São Paulo, 24 de Julho de 2017

/ Economia

Poder de compra dos brasileiros será limitado até 2026
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É o que projeta estudo da consultoria Tendências. O casal Maria José e Reynaldo (na foto) viu a renda mensal cair de R$ 3,5 mil para menos de R$ 1 mil

Até maio do ano passado, os rendimentos dos noivos Maria José, diarista de 38 anos, diarista, e Reynaldo Castan, manobrista de 50, somavam R$ 3,5 mil mensais.

Maria José já não trabalha mais de segunda a sexta-feira - somente três vezes por semana. Reynaldo foi demitido há cinco meses. A renda do casal despencou para pouco menos de mil reais.

O casal, até então inserido na classe C, de acordo com a classificação do IBGE (veja quadro abaixo), foi deslocado para as classes D e E, compostas por famílias com renda mensal de até R$ 2.166.

Agora fazem parte do imenso contingente de 4,4 milhões de famílias da chamada nova classe média que, entre 2015 e 2016, tiveram seu status rebaixado.

Em termos absolutos, somente em 2015, a classe D/E foi inflada em 2,7 milhões de famílias, volume que quase anula todo o processo de mobilidade social verificado entre 2006 e 2012, de acordo com estudo da consultoria Tendências.

No boom econômico, 3,3 milhões de famílias haviam migrado das classes mais baixas para a C. Até um grupo de famílias que já estava na C empobreceu em 2015 e 2016 por conta da recessão.

“O efeito mais dramático da crise é esse: em dois anos, o país perdeu tudo o que conquistou em mobilidade social em seis anos e mais um pouco”, afirma Adriano Pitoli, coordenador de Inteligência de Mercado da consultoria Tendências.

Até que Maria José retome os quatro dias de faxina que perdeu e Reynaldo se empregue novamente, na despensa da casa deles só entra arroz, feijão, macarrão.

“Costumava ter em casa vários tipos de iogurtes, carnes, linguiça”, diz Maria José. “Agora só compro um tipo ou simplesmente não compro. Refeições fora de casa e saídas para passar a noite em um hotel também acabaram, segundo Reynaldo.

Convém lembrar que, nos anos de hiperinflação que antecederam o Plano Real, iogurte era um dos itens de desejo das famílias situadas na base da pirâmide de renda. Voltou a ser considerado supérfluo, num movimento regressivo com consequências ainda não avaliadas da ótica social e política.

A HORA DA FARTURA

A Kantar Worldpanel, consultoria que monitora semanalmente o comportamento de consumo em 11,3 mil lares brasileiros (uma amostra do que acontece em 52 milhões de lares no país) identificou este movimento.

De 2009 a 2012, por exemplo, cerca de 10 milhões de novos domicílios brasileiros passaram a consumir bolos e sucos prontos, azeites, iogurtes e sorvetes.

Considerando apenas as famílias da classe C, 3,3 milhões de novos lares passaram a adquirir azeite entre 2009 a 2015. Os iogurtes entraram nas prateleiras de 740 mil domicílios.

Em 2009, de acordo com a consultoria, cerca de 8 milhões de famílias da classe C consumiam bolos prontos. Eram 13 milhões em 2014.

A VEZ DAS RESTRIÇÕES

Esse movimento, que se repetiu em relação a produtos que costumavam rechear apenas a mesa de famílias de maior poder aquisitivo, está agora em sentido oposto. Houve uma considerável mudança de hábitos.

Em 2015, 500 mil lares da classe C já haviam abandonado as compra de bolos prontos em 2015. Em 12 meses terminados em junho de 2015, 51,3% das famílias da classe C compravam bolo pronto. 

No mesmo período, terminado em junho 2016, 49,8%. Significa que 780 mil famílias deixaram de comprar o produto em um ano.

Em 12 meses -até junho de 2016-, mais de 350 mil lares abandonaram a compra de iogurtes; 286 mil, de detergente líquido para roupas; 924 mil, de fraldas descartáveis; 242 mil, de temperos; e 220 mil, de óleos especiais.

CAMILA RIBEIRO: ELIMINOU OS SUPÉRFLUOS DA LISTA DE COMPRAS

“Produtos supérfluos saíram da lista de compras”, diz Camila Ribeiro, 33 anos, profissional de RH desempregada desde 2014. Desde que foi demitida, a renda da família caiu de R$ 4,5 mil para R$ 3 mil mensais. Agora, só o marido trabalha.

“O bolso do brasileiro está apertado, e não há perspectiva de que essa situação mude tão cedo”, afirma Maria Andréa Ferreira Murat, diretora de marketing da Kantar Worldpanel.

É o que confirmam projeções do estudo da consultoria Tendências. A renda das famílias vai continuar em queda neste ano e a perspectiva é de débil crescimento ao menos até 2026.

O que o estudo prevê é uma queda de 1,9% na renda das famílias em relação ao ano passado. Esse número só voltaria a ser positivo em 2018 (alta de 1,9% sobre 2017), percentual que não chega nem perto do registrado em anos anteriores.

Em 2010, por exemplo, a massa de renda das famílias cresceu 8% em relação a 2009. Em 2014, aumentou 5% em relação a 2013. (Veja no quadro abaixo a evolução da renda das famílias).

