São Paulo, 30 de Setembro de 2016

/ Economia

"Vamos ter dois anos de ajustes", afirma economista e consultor
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Nelson Barrizzelli recomenda que as empresas mantenham dinheiro em caixa para não correr riscos

A perda de fôlego de consumo da maior classe social do país, revelada por alguns indicadores econômicos, deve resultar em um final de ano fraco, com forte impacto nas empresas, principalmente dos setores de roupas, calçados, móveis, eletroeletrônicos e carros. A avaliação é do economista e consultor Nelson Barrizzelli. Para este período mais recessivo, ele recomenda às empresas: “Dê preferência para a liquidez. Isto é, mantenha o dinheiro em caixa, sem correr riscos. Não é momento para investir”. Isso vale também para os consumidores. A seguir, trechos da entrevista:

Diário do Comércio – Com o aumento da inflação neste ano, o que já resultou num processo de downtrading de marcas, é possível afirmar que a classe C vai voltar a enfrentar aquele período de forte alta de preços de 20 anos atrás?
Nelson Barrizzelli – Estamos longe daquela situação de hiperinflação, quando, durante meses, vivemos uma inflação diária de 2%. A inflação mensal agora está em torno de 0,5%. Porém, naquele tempo, nós tínhamos a economia totalmente indexada à inflação, o que minimizava as perdas. Quem sofria era justamente a classe menos favorecida, que não conseguia se defender. Agora, não há dúvida de que hoje as pessoas das classes C e D estão sentindo o peso da alta dos preços no orçamento. Tanto que há retração nas compras em praticamente todos os setores. De forma gradual, o Brasil está parando. A atividade econômica está diminuindo gradativamente desde o início deste ano.

O que o Brasil viveu nos últimos anos corre o risco de se perder?
Vivemos nos últimos 20 anos com a sensação de uma moeda estável. Os salários subiram consistentemente acima da inflação, o crédito, pela primeira vez, se tornou fácil e farto e, como consequência, as pessoas das classes C e D tiveram maior facilidade para o consumo. É evidente que essa situação não tinha a mínima possibilidade de perdurar para sempre. Somente quem não entende nada de economia pode imaginar que o consumo seria tocado no formato “moto-perpétuo”. Isso tem limites, principalmente em países como o Brasil, onde o governo gasta mais do que arrecada. Não acredito que vamos perder tudo o que foi conquistado no período 2004-2010, mas, nos últimos quatro anos, as decisões do governo foram lamentáveis e nada do que foi tentado deu certo. Agora, portanto, virá o período de ajustes, que nunca é muito agradável.

Qual será o reflexo desta situação para as empresas?
As empresas responsáveis já estão se perguntando até onde irá o ajuste macroeconômico necessário para colocar o país nos trilhos. Sem dúvida, vamos ter pelo menos dois anos de ajustes. Com as vendas em queda, já se prevê um Natal magro, provavelmente, com as menores vendas reais desde 2009. Isso tem forte impacto na vida das empresas. A indústria automobilística está devagar, quase parando. Só alguém muito alienado vai assumir dívidas para pagamentos futuros, razão pela qual o setor de bens duráveis passa a sofrer mais do que os outros setores. Há também uma retração nas compras de roupas e bens semiduráveis e há alguns meses já começou a troca de marcas mais caras por outras de menor preço nos supermercados. Essa situação de incerteza em relação ao futuro ataca de frente todas as empresas, independentemente do seu porte ou setor de atividade.

E a classe C, será que vai cortar até Internet, TV a cabo, celular?
Não acredito, pelo menos em curto prazo. Provavelmente, se a situação piorar muito, a ordem de corte será TV a cabo, Internet e celular (só o pós-pago). Estes já são itens de conforto pessoal, dos quais as pessoas não devem mais abdicar.

Qual a sua recomendação para as empresas?
Desde o início deste ano, estou recomendando para as empresas que deem preferência para a liquidez. Isto é, que mantenham o dinheiro em caixa, sem correr riscos. Não é um momento para investir. Essa oportunidade vai aparecer alguns meses à frente, quando a economia estiver mais lenta, como consequência do necessário ajuste macroeconômico. As empresas com dinheiro e com dívidas apenas de longo prazo farão excelentes negócios, tanto no âmbito de sua atividade como pela oportunidade de expansão. Pode parecer paradoxal que, em épocas de recessão, algumas empresas terão a oportunidade de se expandir. Porém, isso acontece com quem se prepara com antecedência para esses períodos de menor atividade econômica, como agora.

