São Paulo, 08 de Dezembro de 2016

/ Economia

Os negócios da quebrada - Entrevista com Julia Dias
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Coordenadora do projeto Visão de Sucesso e responsável pela regional Ceará da Endeavor Brasil

Qual a sua percepção sobre os empreendedores de comunidades?

Cem empresas foram selecionadas em São Paulo, Rio de Janeiro, Recife e também online. Como todas já eram atuantes, não usamos os critérios de faturamento da Endeavor para apoio (crescimento de 30% ao ano). Optamos por adequar a operacionalização do apoio à realidade do empreendedor.

Apesar de algumas terem surgido a partir de projetos desenvolvidos pela classe A, procuramos empreendedores de comunidades que tiveram iniciativa própria. O que deu para perceber é que, além de geraram uma diferença incrível no lugar de onde vêm, mostraram mais experiência técnica e habilidade para negócios do que muitos empreendedores mais capacitados.

Esse tipo de empreendedorismo é por oportunidade ou por necessidade?

Uma característica marcante dos empreendedores de comunidades é que são extremamente criativos e muito ambiciosos. Apesar de não terem escolaridade muito boa, não conseguiram ficar presos em um trabalho típico. Querem mais, e fazem acontecer. E que mais impulsiona essa habilidade de negócios é conhecer todo mundo na comunidade, de formar uma espécie de “rede social” dentro dela.

Eles criam um relacionamento forte onde vivem, e isso gera uma expertise que ninguém que tem, se vem de fora querendo implantar projetos empreendedores. Por isso, é uma mistura de tudo: oportunidade, necessidade e senso de negócios nato.

Um exemplo dessa relação muito particular foi uma ideia vinda “de fora”, de franquear a Carteiro Amigo em outras comunidades. O processo de entrar em outras favelas com franqueados foi mais complicado do que implantar o serviço na própria favela da Rocinha, onde eles tinham uma rede forte.

Em outras, o papo não é o mesmo, e o relacionamento é único em cada comunidade. Cada um entende o “seu” mercado, pois são pessoas que vivem concretamente esse dia a dia. Mas, apesar de todas as dificuldades, o Carteiro Amigo hoje é um sucesso. 

Esse contato diário com “clientes”, desenvolvido pelos modelos de negócio nascidos dentro das comunidades, faz uma diferença que chega a ser elegante quando eles decidem empreender.

A influência desse movimento nos últimos anos se deu pela ascensão da classe C, ou pela falta de oportunidades no mercado de trabalho?

Depende do caso. No Visão de Sucesso, encontramos cases com propósitos mais claros de ajudar vindo de empreendedores da classe A que dos que vinham de favelas. Para os últimos, se há uma oportunidade legal de ganhar dinheiro, pensam: “vou fazer”. Mas sem senso de devolver para a sociedade.

É business mesmo, um jeito de “adiantar meu lado”. Eles sabem que vão acabar gerando algum benefício no lugar onde cresceram. Mas sabem primeiro dos pontos e lugares estratégicos onde colocar seu negócio na comunidade, e enxergam com mais naturalidade as oportunidades de mercado. São os empreendedores que têm a visão menos romântica e mais objetiva do negócio, por isso são os que mais geram impacto.

Quais as diferenças entre o empreendedorismo "normal" e o de impacto social?

No geral, há muita discussão sobre isso dentro do próprio setor. Mas se há intenção de gerar alguma mudança, não precisa romantizar. Tem que enxergar oportunidade de negócios para gerar impacto nessas pessoas. Há muita diferença entre empreendedores que entram na comunidade querendo entender o problema deles para melhorá-­los, e o que fazem isso lá dentro, como eu já expliquei.

Apesar do impacto social, ser rentável é algo verdadeiramente intrínseco. Pela minha experiência, muitos desses empreendedores de impacto social nem sabem o que é isso. Temos um caso de Empreendedor Endeavor, a To Life, que conseguiu diminuir a mortalidade em hospitais com sua ideia (criaram um software de organização de fluxo de pacientes e classificação de riscos).

O objetivo social era muito claro, mas eles nem sabiam desse conceito de negócio. Mesmo assim, conseguiram giro e investimento interessantes,­ assim como a maioria dos empreendedores estruturados para isso.

Essas pessoas se tornam mais politizadas ao se tornarem donas do próprio negócio?

A amostra desse projeto não foi tão grande assim. O que deu para perceber é que alguns “nasceram” politizados por conta dos acontecimentos de sua própria comunidade­ e por isso viraram empreendedores. Mas não dá para afirmar se existe essa correlação.

 



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