. "Por ficarem conectados '24 horas', se mantém bem informados sobre investimentos porque buscam independência, e por isso querem fazer tudo sozinhos – e sem recomendações do gerente do banco", completa.

Na XP Investimentos, a situação é semelhante: de 35% a 40% da carteira de clientes faz parte da faixa etária entre 18 e 30 anos e apresenta "interesse acima da média" pelo mercado acionário – atração facilitada pelo aplicativo Mobile que permite comprar e vender ações pela internet, segundo Eduardo Glitz, diretor de varejo da XP. "Eles são mais dispostos a aprender e, como não têm família para sustentar, a princípio, não têm preocupação tão grande com a segurança desse dinheiro e são propensos a arriscar mais", diz.

Por outro lado, na Easynvest Título Corretora, que também opera online, a procura desses jovens foi maior na época dos grandes IPOs (oferta pública inicial de ações, na sigla em inglês), como a do Facebook – tanto que, na época, a corretora até montou um programa para jovens voltados até 22 anos, que cresceu muito e até incluía isenção de corretagem – desde que obedecesse a alguns critérios de investimento, diz o diretor Amerson Magalhães. Mas, como depois de 2009 o mercado reduziu, pode-se dizer que hoje eles se igualam aos números de mercado (na BM&F Bovespa, investidores pessoa física com idade entre 16 e 35 anos representam pouco mais de 5% do total), afirma Magalhães. "Nos últimos cinco anos, o mercado andou de lado ou começou a cair e a procura diminuiu. E com esse público, não foi diferente".

EDUCAÇÃO É FUNDAMENTAL

Mas, apesar de todas as aparentes facilidades para investir ou buscar informações sobre ativos, parte importante do processo é a conscientização desses jovens da importância de manter um investimento – inclusive para o longo prazo. Na Rico, por exemplo, há uma equipe especializada "para falar com a Geração Y" acostumada a só olhar para o curto prazo, como comprar um carro, viajar ou estudar fora, mas não busca nada para algo considerado "muito distante" como a aposentadoria, diz Monica Sacarelli. Portanto, além dos cursos e palestras, a recomendação geral para esse público é investir nos ativos mais conservadores como renda fixa ou tesouro direto. "Apesar desse jovem ter muitas informações sobre o mercado de ações, ainda é um mistério para eles, então, mostramos que ele também se encaixa em um horizonte de investimentos para o longo prazo", afirma.

Na XP, que há dez anos atua no "mundo da educação de investidores", segundo Eduardo Glitz, parcerias com universidades, que incluem o "laboratório de capitais" da PUC-RS, ajudam a incentivar a Geração Y a conhecer mais esse universo. "Como esses jovens têm recursos para operar pela internet, eles aprendem a acompanhar o mercado e até compram sozinhos sua primeira ação", ressalta. 

"Elevei tanto meu conhecimento que me considero acima da média do investidor brasileiro" - Guilherme Bonato, 25 anos

Por outro lado, o diretor de varejo diz que a função principal da corretora é mostrar que existe sim o lado do risco em aplicar no mercado acionário. "Orientamos a distribuir as parcelas do investimento de forma diversificada em ativos diferentes para não perder dinheiro. Formar pessoas conscientes de que terão uma boa experiência quando começam a investir é melhor do que criar euforia sem saber", acredita.

Magalhães, da Easynvest, lembra que na euforia dos IPOs, muitos desses jovens começaram a abrir empresas de internet; outros até pensavam em abrir capital só para levantar fundos. "Mas faltou educação financeira na formação: vieram para a bolsa com dificuldade de entender a dinâmica de mercado e, pelo imediatismo, muitos queriam assumir riscos comprando ações de empresas como a OGX (do grupo de Eike Batista, que entrou em processo de recuperação judicial) só porque custavam centavos – mas esperando que se multiplicassem. Isso é falta de orientação", alerta.

Para mudar esse quadro, a Easynvest tem parceria com o site Investmania, espécie de rede social de investidores onde a comunidade em geral pode trocar ideias com analistas e profissionais da área. "O investidor precisa aprender para basear decisões em estudos, não em 'achômetros'. Parece trabalhoso, mas com tempo e prática, logo se pega o jeito", conclui Magalhães.

DINHEIRO DE GENTE GRANDE

Altos ganhos em prazos curtos, mas já com noção da importância de investir a longo prazo. E sem se desconectar de seus gadgets, como o smartphone, para acompanhar o mercado de ações. Esse é o perfil de Guilherme Bonato, um típico representante da Geração Y: aos 25 anos, é bancário em uma grande instituição  financeira do País, e já tem uma carteira de investimentos significativa, que inclui dos mais conservadores, como poupança e CDBs, aos de maior risco (seus preferidos), como a bolsa e os fundos imobiliários.

