São Paulo, 27 de Setembro de 2016

/ Economia

São Paulo é a segunda da classe em matéria de empreendedorismo
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A capital paulista ficou atrás de Florianópolis numa pesquisa sobre as melhores cidades para novos negócios. Esse desempenho se deve à lentidão da burocracia e à elevada carga tributária

São Paulo é uma cidade de exageros: uma população que ultrapassa 10 milhões de habitantes concentrados numa área de 1.530 km², uma frota de 5,4 milhões de veículos, além de ser o município com o maior PIB do Brasil e o 10º do mundo. Com números tão expressivos, era de se esperar que cidade fosse o melhor lugar do Brasil para montar um novo negócio, mas um estudo lançado recentemente pela Endeavor, organização de fomento ao empreendedorismo, mostrou que situação não é bem essa.

A capital paulista ficou em segundo lugar na pesquisa, atrás de Florianópolis. “A capital de Santa Catarina foi equilibrada na maioria dos pontos avaliados, o mesmo não aconteceu com São Paulo que teve bom desempenho em alguns quesitos e deixou a desejar em outros”, afirmou Juliano Seabra, diretor geral da Endeavor Brasil.

O estudo, realizado pela primeira vez no Brasil, analisou 14 capitais e levou em consideração diversos índices que vão desde o tempo médio para abrir uma empresa na cidade, passando pela renda per capita, até dados sobre a cultura empreendedora da região.

A pesquisa pode ser comparada a um boletim escolar: todos os pontos foram reunidos em sete grandes pilares, ou, no caso as disciplinas. Cada uma das cidades recebeu notas de zero a dez, dependendo do desempenho em cada um dos índices analisados. No final, os valores foram somando e divididos de acordo com seu peso, e cada capital recebeu sua nota média. O estudo também traz um relatório de avaliação sobre cada um dos pontos fortes e os desafios que essas cidades devem enfrentar.

Se São Paulo fosse um aluno, ele seria o primeiro da sala em mercado, acesso a capital e inovação, ficaria na média da classe em infraestrutura e capital humano, e reprovaria de ano em cultura empreendedora e ambiente regulatório. Somando todas as notas a cidade ficou com uma média de 7,46 e Florianópolis com 7,53. 

AMBIENTE REGULATÓRIO: BUROCRACIA E ALTA CARGA TRIBUTÁRIA

Um dos pontos levantados pela pesquisa revela que São Paulo tem uma das piores médias em tempo de processos. O índice abrange desde o tempo de abertura de uma empresa e de obtenção de energia elétrica, até a taxa de congestionamento nos tribunais. De acordo com Juliano Seabra, muito pode ser feito para reduzir a burocracia:

“Nos últimos dois anos, a prefeitura se esforçou para reduzir o tempo de abertura de empresas que já caiu de 100 para 36 dias. Mas é necessário simplificar ainda mais. A cidade é uma das que mais demoram em aprovar projetos arquitetônicos, e uma medida simples como separar o alvará de funcionamento do habite-se ajudaria muito nesse processo”, afirma o diretor da Endeavor.

André Leme, sócio da Bain & Company, empresa que ajudou a formular a estudo, acredita que a solução para esse problema vem da capital de Goiás: “São Paulo pode aprender muito com a experiência de Goiânia, há alguns anos atrás foi implantado um sistema [Vapt Vupt Empresarial] que reuniu num mesmo lugar todos os órgãos responsáveis pelos registros das empresas”, diz Leme. Hoje, a cidade do centro-oeste é o lugar onde o processo para abrir uma empresa é o mais rápido do Brasil: 32 dias, em média.

Mas a questão não é apenas tempo é também dinheiro. Se por um lado, a cidade de São Paulo se destacou nos pilares que estavam ligados principalmente acesso ao crédito e investimentos, desenvolvimento econômico e clientes em potencial. Por outro, a carga tributária que incide sobre os empreendedores da capital paulista está entre as piores, perdendo apenas para Salvador. A posição se deve principalmente a alíquota de impostos efetivos sobre PMEs e ao alto valor do IPTU.

CAPITAL HUMANO E INOVAÇÃO: REFORÇO NA EDUCAÇÃO

Apesar dos empecilhos citados acima, São Paulo conquistou o primeiro lugar num quesito importante: inovação. De acordo com a pesquisa, a metrópole tem o maior número de pedidos de patente e os mais altos índices de gastos públicos com ciência e tecnologia – o Governo do Estado gasta 4,5% do orçamento com o setor, quase 8 bilhões de reais, o que representa o maior montante, tanto proporcional quanto relativo.

 “A capital e o Estado de São Paulo, de forma geral, não têm um polo que centraliza a inovação. As universidades como ITA, Unicamp e a USP são importantes para esse processo, mas essas empresas estão dispersas. O que existe é uma rede que favorece o surgimento de pesquisas, como a FAPESP (Fundação de Amparo do Estado de São Paulo)”, afirma Seabra.

Apesar de essas universidades serem uma referência, a capital enfrenta um problema em relação ao alcance da educação. A proporção de alunos com acesso ao ensino superior de qualidade ainda é baixo em São Paulo, se comparado a Vitória e Florianópolis. O impacto disso para as pequenas empresas paulistanas é que a mão de obra qualificada é escassa e mais cara dos que nas demais capitais.

CULTURA EMPREENDEDORA EM BAIXA

A capital paulista também teve fraco desempenho no pilar que se refere à disposição das pessoas a abrirem seus próprios negócios e a imagem do empreendedorismo na cidade. A terra da garoa recebeu a nota 5,05 e ficou na antepenúltima posição, o primeiro lugar ficou com Manaus.

“Em cidades que existem muitas ofertas de emprego, como é o caso de São Paulo, as pessoas têm várias oportunidades para crescer profissionalmente. Por isso, o empreendedorismo é apenas uma opção. O mesmo não acontece em capitais como Manaus e Belém. Nesses lugares, não há grandes chances de ascender socialmente e na carreira, por isso o empreendedorismo é a melhor alternativa para a maioria“, afirma diretor da Endeavor.

Além disso, a cultura empreendedora é algo recente no Brasil: “Esse tipo de pensamento é algo que se constrói com tempo e com os exemplos de empresários que conseguiram crescer a partir com um negócio próprio”, diz o sócio da Bain & Company.


SÃO PAULO EM RELAÇÃO A OUTRAS CAPITAIS

Para André Leme, a principal diferença entre São Paulo e Florianópolis – primeira colocada geral do estudo – está na qualidade de vida. “Além de importantes universidades e centros de inovação, a capital catarinense tem o melhor desempenho no índice de condições urbanas, que mede itens como segurança, tempo de deslocamento casa-trabalho e acesso a internet, enquanto São Paulo peca nesses mesmos quesitos”, afirma Leme. “Essas condições são importantes para que empreendedores consigam reter talentos e atrair essa nova geração que prioriza trabalhar em lugares em que pode desfrutar de uma boa qualidade de vida.”

Apesar das primeiras colocações, tanto São Paulo quanto Florianópolis precisam se aprimorar muito para alcançarem outras capitais empreendedoras do mundo, como São Francisco, na Califórnia: “Se colocássemos a região do Vale do Silício no estudo, ela teria uma nota próxima a 10, eles têm ótimo ambiente regulatório, um dos maiores PIB, universidades de ponta, conectividade com o mundo e qualidade de vida. As cidades brasileiras devem olhar isso como modelo”, diz Seabra. 



A fundação está em busca de ideias inovadoras. Os interessados têm prazo até 31 de outubro para apresentar propostas

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