Economia

Três pistas para entender a desigualdade de renda no Brasil


Novos estudos corrigem as distorções constatadas quando os brasileiros mais ricos são entrevistados pela Pesquisa Nacional por Amostragem Domiciliar (Pnad), do IBGE


  Por João Batista Natali 19 de Setembro de 2017 às 13:00

  | Editor contribuinte natali@uol.com.br


Três estudos põem o dedo nas duas feridas doloridas da sociedade brasileira: a pobreza e a desigualdade de renda.

São, pela ordem:

1) trabalho do sociólogo Pedro Souza (Ipea e UnB), mostrando que, entre 2016 e 2013, se manteve a desigualdade de renda;

2) dados mais recentes do FGV Social, demonstrando que, com a recessão, 6 milhões voltaram à pobreza; e

3) estudo da instituição dirigida pelo economista francês Thomas Piketty, revelam que os mais ricos abocanharam uma parcela maior que os mais pobres, na riqueza gerada entre 2001 e 2015.

Uma ressalva inicial. Não se trata de uma discussão política para saber se o Partido dos Trabalhadores “enganou” a população, ao afirmar que a diferença entre ricos e pobres diminuiu durante os governos de Lula e Dilma (2003-2016).

A questão é bem mais técnica, e envolve o perfil de um mercado, que efetivamente cresceu antes que a recessão se instalasse.

Para um lojista, por exemplo, interessa muito mais a afirmação do especialista Marcelo Neri, diretor do FGV social, um periscópio sobre a renda instalado no Rio de Janeiro.

Ele disse à Folha nesta segunda-feira (18/09) que entre 2003 e 2014 o varejo cresceu 112%, número bem superior aos 62% de aumento da renda média dos brasileiros ou de 28% do aumento do PIB.

Ou seja, os brasileiros, sobretudo os mais pobres, passaram a comprar mais, e é isso que prioritariamente interessa.

O problema, no entanto, está em saber se o crescimento do varejo poderia ser maior, caso a distribuição de renda não fosse tão visceralmente desigual.

OS NÚMEROS DO IBGE

O país tem a sorte de possuir uma instituição com o apartidarismo e o padrão técnico do IBGE, que desde o censo de 1960 também registra a renda dos brasileiros.

E que publica periodicamente a Pesquisa Nacional por Amostragem Domiciliar (Pnad), uma referência para o mercado e para os estudos acadêmicos.

Pois bem, pela Pnad, a renda dos 10% mais ricos diminuiu entre 2001 e 2014. Eles tinham 47,4% das riquezas, e passaram a ter 40,9%.

Esses dados foram obtidos por meio de entrevistas. Mas nem sempre por má vontade ou segundas intenções, os mais ricos deixam de atender os pesquisadores ou então omitem a renda que recebem de aluguéis, investimentos ou dividendos de empresas.

Ou seja, o retrato obtido pelo IBGE poderia, teoricamente, subestimar o tamanho da riqueza dos mais ricos.

O que foi confirmado na prática, de acordo com pesquisa publicada pelo sociólogo Pedro Souza. Ele procurou corrigir a subnotificação dos mais ricos, por meio de dados do Imposto de Renda das pessoas físicas.

Esses dados estão disponíveis apenas a partir de 2015, quando a Receita Federal passou a coletar informações para esse tipo de estudo.

Entre 2006 e 2013, os 15% mais ricos permaneceram como donos de uma parcela ligeiramente maior das riquezas. Os mais pobres ganharam espaço – formalidade do emprego, 50% do aumento real do Salário Mínimo -, mas os mais ricos não saíram perdendo.

Esse mesmíssimo fato foi retomado pelo economista Marc Morgan, do World Wealth and Income Database, o instituto dirigido por Piketty.

Duas constatações do trabalho, que também corrigiu os números da Pnad pelos dados do IR das pessoas físicas.

Primeira: os 10% mais ricos, entre 2001 e 2015, passaram de 54% para 55% da renda nacional. Os 50% mais pobres passaram de 11% para 12%, e a faixa intermediária perdeu 2 pontos percentuais.

Segunda, e muitíssimo mais importante: com a expansão econômica do período, os mais ricos ficaram com 61% das novas riquezas, enquanto os mais pobres só abocanharam 18%.

Ou seja, não ocorreu uma diminuição da diferença entre quem tem muito dinheiro e quem não tem quase nada. Ao contrário de um dos axiomas políticos que circulava nos governos do PT. E não necessariamente por má fé, já que eles se apoiavam no IBGE.

AUMENTO DA POBREZA

Não bastassem esses indicadores, eis que o FGV Social, instituição de maior capilaridade em questões sociais, divulga estudo segundo o qual a pobreza não apenas deixou de cair (ela chegou a 8,4% em 2014), mas também subiu barbaramente e chegou a 11,2% em 2016.

Esses chamados “novos pobres” totalizam 5,9 milhões de brasileiros. São aqueles que haviam deixado de ser pobres, mas voltaram a sê-lo com a recessão.

Mesmo assim, eles ainda compõem um contingente bem menor que os 27,9% dos pobres, registrados em 2003.

Em tempo. Tecnicamente, é pobre alguém cuja renda domiciliar per capita seja inferior a R$ 223 por mês.

O FGV Social, dirigido pelo economista Marcelo Neri, que já presidiu o Ipea e foi ministro de Assuntos Estratégicos de Dilma Rousseff, não traz apenas más notícias.

A renda média que no quarto trimestre de 2014 estava em R$ 809 e despencou para R$ 754, no terceiro trimestre do ano passado, já recuperou um pouco de espaço e chegou a R$ 773.

Outro dado desse setor da FGV-RJ: com a crise econômica, os 10% mais pobres perderam 11,4% de renda. Bem mais que os 7,4%, segundo o estudo, perdidos pelos mais ricos.

FOTO: Favela da Rocinha/Fernando Frazão/Agência Brasil