"Sempre fui meio desorganizado para poupar", confessa Guilherme, que sempre teve interesse em "ganhar muito dinheiro quando ficasse 'grande'". Sob influência de amigos, decidiu procurar informações sobre investimentos – inclusive com profissionais qualificados. "Elevei tanto meu conhecimento que me considero acima da média do investidor brasileiro, com meu nível de escolaridade e a pouca idade", diz, com a confiança típica dos jovens de sua geração. 

Guilherme conta que, por estar inserido na tal Geração Y, também conhecida por Millennials, sempre teve a expectativa de alto retorno em pouco tempo "como qualquer jovem que teve uma boa formação (ele é formado em administração pela ESPM, e pós-graduado em finanças corporativas e investment banking pela FIA-USP) conseguiu um bom cargo em apenas cinco anos de experiência", afirma. "Minha expectativa é crescer na empresa, continuar investindo para garantir bons retornos, ter um alto padrão de vida e uma aposentadoria tranquila com o recebimento dos dividendos das ações na bolsa e demais rendimentos", planeja.

A bolsa, inclusive, é onde Guilherme afirma ter uma quantidade maior de investimentos. "Acredito muito nela, e estudei bastante para saber analisar as empresas na hora de aplicar. (A bolsa) Não é bicho-de-sete-cabeças, mas o brasileiro é  receoso, não tem cultura de investir e, em geral, não sabe que nela os retornos podem ser maiores que em qualquer investimento. É a velha máxima das finanças: quanto maior o risco, maior o retorno. Não vale olhar a cotação diariamente, senão você vai ficar maluco!", brinca.  

Para os jovens que, como ele se interessam pelo assunto, Guilherme arrisca dizer que "não há manual para isso": a dica é ter noção do tipo de investimento que se quer fazer e a finalidade. "É imprescindível diversificar para diluir os riscos. Mas o essencial é estudar, se informar. Defina uma meta: quanto investir, para quê, onde e quando sair do investimento", diz ele, com a confiança característica dos millennials. 

FOCO NA MISSÃO

Desde que o mundo é mundo, o jovem é impulsivo, quer tudo para já e tem uma visão narcisista: a diferença hoje é que, por serem conectados e terem acesso ilimitado às informações, e por isso mesmo, não sabem o que querem, é um processo que tem se tornado mais agudo – inclusive no que se refere aos investimentos.

A opinião, da educadora financeira Cassia D'Aquino, aponta para outra questão: como fazer um jovem com menos de 25 anos pensar no tempo que virá – o que inclui o comportamento de finanças de longo prazo. "É pedir aos céus o que eles não podem dar. É difícil bater na tecla de criar ideias de longo prazo e de suportar a espera para usar o dinheiro. O ideal é estimular esse jovem a fixar objetivos desde sempre", diz.

"Nessa fase da vida, o jovem deveria se preocupar com o desenvolvimento dos próprios talentos, e não só pensar em ser rico aplicando dinheiro na bolsa ou em virar executivo. A maioria se equivoca e se frustra", afirma Cassia. Outra característica comum é ficar em casa ad aeternum por não encontrar o emprego dos sonhos, pensando "se não for isso, nada mais interessa".

Portanto, em primeiro lugar o ideal é esse jovem saber o que se quer da vida, e se são objetivos de curto, médio e longo prazo para compreender que esta definição é que vai indicar o investimento mais adequado para ele. "Não é investir primeiro para depois ver o que vai fazer; é o caminho inverso. Do contrário, é juntar por juntar", afirma. Se o jovem for estimulado a traçar metas desde sempre, segundo a educadora, ele se dará conta, aos 30 anos, que haverá tempo para ter plano de previdência, por exemplo. "O importante é que, mesmo jovem, ele se habitue a essa ideia", diz. 

Cassia recomenda, além de estabelecer objetivos ("para jovens, isso é mais difícil do que compreender investimentos", diz), é preciso refletir sobre o tipo de maturidade que pretende ter quando chegar aos 40 anos. "É um exercício de abstração que mostra como organizar finanças em diferentes modos de tempo, e daí, aprender e se informar considerando o roteiro. Quando se fala em investimentos, o certo não é se informar sobre o quanto se pode ganhar, mas o risco que se corre. Esse é o ponto que quase sempre a gente pula", finaliza.

por Karina Lignelli



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