São Paulo, 08 de Dezembro de 2016

/ Economia

Os negócios da quebrada - Entrevista com Jerônimo Ramos
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superintendente do Santander Microcrédito

O banco Santander tem agências em favelas. O banco sente o crescimento do empreendedorismo dentro das comunidades?

O Santander tem uma agência em Paraisópolis, que fará dois anos em maio deste ano. No Rio de Janeiro tem uma unidade no complexo do Alemão, inaugurada antes do movimento das UPPs, e outra unidade na Vila Cruzeiro, que faz parte da comunidade do complexo do Alemão.

Sempre houve empreendedorismo nas favelas. A novidade, a partir de 2010, é que o sistema bancário colocou luz nas favelas e correu atrás dos potenciais empreendedores. O empreendedorismo nas favelas é para subsistência. Não é o sonho de empreender, mas uma necessidade para geração de renda, na maioria dos casos.

O mercado formal de trabalho está mais fraco. E o microcrédito nasce para levar o crédito do sistema financeiro para esta população.

A iniciativa do Santander se deu por um processo interno de responsabilidade social corporativa, que já tinha dentro de suas atribuições conceder crédito para a população que demandava crédito e preenchia os pré-requisitos para obter crédito, como CPF, RG, comprovante de rendimento e renda. O microcrédito é o instrumento para levar o banco até o empreendedor.

Esses empreendedores das comunidades tinham acesso ao crédito, mas crédito informal, por meio de agiotas. Uma boa margem do trabalho deles era transferida para os agiotas. O banco colocou luz fazendo com que essas pessoas tivessem sistema, acesso formal ao crédito.

Como é feita a negociação com os empreendedores das favelas?

Nossa metodologia é levar o banco até o empreendedor por meio do agente de crédito, que visita o empreendedor, identifica a necessidade financeira e junto com isso, o agente de crédito dá sustentação econômica ao empreendedor, faz avaliação da atividade do empreendedor.

Quem pega mais crédito para empreender são costureiras, chaveiros, vendedores de cosméticos. O banco faz um levantamento sócio-econômico para entender qual é a renda final do empreendedor e com isso se define a capacidade de pagamento e crédito para este empreendedor.

Em São Paulo, o Santander atua com o microcrédito desde 2002 e, neste período, constatou que o empreendedor tinha receio de se relacionar com o banco. As portas de entrada do banco com o público das comunidades foram Heliópolis e Paraisópolis. O banco entende esse processo como troca de conhecimento.

Desde 2002, o banco já emprestou R$ 2,7 bilhões para 310 mil micro empreendedores no Brasil. A taxa de juros cobrada dos empreendedores é definida pelo Banco Central, varia de 2% a 4% ao mês. Neste momento, o Santander cobra de 2% a 2,5% ao mês. O empreendedor pode amortizar o financiamento em prazo de 4 a 24 meses.

Em São Paulo, o Santander possui uma estrutura de atendimento de 30 agentes de crédito. São quatro em Paraisópolis e quatro em Heliópolis. Esses agentes ficam em campo e estão vinculados às unidades das comunidades. As pessoas não vão até a agência. Somos, na verdade, parceiros dos empreendedores, pois lidamos com sonhos.

A vontade de empreender está se ampliando no país? 

Sim.  Se olharmos para as estatísticas de desemprego, a taxa é baixa. Mas a metodologia do IBGE considera quem efetivamente busca emprego e é baixa a taxa porque têm pessoas que em vez de ir para o mercado de trabalho elas geram o próprio emprego.

De 2010 a 2012 houve crescimento anual de 15%  no número de clientes atendidos pelo microcrédito do Santander em SP. O Nordeste lidera a onda de empreendedorismo. Em valor de financiamento, o crescimento foi de 20% anual (considerando desembolso por cliente).

O tíquete médio do microcrédito em São Paulo é maior do que a média do Brasil: R$ 2.300  por pessoa no país e R$ 3500, em média, em São Paulo. Paraisópolis puxa a média para cima. Em 2013, o tíquete médio caiu (dois pontos percentuais). Em 2014, porém, voltou a crescer. Em Paraisópolis e Heliópolis, cresceu até mais.

