São Paulo, 27 de Setembro de 2016

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Alerta aos lojistas: as dívidas dos inadimplentes estão crescendo
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Levantamento da Boa Vista SCPC revela que, entre dezembro e março aumentou de 16% para 24% a proporção de inadimplentes sem condições de saldar os débitos

A retração da economia tem exigido largas doses de habilidades empresariais para tocar os negócios. O corte de custos se tornou um dos temas principais nas mesas de reuniões.

Só que o comércio vai ter agora de dar mais atenção a um assunto que estava relativamente fora do radar das grandes preocupações: a inadimplência.

As dívidas em atraso dos brasileiros continuam sob controle, para alívio dos lojistas. A taxa de inadimplência líquida em março foi de 4,6% sobre a venda financiada, segundo dados do Instituto de Economia da Associação Comercial de São Paulo (ACSP).

Esse percentual é bem inferior ao registrado em setembro de 1998, de 18%, época em que o Brasil assistiu à quebradeira de grandes redes de lojas como Mappin, Mesbla, Arapuã e G. Aronson.

Mas o comércio precisa ficar de olho nas dívidas em atraso porque o cliente inadimplente dá sinais de que enfrenta dificuldade para quitar ou renegociar os débitos. Mais: suas dívidas são superiores às de 2014. 

 

LUCIANA: "NÃO CONSIGO PAGAR AS DÍVIDAS"

O caso da diarista Luciana Costa, 44, é exemplar. Ela acumula dívidas de R$ 7.000 com dois bancos (Santander e Itaú). Há três anos, diz, os débitos não ultrapassavam R$ 1.500. “Perdi o emprego e não consegui pagar as dívidas do cartão de crédito. Como é que sem emprego vou pagar tudo isso? Simplesmente, não vou. Os juros dos bancos são abusivos”, afirma.

A situação financeira de Luciana foi identificada em levantamento realizado em março pela Boa Vista SCPC com mil consumidores inadimplentes - 24% deles informaram que não têm condições de quitar suas dívidas. Na pesquisa anterior, de dezembro do ano passado, esse percentual era menor, de 16%.

Os inadimplentes também estão com mais contas em atraso neste ano do que no ano passado. Em março, 40% dos entrevistados tinham uma conta em atraso. Eram 47% em dezembro. No caso de quatro contas em atraso, o percentual subiu de 13% para 18%. Significa que está diminuindo o número de inadimplentes com apenas uma conta em atraso e aumentando o número daqueles com mais de uma conta.  

Há mais um dado capaz de tirar o sono dos lojistas. Em março, 30% dos inadimplentes possuíam mais de 50% da renda comprometida. Em dezembro passado, este percentual era menor, de 23%.

“É o reflexo da situação da economia brasileira. O orçamento do consumidor está mais apertado por conta do aumento da inflação, dos juros. Tudo está mais caro. O mercado de trabalho também piorou”, diz Flávio Calife, economista da Boa Vista SCPC.

A taxa de desemprego, que estava em 5% em março do ano passado, subiu para 5,9% em fevereiro deste ano e para 6,2% no mês passado. A massa salarial dos trabalhadores caiu 3,8% em março deste ano sobre igual mês de 2014.

“É um importante sinal de alerta para os lojistas. Quem não estiver capitalizado vai ter de cuidar muito bem do fluxo de caixa. É preciso evitar grandes estoques”, afirma Emílio Alfieri, economista da ACSP.

O desemprego continua sendo citado como a principal causa da inadimplência (para 35% dos consumidores), segundo a Boa Vista SCPC. Outros motivos são: descontrole financeiro (28%), diminuição de renda mais despesas extras (17%), empréstimo do nome a terceiros (11%) e outras razões (9%). O desemprego tem afetado, principalmente, as famílias com renda mensal de até três salários mínimos.

Quais foram os produtos adquiridos que levaram o consumidor à inadimplência? perguntou a Boa Vista SCPC para os inadimplentes. Móveis, eletrodomésticos e eletrônicos aparecem em primeiro lugar, citados por 25% dos entrevistados. Contas de IPVA, IPTU, condomínio, academia e educação, em segundo (17%).

Os consumidores também mencionaram: vestuário e calçados (16%), alimentação (15%), contas de água, luz e gás (14%), empréstimo pessoal (7%), materiais de construção (4%) e financiamentos de casa e veículos (2%).

 

MÁRCIA CRISTINA:QUERO NEGOCIAR

Márcia Cristina Dias, 37, técnica de nutrição, perdeu o emprego em 2012. Descobriu ontem (28/04) no Serviço Central de Proteção ao Crédito que tem dívidas da ordem de R$ 1.300 com uma loja de roupas e com um supermercado.