ORIENTAÇÕES PARA AS EMPRESAS

Outros economistas e consultores de varejo entrevistados pelo Diário do Comércio compartilham as recomendações de Barrizzelli, no sentido de dar início a programas de corte de despesas e deixar os estoques bem adequados ao volume de vendas. Com a proximidade do final do ano, as empresas geralmente reforçam os estoques de roupas, calçados, eletroeletrônicos, brinquedos. Neste ano, a orientação é para que elas sejam mais cautelosas nos pedidos da indústria.

Outra sugestão dos consultores é para o comércio se manter firme e não ceder à tentação das promoções para compras de grandes volumes da indústria, dos prazos mais longos para pagamento. Se comprar demais, as lojas poderão virar o ano com estoques altos, e, com taxas de juros em alta, comprar com prazos longos acaba se tornando uma prática muito arriscada. 

Independentemente dos fatores conjunturais, os ganhos conquistados pela classe C permanecem, e disso não há dúvida. “95% dos domicílios dessa classe econômica compram hoje refrigerantes, o que deve se manter. Evidentemente que este período (de consumo mais contido) pode ser curto ou mais longo, mas não podemos perder a visão dos ganhos da classe C, o aumento do acesso a produtos. Só não podemos perder este movimento”, afirma Edgard Barki, professor da Escola de Administração de Empresas da FGV-Eaesp.

Esse maior conforto das famílias citado por Barki é identificado por levantamento de 2012 da PNAD/IBGE: 45% da classe média possuem computador; 41%, carro; 17%, smartphone, e 39% têm acesso à Internet. De um lado, isso mostra um avanço no bem-estar dos consumidores. De outro, revela que há espaço para mais conquistas dos brasileiros. Só 50% das famílias possuem lavadoras de roupa e 8%, televisores de tela plana.

Por conta da Copa do Mundo, as vendas de televisores subiram 16% no primeiro semestre deste ano, na comparação com igual período de 2013, segundo a Eletros, associação que reúne a indústria eletroeletrônica. No caso de fogões, geladeiras, lavadoras de roupas, as vendas já deram sinais de fraqueza: caíram 5%, em média, no período.

Lourival Kiçula, presidente da Eletros, diz que em julho e agosto algumas empresas venderam mais e outras, menos. No ano, a indústria da chamada linha marrom deve faturar mais que em 2013. A indústria de eletrodomésticos já deve vender o mesmo que no ano passado, segundo estimativa da associação.

Toda a euforia de consumo dos últimos anos teve um impacto surpreendente em uma das maiores redes de lojas de eletroeletrônicos do país. Com 221 pontos de venda nos Estados de São Paulo, Minas, Rio de Janeiro e Paraná, a Lojas Cem, que faturava R$ 1,45 bilhão há cinco anos, deve fechar este ano com receita da ordem de R$ 4,5 bilhões.

Para a Lojas Cem, por enquanto, o bom ritmo de vendas ainda se mantém. “A classe média está mais endividada, sim, mas, por enquanto, ela faz malabarismo para pagar as contas. Um mês paga um credor. Outro mês paga outro credor. A situação piora mesmo quando há desemprego, que aí, sim, leva à recessão”, diz José Domingos Alves, superintendente da empresa.

A empresa, segundo ele, está preparada para enfrentar um menor ritmo de vendas, pois tem o privilégio de comprar mercadorias para pagamento à vista, bancar o crediário em até 20 vezes com recursos próprios, sem, portanto, ter parceria com bancos. “Pagamos os fornecedores em até 30 dias, no máximo”, diz ele. 

Se só o desemprego pode abalar a Lojas Cem, a empresa deve ficar atenta, pois as projeções não são das mais otimistas. É que a taxa de desemprego, estabilizada em torno de 5%, também poderá sofrer alteração, e para pior.

Na medida em que as famílias ficam com o orçamento mais apertado, quem estava só estudando, por exemplo, pode tentar voltar para o mercado de trabalho. Se cresce o número de pessoas que procuram emprego, a tendência é de a taxa de desemprego subir. Aí, sim, nem as empresas mais organizadas em finanças, compras, vendas, estoques, pessoal vão deixar de sentir o impacto da retração do consumo.



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