Em 2013 caiu o desembolso por conta do maior conservadorismo do empreendedor. E nós temos a preocupação de não dar crédito só por dar. O crédito tem que ter valor agregado. Trabalhamos o conceito de crédito consciente. O empreendedor deve tomar o crédito sem que isso se transforme em endividamento para ele. Nós temos orgulho de dizer que, nos últimos seis a sete anos, 95% dos clientes pagam os compromissos em dia. 

Quais são as áreas de maior interesse dos empreendedores nas favelas? 

Os negócios de maior interesse dos empreendedores são pequenas lojas de móveis, costureiras, e o que percebemos nos últimos quatro ou cinco anos é o aumento de negócios no setor de beleza, com o surgimento de pequenos salões de cabeleireiros, manicures, há uma onda grande de revenda de produtos de beleza. Este nicho da beleza nos últimos cinco anos acabou acarretando uma expansão na oferta de crédito menor, de R$ 1.000, para os empreendedores.

O esfriamento da economia pode tirar o ânimo desses empreendedores?

Há dois tipos de empreendedores: o de oportunidade, que tem projeto e precisa de capital, e o de necessidade, que precisa de crédito orientado. Então, como ele precisa subsistir, vai empreender. Há processo consistente de transformação e quando se fala de empreendedor de oportunidade, numa comunidade ainda há limitação. Você percebe em comunidade, por exemplo, pequenas lanchonetes e um ou outro sai fora da curva dentro da comunidade. Existe um restaurante de uma senhora, em Paraisópolis, por exemplo, em que há fila para atendimento. As pessoas querem comer a feijoada daquele restaurante. Ela melhorou a qualidade da refeição e o atendimento. Esses empreendedores viram um nicho. Existem jovens também com visão mais estruturada de negócio, maior escolaridade, e aí não sei se ele vai empreender dentro ou fora da comunidade.

Por que alguns empreendedores querem abrir ou expandir o seu negócio na própria favela em que mora?

A gente percebe  dois movimentos. Oportunidade de negócio e conforto de poder trabalhar dentro da própria comunidade. Isso gera confiança, reconhecimento, mexe também com a autoestima do empreendedor.

O que distingue o empreendedor de dentro e de fora da favela?

O que distingue são as relações e os vínculos emocionais. Até mesmo o orgulho de ver a comunidade se desenvolver. Há um conforto maior do indivíduo de trabalhar na comunidade, conhecer as características do negócio, conhecer as pessoas pelo nome. Do lado de fora das comunidades você já vê um relacionamento mais profissional, mais estratégico. O chip do empreendedor é o mesmo: crescer, crescer. O que mudam são as características, os vínculos emocionais.

A formalização desses empreendedores não é um dos maiores desafios desses empreendedores?

Acredito muito na formalização dos empreendedores. O Banco Central permite que as instituições financeiras atendam o microempreendedor informal. O microcrédito foi estruturado pelo BC justamente para atender o informal. Não que o formal não possa ser atendido, mas a estrutura do microcrédito foi permitir que os informais pudessem ser atendidos pelos bancos.

Só que, nos últimos anos, o termo formalidade está na agenda do empreendedor. O que falta é a confiança na formalização porque, ao se formalizar, ele quer ter a certeza de que vai continuar sendo o dono do negócio, já que vai ter de pagar impostos e terá de ter uma disciplina maior, ficar atento em relação ao enquadramento da atividade.

Há espaço para o empreendedor se formalizar, mas a maior dificuldade é ele se manter formalizado. A literatura fala por si só. A carga tributária é pesada.

O que motiva o empreendedorismo no país?

Cerca de 100 mil pessoas participaram de evento recente de empreendedorismo do Sebrae. Muitas pessoas participaram porque perceberam que há espaço para empreender e foram para lá para ouvir palestras, ouvir mais sobre a regulamentação dos negócios. E se consideramos que em São Paulo há cerca de 500 mil empreendedores informais, significa, portanto, que há potencial para aumentar ainda muito mais a participação deles em feiras do setor.

 



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