“Quero renegociar”, disse ela. Ela teve mais sorte que a diarista Luciana. Surgiu uma vaga de cuidadora social que ela vai preencher a partir de maio.

A renegociação de dívidas é a melhor forma de lidar com a inadimplência dos clientes, na avaliação de Ubirajara Pasquotto, presidente da Cybelar. Com 140 lojas no interior de São Paulo e Sul de Minas, a rede tem oferecido prazos de até 12 meses para o cliente quitar débitos em atraso. E tem dado certo.

Na Cybelar, a inadimplência (acima de 90 dias) subiu um ponto percentual do primeiro trimestre de 2014 para o primeiro trimestre deste ano, de 4,1% para 5,1%.

"Se antes o cliente tinha duas dívidas, agora ele tem quatro. A gente percebe que ele está arrastando o pagamento, mas acredito que vai se adequar. Até o meio do ano pode ser meio ruim para o consumidor, mas depois melhora”, diz Pasquotto.

O inadimplente, segundo ele, está muito mais preocupado em limpar o nome do que já esteve no passado. “Ele quer resolver, não existe mais aquela disposição do calote em geral. Ele também nos procura. Por isso, em março, fizemos uma operação na qual demos descontos de 50% nos juros atrasados e muita gente renegociou”, afirma o presidente da Cybelar.

Se o desemprego subir, aí, sim, os lojistas vão sentir o impacto da inadimplência, na avaliação de José Domingos Alves, supervisor geral da Lojas Cem, rede com 226 lojas no interior de São Paulo, Paraná, Minas Gerais e Rio de Janeiro.

 “Por enquanto, para nós, a inadimplência está estável em 5% no caso dos atrasos acima de 60 dias”, afirma. Mas há uma preocupação, diz ele, em relação aos próximos meses.

Em um encontro de empresários promovido ontem (28/04) pelo Lide (Grupo de Líderes Empresariais), com a participação de cerca de cem representantes da indústria, do comércio e dos serviços não houve demonstração de otimismo em relação ao emprego.

“Nesses encontros costuma-se fazer uma rápida pesquisa entre os empresários para avaliar tendências. No último encontro, 30% dos empresários informaram que estavam demitindo. Hoje, este percentual subiu para 45%. Empresas do setor de eletrodomésticos, por exemplo, já começaram a dar férias coletivas. Isso poderá ter grande impacto no comércio, com aumento da inadimplência”, diz Domingos Alves.

O endividamento das famílias, em crescimento, também preocupa os lojistas. No final do ano passado, 46,21% das famílias brasileiras estavam endividadas. Em janeiro deste ano, este percentual subiu para 46,35%, a taxa mais elevada desde outubro do ano passado, segundo dados do Banco Central (BC).

“As famílias estão mais endividadas e a inadimplência deve piorar, mas não deve haver um desarranjo no mercado consumidor capaz de comprometer a atividade de crédito do país, até porque o crédito vai ter um custo maior por conta do aumento dos juros”, afirma Fábio Silveira, diretor de pesquisa da GO Associados.

COMO REAVER O CRÉDITO

A inadimplência está sob controle, como tem informado os lojistas e as instituições que acompanham o indicador. Mas em um momento em que o consumo está mais fraco qualquer atraso no pagamento de prestações tem impacto no caixa das empresas. Como reaver esse dinheiro?

Para João Carlos Natal, consultor de finanças do Sebrae SP, antes de o lojista entrar em uma briga com o cliente inadimplente, ele deve negociar em ele. E uma negociação que tem dado certo, diz, é o parcelamento da dívida no cartão de crédito.

“O parcelamento em dez vezes no cartão de crédito é a forma mais rápida de o lojista receber o dinheiro. Isso é bom para o empresário e para o cliente”, diz ele.

Outra recomendação do consultor é que o lojista e o cliente se utilizem do serviço Posto Avançado de Conciliação Extraprocessual, uma parceria entre o TJSP (Tribunal de Justiça de São Paulo) e a ACSP. O posto auxilia na negociação de dívidas com o comércio e também com as instituições financeiras. É um serviço gratuito.

“O lojista precisa ser ainda mais rigoroso com a análise de crédito, utilizando os serviços de empresas especializadas. Também não deve vender sem nota fiscal. Se não, não vai conseguir cobrar a dívida do cliente”, diz.

Natal diz que o lojista deve adotar a mesma prática das instituições financeiras. “O banco aumenta os juros quando prevê o aumento de inadimplência", afirma. "Faz com que aqueles que estão tomando o empréstimo paguem pelos que estão devendo. Se o mercado permitir, o lojista deve embutir o custo da inadimplência no preço de venda. Não tem jeito.”

 



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