LEIA MAIS: Por que a nova classe média foi expulsa do paraíso

As classes de menor renda que se beneficiaram do boom econômico vão sofrer mais nos próximos anos do que as de maior renda, de acordo com a Tendências.

Pitoli, da consultoria Tendências, tem uma explicação:

“Os setores de varejo e serviços, que empregam mão-de-obra menos qualificada são os que mais sofrem na crise e são, justamente, os que empregam pessoal de classe social mais baixa.”

No caso do varejo, a recessão em curso expõe um efeito historicamente devastador: 278,7 mil das 700 mil lojas em operação cerraram as portas nos dois últimos anos.

Foram 108,7 mil somente no ano passado quando houve número recorde de fechamento de estabelecimentos comerciais, e quase 360 mil demissões, de acordo com dados a Confederação Nacional do Comércio (CNC).

QUEDA NA RENDA

Com tudo isso, o poder de consumo da população foi erodido. Em relação especificamente à classe C, a Tendências projeta crescimento de renda de 1,2%, em média, no período de 2018 a 2021. É uma pequenas fração dos quase 12% de crescimento obtido em 2012.

“A partir de meados de 2018, tal fenômeno deve ser retomado, porém em ritmo mais lento do que o observado antes de 2013”, afirma o estudo. "As classes A e B deverão mostrar as taxas de crescimento mais elevadas nos próximos anos."

Já no caso das classes D e E, a projeção é de apenas 0,4% ao ano entre 2018 e 2021 e de 0,6% entre 2022 e 2026. Para a classe A, a alta seria de 3,6% e 3,5%, respectivamente, nos dois períodos período.

“Na classe A há também empregadores, e a expectativa é que as empresas devam, aos poucos, retomar os seus negócios. Por isso, a renda deve crescer mais do que a de classes mais baixas”, afirma Pitoli.

A queda na renda das famílias provocou uma revolução nas empresas, forçadas a cortar custos, enxugar linhas de produtos e até rever modelos de negócio. Milhares de empresas não resistiram à queda de consumo e foram forçadas a fechar as portas.

"O varejo vai ter de se ajustar, diminuir de tamanho e crescer menos. A expansão dos shoppings e das redes muito provavelmente será mais limitada. Agora, ao mesmo tempo que empresas vão desaparecer outras vão crescer", diz Marcel Solimeo, economista da Associação Comercial de São Paulo (ACSP).

Os supermercados tiveram de reforçar as compras de marcas mais baratas. As fabricantes de marcas líderes contra-atacaram com  promoções do tipo leve três e pague dois e lançamentos de embalagens mais econômicas.

Um modelo de loja que se beneficiou deste movimento foi o atacarejo, forma de comércio que atende o atacado e o varejo com os conceitos de self-service (autosserviço) e de cash & carry (pague e leve).

De janeiro a setembro do ano passado, enquanto os atacarejos obtiveram crescimento de 14,4%, bares, supermercados, hipermercados e farmácias registraram queda de 2,3%, de acordo com o instituo Nielsen.

APRENDIZADO

Eduardo Terra, consultor de varejo, diz que passado esses dois períodos de euforia e depois queda abrupta de consumo, a esperança é que o país tenha aprendido a lição.

“Aumentos reais de salários e crédito fácil são ações maravilhosas para elevar o consumo”, afirma. “O problema é que essa situação só se sustenta com uma  agenda para aumento de produtividade nas empresa.”

A seu ver, com mais de 12 milhões de desempregados e com a expectativa de que esse número atingirá 14 milhões neste ano, não dá para o país manter um padrão consumo nos níveis em que já teve pelo menos nos próximos cinco anos.

“Se a agenda econômica estiver  na linha baseada em investimento, não só em consumo, para que a renda do trabalhador suba com consistência, em cinco anos o país terá condições de voltar na situação que estava antes da crise”, diz ele.

Terra estima que o varejo deve crescer neste ano menos do que o PIB (Produto Interno Bruto). “Se o PIB crescer 1%, o varejo cresce entre 0,5% e 1%, o que é pouco”, diz ele. Nos últimos dois anos, o setor encolheu perto de 10%.

O Brasil, na avaliação do consultor, deu um passo importante na questão da distribuição de renda e precisa retomar este movimento com medidas consistentes, não com assistencialismo eterno.

Para o economista Nelson Barrizzellli, consultor de varejo, o Brasil perdeu uma década com a crise. A boa notícia, na sua avaliação, é que tudo indica que o pior da crise já passou.

“Há alguns meses, as empresas e os consumidores não viam saída para o país. Agora, pelo menos existe uma certa lógica na condução da política econômica.”

Se setores mais intensivos em mão de obra reagirem, como o da construção e o de confecção, na sua avaliação, as classes mais pobres poderão se beneficiar.

Para Barrizzelli, os profissionais de níveis mais altos terão mais dificuldade para se recolocar, até porque as empresas chegaram a cortar departamentos inteiros e níveis hierárquicos com a crise.

Para Solimeo, do jeito que está a economia, é difícil fazer projeções para um período mais longo. Variáveis como emprego, renda, inflação e crédito vão determinar o ritmo de atividade econômica. "O processo de retomada será lento", afirma.  

A propósito: Maria José e Reynaldo torcem para que o país volte a crescer e eles possam retomar o padrão de vida que tinha antes da crise e oficializar o casamento.

FOTOS: Fátima Fernandes/Diário do Comércio

 



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